Até onde a taxa Selic pode cair? Economista do BV vê juros perto de 10% ao ano no longo prazo
Para Roberto Padovani, economista-chefe do Banco BV, ainda existe espaço para cortes nos juros — mas chegar a uma taxa de um dígito depende de um fator decisivo
Depois de meses de dúvidas sobre os próximos passos do Banco Central, a pergunta dos agentes financeiros deixou de ser se o Comitê de Política Monetária (Copom) irá cortar a taxa Selic ou não. Agora, a questão é: até onde vai a queda dos juros no Brasil?
Para Roberto Padovani, economista-chefe do Banco BV, o ciclo de cortes da Selic ainda não terminou, mas o ritmo deve ser mais lento do que o mercado imaginava no início do ano.
Em entrevista ao podcast Touros e Ursos, do Seu Dinheiro, ele afirmou que a inflação continua desacelerando, mas fatores como a alta do petróleo, as oscilações do dólar e os impactos climáticos (El Niño) tornaram o trabalho do Copom mais complicado.
"A gente está com uma taxa básica hoje de 14% ao ano. Então, ainda tem algum espaço para cortes em função da moderação no ritmo de crescimento da economia. Mas assim, não tem espaço para muito corte", afirmou.
Na avaliação de Padovani, a economia brasileira já sentiu os efeitos dos juros elevados. O crescimento perdeu força e isso abre espaço para juros menores — mas não tanto. A projeção de Selic terminal de 2026 do banco BC é 13,75% ao ano, ou seja, o BC deve fazer apenas mais um corte, de 0,25 ponto percentual, na reunião da próxima semana.
Por que não corta mais? Porque há muitas dúvidas sobre o comportamento da inflação nos próximos meses.
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O que está impedindo uma queda maior dos juros
No começo do ano, muitos investidores acreditavam que a Selic cairia de forma mais intensa. Para Padovani, havia um otimismo exacerbado no ar.
No fim, o cenário mudou com a guerra entre Estados Unidos e Irã.
O economista acredita que a disparada no preço do petróleo tornou o recuo da inflação mais lento em várias partes do mundo, incluindo o Brasil.
Além disso, surgiram novas preocupações: a volatilidade do dólar, a possibilidade de novas pressões sobre os preços de energia e os efeitos de fenômenos climáticos, como o El Niño, sobre os alimentos.
Com todos esses elementos na mesa, seria natural uma elevação nos juros. Porém, como a Selic está muito alta, Padovani acredita que o Banco Central não precisa subir a taxa.
Mas, levar a inflação para a meta de 3% se torna mais desafiador. Por isso, a autoridade monetária tende a agir com mais cautela.
Em vez de anunciar uma sequência longa de cortes, o economista acredita que a tendência é não antecipar movimentos e avaliar os dados econômicos reunião após reunião.
A Selic pode voltar para um dígito?
Para Padovani, a resposta é sim, mas não no curto prazo.
No podcast, ele argumenta que, hoje, a discussão já não é mais se os juros estão suficientemente altos para esfriar a economia. O debate passou a ser se o Banco Central tem confiança suficiente para levar a inflação à meta.
"Ele [o BC] está seguro de que a inflação vai voltar para meta de 3% em algum momento do tempo? Está seguro dessa convergência?", questionou.
Em sua visão, à medida que essa confiança aumente, a Selic pode caminhar gradualmente para um patamar próximo de 10% ao ano.
Isso porque, o BC não precisa entregar os 3% do dia para a noite. A confiança de que se chegará lá no futuro já é suficiente para os agentes financeiros.
“O nome do jogo é credibilidade”, afirma.
Touros e Ursos da semana
No encerramento do episódio, o tradicional quadro Touros e Ursos trouxe os destaques da semana.
No lado dos Ursos (destaques negativos), Padovani escolheu o Federal Reserve, banco central dos EUA. O economista acredita que a autoridade monetária pode ser obrigada a voltar a elevar os juros nos próximos meses, movimento que tradicionalmente cria dificuldades para mercados emergentes como o Brasil.
Ainda na linha dos juros, a França apareceu como outro urso. A piora das contas públicas francesas devido ao aumento da dívida e dos juros dos títulos do governo tem pressionado a segunda maior economia da zona do euro.
Do lado dos Touros (destaques positivos), Padovani destacou a expectativa de corte da Selic. Dados indicando desaceleração da economia e da inflação indicam um cenário mais propício para a continuidade desses cortes.
Alinhado a esse touro, outra escolha foi o Tesouro IPCA+. Depois de meses pagando taxas recordes, os papéis registraram valorização em agosto com o alívio recente nos juros e da inflação.
Confira o episódio completo do Touros e Ursos
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