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PERÍODO ÚMIDO

Chuva derruba preço da energia, mas El Niño acende alerta para dezembro; veja o que esperar até 2027

Início do período úmido melhora perspectiva para os reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste e derruba contratos no mercado livre, mas meteorologistas divergem sobre a duração das chuvas

Chuva pode baratear preço da energia elétrica, mas cenário pode mudar até 2027
Motociclista tenta atravessar rua alagada no Rio de Janeiro. - Imagem: Fernando Frazão (Agência Brasil)

As chuvas que chegaram ao Sudeste e ao Centro-Oeste nos primeiros dias de setembro trouxeram um alívio para o setor elétrico brasileiro e já começam a aparecer no preço da energia. Com a perspectiva de continuidade das precipitações ao longo do mês, os reservatórios das hidrelétricas devem se manter em níveis considerados confortáveis no curto prazo, enquanto as cotações no mercado livre recuam.

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O cenário, porém, está longe de ser uma carta branca para o setor. Meteorologistas consultados pela Broadcast apontam que o início da estação úmida pode ser mais favorável, mas há incertezas sobre a distribuição das chuvas nos últimos meses do ano. Com menos precipitações e temperaturas mais elevadas, a demanda por energia pode aumentar e pressionar os preços a partir de dezembro e, principalmente, no primeiro trimestre de 2027.

A diferença entre o cenário de curto e de médio prazo já aparece nas negociações. Na plataforma BBCE, o megawatt-hora (MWh) para entrega em setembro era negociado na quinta-feira a cerca de R$ 147, abaixo dos R$ 164/MWh registrados no fechamento da semana anterior.

Para outubro, o contrato estava em torno de R$ 162/MWh, contra R$ 193/MWh no relatório semanal mais recente. Já a energia para dezembro recuou para aproximadamente R$ 262/MWh, ante R$ 273/MWh. No primeiro trimestre de 2027, o contrato chegou a R$ 288/MWh, abaixo dos R$ 300 observados anteriormente.

Chuva chega primeiro aos reservatórios

O Sudeste e o Centro-Oeste têm um peso especialmente relevante para o sistema elétrico brasileiro. Juntas, as regiões concentram grande parte da capacidade de armazenamento das hidrelétricas e funcionam, na prática, como uma espécie de “caixa d’água” do sistema.

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Por isso, a mudança no regime de chuvas tem impacto direto sobre a oferta de energia e, consequentemente, sobre os preços.

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Segundo Gustavo Verardo, meteorologista da Climatempo, o início da estação úmida deve ser ainda mais chuvoso por influência do El Niño. O problema é que esse padrão pode perder força ou se tornar menos regular conforme o calendário avança.

“Esse início de estação úmida vai ser ainda mais úmida por conta do fenômeno El Niño, mas, à medida que seguimos em direção ao final do ano e começo do ano que vem, a irregularidade das chuvas se torna bem maior”, afirma Verardo.

Na avaliação do meteorologista, a tendência é de aumento dos períodos sem chuva nos próximos meses, sobretudo no Sudeste e no Centro-Oeste. Ao mesmo tempo, temperaturas mais altas em boa parte do país podem elevar a carga do sistema elétrico.

O resultado seria uma combinação menos favorável para o consumidor de energia: menos água chegando aos reservatórios e maior demanda por eletricidade.

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“Não esperamos o mês de dezembro tão molhado no Sudeste, vamos começar a ter um bom corte das chuvas de qualidade, que forma ENA, principalmente a partir de dezembro”, acrescenta.

A Energia Natural Afluente (ENA) é um dos principais indicadores acompanhados pelo setor elétrico porque mede a quantidade de água que chega aos reservatórios e, portanto, ajuda a estimar o potencial de geração das hidrelétricas.

Preço da energia pode voltar a subir

O cenário também preocupa Mateus Nunes, head de Planejamento Energético da Tempo OK. Para ele, a redução das chuvas no Sudeste e no Centro-Oeste nos próximos meses, combinada com a perspectiva de seca no Norte e no Nordeste, deve aumentar a complexidade da operação do sistema.

“Setembro vai ser bom, é como se a chuva começasse um pouquinho mais acima, pegando reservatórios do Sudeste. Depois, em outubro ela desce um pouco mais, pegando mais os reservatórios de fio d’água do Sudeste, e em novembro de novo desce um pouco mais, ficando mais restrita à Bacia do Iguaçu, até a altura do estado do Paraná”, explica.

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Nesse cenário, Nunes prevê maior volatilidade para os preços da energia nos próximos meses. Quando chove de forma consistente nas bacias que abastecem as hidrelétricas, aumenta a oferta de energia e diminui a necessidade de acionar usinas termelétricas, geralmente mais caras. Quando a chuva falha, acontece o movimento contrário, e os preços podem reagir rapidamente.

Nem todos os meteorologistas veem um cenário tão negativo

A perspectiva, contudo, não é unânime. Alexandre Nascimento, sócio-diretor e meteorologista da Nottus, vê espaço para a continuidade das chuvas tanto no Sul quanto no Sudeste e no Centro-Oeste, também sob influência do El Niño.

“Mês a mês vem se confirmando a mesma previsão, tanto pelo modelo europeu quanto pelo modelo americano”, afirma. Nas projeções da Nottus, São Paulo, o centro-sul de Minas Gerais, o Rio de Janeiro e Mato Grosso do Sul devem registrar volumes de chuva acima da média até dezembro.

Nascimento também pondera que, apesar das ondas de calor observadas em partes do Centro-Oeste, Norte e Nordeste, os episódios mais intensos nos grandes centros urbanos, como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, têm sido relativamente curtos. “Essa perspectiva se mantém nos próximos meses”, acrescenta.

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Paraná concentra boa parte da chuva que importa para a energia

A distribuição das chuvas também exige atenção. Segundo Matheus Machado, especialista de inteligência de mercado do Grupo Bolt, boa parte da ENA prevista para outubro no subsistema Sudeste/Centro-Oeste estará concentrada na bacia do Paraná.

“Cerca de 75% da ENA do Sudeste/Centro-Oeste em outubro está no Paraná. Isso gera um grande impacto no curto prazo, pela capacidade de geração. Mas, se tivermos uma interrupção nas chuvas em um mês, o preço volta a subir”, afirma.

Por enquanto, o cenário é positivo. Setembro começou com chuvas que ajudam a preservar os níveis dos reservatórios. O movimento também contribui para aliviar os preços da energia.

Daqui para frente, porém, o mercado deve ficar de olho em dois fatores: a regularidade das chuvas e o comportamento da demanda. Temperaturas mais altas podem aumentar o consumo de eletricidade e pressionar os preços.

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