EUA podem fechar a torneira do diesel e deixar o Brasil mais vulnerável, segundo Citi; é hora de rever a carteira de BDRs?
Dependência do diesel norte-americano e falta de fornecedores alternativos podem pressionar a estatal, as distribuidoras e os importadores privados

A disputa internacional pelo diesel pode se intensificar nos próximos meses e deixar o Brasil ainda mais vulnerável, especialmente se a oferta norte-americana do combustível for proibida. Essa é a avaliação do Citi em relatório divulgado nesta segunda-feira (28).
Para quem perdeu o fio da meada, a preocupação ganhou força após uma declaração de Donald Trump na última terça-feira (22). Na ocasião, o presidente norte-americano defendeu a suspensão das exportações de diesel para manter mais combustível no país e tentar conter os preços recordes.
A medida ainda está em avaliação e pode resultar em uma restrição total ou parcial. No entanto, a possibilidade preocupa especialmente o Brasil, que depende do diesel importado para complementar a oferta doméstica.
Nesse contexto, o Citi identificou os agentes mais expostos e chamou atenção para uma pressão adicional no país: o início do plantio da safra de verão. “Nesse cenário, há uma série de incertezas sobre a oferta do combustível”, afirmam os analistas.
O que o Trump falou?
Na semana passada, Donald Trump afirmou que apoiava uma proibição temporária das exportações de diesel. A declaração ocorreu após candidatos republicanos ao Congresso defenderem a medida diante dos preços recordes do petróleo, que já ultrapassam US$ 100 por barril.
Entre eles, o senador Dan Sullivan, do Alasca, pediu a suspensão sob a premissa de reconstruir os estoques norte-americanos antes do inverno e “colocar as famílias norte-americanas e do Alasca em primeiro lugar”.
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O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, afirmou que o governo estava analisando a viabilidade da proibição, e se uma restrição total ou parcial funcionaria.
No Brasil: o que implicaria?
Segundo o Citi, uma eventual proibição das exportações norte-americanas de diesel deixaria o Brasil em uma situação delicada.O problema não está apenas na disponibilidade de petróleo bruto, mas também na capacidade de transformá-lo em combustível.
Segundo Matheus Spiess, analista da Empiricus, interrupções em refinarias ou uma capacidade de processamento próxima do limite podem reduzir a oferta de diesel mesmo quando ainda há petróleo disponível. Nesse cenário, o combustível tende a ser direcionado aos mercados dispostos a pagar mais.
A avaliação do banco também considera a dependência brasileira do combustível produzido nos Estados Unidos. Segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), 80% do diesel importado pelo país neste mês teve origem em refinarias norte-americanas.
Nesse cenário, os importadores privados seriam os mais prejudicados, já que o custo de trazer diesel do exterior supera o preço praticado no mercado brasileiro. Mesmo com o subsídio de R$ 2,12 por litro, a compensação pode não ser suficiente para cobrir essa diferença, reduzindo o incentivo para novas compras.
Encontrar fornecedores alternativos também não seria simples. A Rússia restringiu as exportações após ataques às refinarias do país, enquanto os conflitos no Oriente Médio reduziram a oferta global do combustível.
O que a Petrobras fez?
Diante desse cenário, a Petrobras (PETR4) já contratou os 650 milhões de litros de diesel que pretende importar em outubro. Para novembro, a estatal não prevê a necessidade de realizar compras expressivas no exterior.
A CEO da companhia, Magda Chambriard, afirmou ainda que avalia a possibilidade de a Petrobras atender toda a demanda brasileira por diesel no próximo plano estratégico.
Enquanto isso, a empresa pretende elevar a oferta com os projetos já previstos no planejamento atual. As iniciativas incluem a conversão de 173 mil barris diários de diesel S500 em S10 — versão mais limpa do combustível, com menor teor de enxofre e adequada aos motores mais modernos.
A Petrobras também prevê adicionar 134 mil barris por dia de nova capacidade, principalmente com o segundo trem da Refinaria Abreu e Lima (RNEST), em Pernambuco. O projeto funciona como uma nova linha de processamento dentro da refinaria e permitirá aumentar a produção de derivados, sobretudo de diesel S10.
Mas, apesar dos esforços, a expectativa ainda é de um mercado “mais apertado”, na avaliação do Citi. “Dado que a falta de capacidade ociosa no mundo torna o cenário desafiador para as distribuidoras brasileiras de combustíveis e para a Petrobras”, afirmam os analistas.
A proibição realmente pode acontecer?
Apesar da preocupação do mercado, o Citi considera improvável uma proibição total das exportações de diesel dos Estados Unidos. A proposta é vista com cautela por autoridades do próprio governo de Trump, como o secretário de Energia, Chris Wright, e pelo setor de petróleo.
O principal risco é que o excesso de diesel na Costa do Golfo reduza as margens das refinarias e leve as empresas a processarem menos petróleo, diminuindo também a produção de gasolina e de querosene de aviação.
Fora dos Estados Unidos, a retirada das cargas norte-americanas poderia agravar a escassez e elevar os preços do combustível, além de prejudicar aliados europeus dependentes dessas exportações.
“Caso o cenário de proibição das exportações pelos EUA não se concretize, ainda vemos um cenário positivo para as distribuidoras e para a Petrobras, uma vez que o preço do diesel e o diferencial entre o preço doméstico e o preço de paridade de importação (PPI) devem permanecer elevados, sustentando bons resultados pela frente”, afirmam os analistas.
O que o investidor deve fazer?
Com os próximos passos de Donald Trump ainda incertos e a carteira de BDRs da Empiricus para setembro já divulgada, uma dúvida pode surgir entre os investidores: é hora de rever a estratégia diante do risco de restrição às exportações de diesel?
A carteira incluiu a Valero, uma das maiores refinarias dos EUA, baseada na expectativa de que a oferta limitada de derivados favoreça as margens do setor. A lógica é que diesel e gasolina permaneçam valorizados em relação ao petróleo bruto, ampliando a diferença entre o custo da matéria-prima e o preço dos produtos vendidos pelas refinarias.
Para Spiess, responsável pela carteira, a recomendação continua válida. O analista considera improvável que a medida seja implementada de maneira ampla e avalia que, caso avance, provavelmente será temporária.
A posição na Valero, porém, não representa uma aposta ampla em energia, mas uma escolha seletiva. Segundo Spiess, “ainda estamos under no setor de energia frente ao benchmark” — ou seja, a carteira mantém uma exposição ao segmento inferior à sua participação no índice de referência, mostrando que a casa evita uma exposição excessiva à energia como um todo.
*Sob supervisão de Carolina Gama.
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