Não adianta culpar petróleo ou El Niño: a queda da taxa Selic depende da dívida pública, e ela vai continuar crescendo, diz ex-BC Mário Mesquita
Economista espera corte de 0,25 ponto percentual nos juros na próxima semana, mas não espera flexibilização consistente à frente

Na próxima semana o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central irá se reunir para decidir o patamar da taxa Selic pelos próximos 45 dias. Engana-se quem pensa que o petróleo ou o El Niño farão parte da análise central dos diretores para estabelecer o juro básico do país.
Para o ex-diretor de política monetária do BC, Mário Mesquita, o monotema para juros, inflação e demais fatores centrais da economia do país é apenas um: a trajetória da dívida pública.
Durante o evento "Inside LatAm: Brasil 2026", promovido pela Moody's nesta quinta-feira (30), Mesquita afirma que a política monetária brasileira está "constrangida" pelo cenário fiscal e há limites sobre o que o BC pode fazer neste momento.
"O mercado espera que a Selic siga caindo o ano que vem. Tenho dúvidas sobre isso porque vejo limites no quanto dá para cortar. Uma outra estratégia que o Banco Central pode perseguir é tentar cortar um pouquinho mais esse ano e depois parar, não cortar o ano que vem", diz Mesquita.
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Não é sobre hoje
Para o ex-BC, se o que norteasse o Banco Central fosse a inflação corrente, não teria como fazer cortes nos juros hoje. Porém, o comitê olha para o futuro, mais precisamente um horizonte de aproximadamente 18 meses.
Por isso, fatores que os economistas chamam de "choques inflacionários", que são movimentos de preços pontuais na atualidade — como a variação na cotação do petróleo e o El Niño — não podem ser combatidos pela taxa Selic.
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"A política monetária demora a atuar na economia. A decisãodo prefeito de São Paulo sobre a tarifa de ônibus, por exemplo, é muito mais importante para a inflação desse ano, mas não tem muito que o Copom possa fazer", disse o economista.
Isso não significa, entretanto, que o comitê não tenha desafios significativos. Para Mesquita, o desconforto da autoridade monetária que as expectativas para a inflação em 2026, 2027 e 2028 não estejam convergindo para a meta de 3%.
"Olhando dois anos à frente, aí sim a inflação é resultado de decisões de política monetária", afirma Mesquita.
E, o fato de as expectativas de longo prazo estarem tão longe da meta, para o ex-BC, é "o mercado enviando um sinal de que duvida que o Banco Central fará o serviço completo".
O limite da queda dos juros
Embora dados de curto prazo — como o IPCA-15 de julho vindo abaixo das expectativas, subindo apenas 0,06% no mês — possam reforçar um corte residual na Selic na próxima reunião, Mesquita afirma que as perspectivas para reduções mais profundas são severamente limitadas pelo déficit nominal e pelo crescimento da dívida pública.
A grande questão é estabilizar a dívida pública e adotar medidas que possibilitem a sua queda no horizonte mais longo.
Entretanto, nas contas do ex-BC, para estabilizar a dívida que está atualmente em 80% do PIB, o Brasil precisaria de um superávit primário (quando as receitas do governo superam os gastos) de 4%.
E aqui que entra o ajuste fiscal — tão demandado pelos agentes financeiros — que permitiria atingir esse superávit. Mesquita considera que seria necessário adotar medidas como:
- revisão do piso constitucional para gastos com saúde e educação,
- fim da correção de benefícios públicos acima da inflação,
- estabelecimento de objetivos críveis para alcançar uma dívida de 55% a 60% do PIB ao longo do tempo, e
- reduzir os créditos tributários, inclusive de investimentos isentos, como LCIs e LCAs.
A alternativa "indireta" a um ajuste fiscal robusto seria o que o economista chama de " repressão financeira".
Neste caso, o Banco Central teria que manter juros reais forçadamente baixos (atualmente é um dos maiores do mundo, em 9% ao ano), gerando inflação mais alta para corroer o valor da dívida.
Para Mesquita, esse é o pior cenário possível porque prejudica muito a economia e a população mais vulnerável. Ainda assim, ele vê esse cenário mais provável do que uma crise financeira profunda, com recessão do PIB.
O que esperar da Selic?
Em sua apresentação, Mesquita brincou que a população se importa mais com a seleção brasileira perder para Noruega na Copa do Mundo do que com uma projeção de PIB "medíocre" de 2% ao ano há anos.
Com um desempenho dessa magnitude, frente uma média de crescimento global de 3% ao ano, o economista acredita que o Brasil está perdendo relevância global.
Para ele, independentemente do resultado eleitoral deste ano, a única certeza é que a dívida pública continuará crescendo, a menos que haja uma mudança profunda na política fiscal do país.
No entanto, seu cenário-base é de um ajuste — se vier — gradual, dada a complexidade do sistema fiscal do país e a dificuldade de implementar mudanças.
Enquanto não há clareza sobre o próximo governo ou o ajuste fiscal, há algumas coisas que o economista classifica estruturais no país, que não mudam independentemente do nome que se sentar na cadeira da Presidência. São elas:
- rigidez fiscal: 90% a 95% dos gastos são determinados pela legislação;
- política monetária sob pressão: em ajuste fiscal, juros não caem;
- reforma tributária: IVA já foi aprovado, implementação é desafiodora;
- agronegócio como âncora: liderança do Brasil já está consolidada; e
- potencial de crescimento de 2% do PIB: sem reformas, esse é o teto.
“Crescemos muito menos do que o mundo há muito tempo. Não estou apavorado, mas estou um pouco frustrado”, afirma Mesquita.
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