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O QUE OS GRINGOS VEEM

A Moody’s está de olho no Brasil e estes são os pontos fortes e fracos para o rating soberano subir

O risco fiscal brasileiro preocupa investidores globais, exigindo ajustes para estabilizar a dívida e conseguir retomar o grau de investimento

William Foster, vice-presidente da Moody's Ratings e responsável pela classificação soberana do Brasil.
William Foster, vice-presidente da Moody's Ratings e responsável pela classificação soberana do Brasil. Imagem: Divulgação/ Moody's Ratings

O risco fiscal brasileiro não está no radar apenas dos agentes financeiros locais: os gringos também estão de olho. Esta é a avaliação de William Foster, vice-presidente da Moody's Ratings e responsável pela classificação soberana do Brasil.

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A agência de classificação de risco Moody's estima que o próximo governo precisará de um ajuste fiscal de 2% a 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) para estabilizar a dívida e ter condições de almejar a retomada do grau de investimento no rating.

No evento “Inside LatAm: Brasil 2026”, nesta quinta-feira (30), Foster afirmou que a credibilidade fiscal do país dependerá da capacidade de o próximo governo reduzir a rigidez do orçamento e criar um "ciclo virtuoso" que permita a queda dos juros.

Neste momento, o rating do Brasil pela Moody's é Ba1, um degrau abaixo do grau de investimento. Essa nota foi atribuída em outubro do 2024, quando a agência deu um upgrade em relação ao Ba2 anterior e manteve a perspectiva positiva para o país.

Os motivos apontados para o aumento foram o desempenho do PIB mais forte que o previsto nos anos anteriores e as reformas econômicas e fiscais. O país tinha passado pela reforma da previdência e trabalhista nos governos de Michel Temer (2016-18), além de estabelecer a autonomia do Banco Central e marcos regulatórios, como do saneamento.

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Mas, desde então, estancou. Foster acredita que o maior desafio agora é o país realizar reformas e outras medidas que elevem o crescimento potencial do PIB para além ou acima de 2% e diminua o custo da dívida.

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"Ajustes na política fiscal e econômica após a eleição serão necessários para estabilizar o peso da dívida e priorizar a consolidação fiscal a longo prazo", disse o VP da Moody's.

O desafio fiscal do Brasil

Segundo a Moody's, a situação fiscal do Brasil é o elo mais fraco do perfil de crédito do país. Enquanto o rating do país é Ba1, o rating isolado do perfil fiscal é somente B1 — três degraus abaixo.

Para Foster, o país tem três desafios menores, dentro dessa questão maior que é o fiscal.

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O primeiro é a exposição da dívida ao ciclo de juros. Diferentemente de seus pares, o Brasil tem cerca de 50% da sua dívida indexada à taxa Selic. Isso significa que nos ciclos dejuros altos (como o atual), o déficit financeiro aumenta proporcionalmente.

Com um juro real (acima da inflação) de 9% — entre os maiores do mundo — a pressão sobre a política monetária também é alta. "É um vento contrário significativo para o governo e, obviamente, para o setor privado também", disse Foster.

E, então, vem a questão do orçamento rígido. O vice-presidente da Moody's afirma que o orçamento governamental do Brasil é o mais rígido da América Latina. Cerca de 95% dos gastos obrigatórios estão vinculados à previdência e a programas sociais.

Isso gera um problema secundário: toda vez que esses programas passam por correção de pagamento pela inflação, levanta o risco de aumento dos preços na economia.

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Por fim, o desafio fiscal desemboca no compilado final de números: resultado primário (receitas menos despesas antes dos juros) versus déficit negativo. As receitas do Brasil estão acima de seus pares, mas déficit também, devido ao pagamento de juros, que chegou a 7,7% do PIB em 2025.

Sem reformas, a Moody's projeta que a dívida/PIB subirá de 80% para 90% até 2030.

Como chegar no grau de investimento

Comparado a países com grau de investimento como Colômbia e México, o Brasil é mais forte economicamente, porém significativamente mais fraco na parte fiscal, segundo a Moody's.

São três degraus de diferença na força fiscal entre o Brasil e a Colômbia, por exemplo.

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O principal diferencial negativo é o custo da dívida: o Brasil gasta 7,7% do PIB com juros, enquanto o Paraguai gasta menos de 2% e a Colômbia cerca de 3%, afirmou Foster.

A Moody's está de olho em alguns gatilhos que podem ajudar o país a rever seu grau de investimento. O principal deles é uma reforma que reduza a indexação dos gastos obrigatórios à correção pela inflação. O executivo também ponderou sobre conter o avanço das emendas parlamentares, que saltaram de 2% para 24% do orçamento discricionário desde 2015.

Essas medidas são consideradas cruciais para que o governo recupere a flexibilidade necessária para gerir as contas públicas e construir credibilidade institucional.

Outro gatilho fundamental é a redução sustentada das taxas de juros reais. Foster afirma que são necessárias reformas macroeconômicas que melhorem a transmissão da política monetária pela economia, o que permitiria juros menores sem comprometer a meta de inflação.

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"Assim, os déficits podem cair gradualmente ao longo do tempo e então o país ter um círculo virtuoso, dada a sensibilidade ao ciclo de juros, poderia ter um impacto muito significativo nos índices de dívida e nos déficits fiscais da economia", disse Foster.

Segundo o executivo, isso não apenas aumentaria o espaço fiscal do governo, mas também reduziria o custo de capital para o setor privado, impulsionando investimentos na economia real, hoje freados pelos altos juros.

Mas tem risco de downgrade também…

A Moody's acredita que o país tem potencial para elevar seu PIB de maneira sustentável de 2% para 4% ao ano, caso consiga destravar investimentos em setores estratégicos.

Para Foster, o Brasil está excepcionalmente bem-posicionado para a transição global, com vantagens competitivas em energia limpa, minerais críticos e terras raras, além da eficiência econômica esperada com a reforma tributária que implantou o IVA.

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Mas, caso o próximo governo não direcione os aspectos cruciais do endividamento público, o sonho do grau de investimento pode se tornar pesadelo. Afinal, há gatilhos para um possível downgrade também.

O principal risco é a continuidade da trajetória negativa da dívida, que enfraquece a credibilidade do país em estabilizar seu ônus financeiro a longo prazo, diz o executivo.

Outro ponto é a deterioração da acessibilidade da dívida, refletida no fato de que o pagamento de juros consome atualmente 20% da receita do governo, um patamar significativamente superior à média de 14% observada em seus pares internacionais.

Somado a isso, há o risco de uma desaceleração econômica material que leve o crescimento do PIB para níveis abaixo dos 2% previstos. Isso comprometeria a arrecadação do governo e a capacidade de consolidação fiscal.

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Foster resume tudo ao cenário de juros reais elevados (em torno de 9%), que cria um "fardo" ao país que, se não for mitigado por um crescimento econômico robusto ou ajustes fiscais, tornará a dinâmica da dívida insustentável, pressionando a nota de crédito para baixo.

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