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Casas e apartamentos do Morumbi e Bela Vista estão entre as quedas de preços mais expressivas

Em uma cidade formigueiro como São Paulo, milhões de paulistanos se deslocam diariamente dos trabalhos no centro expandido para os bairros periféricos onde os preços dos imóveis costumam ser mais baratos. Mas esse fluxo já tem aparecido nos valores das casas e apartamentos: no primeiro semestre de 2026, foram nas localizações periféricas as maiores valorizações da cidade.
Segundo um levantamento realizado pela Loft, empresa de tecnologia voltada para o mercado imobiliário, os 10 bairros com as maiores valorizações dos imóveis nos seis primeiros meses do ano estão localizados nas periferias.
A alta dos preços chegou a 79,6% em relação ao mesmo período de 2026, como foi o caso de Perus, no extremo da Zona Norte.
O preço médio dos imóveis por lá era de R$ 628 mil no primeiro semestre de 2025. Neste ano, o valor saltou para R$ 1,1 milhão.
Um cenário parecido também ocorreu no Jardim Helena, na Zona Leste, e em Parelheiros, na Zona Sul. Os dois bairros tiveram um aumento de preços de 77% e 72,3%, respectivamente.
| Ranking | Bairro | Zona | Tíquete médio 2025 (em R$) | Tíquete médio 2026 (em R$) | Variação (%) |
| 1 | Perus | Norte | R$ 628.281 | R$ 1.128.583 | +79,6% |
| 2 | Jardim Helena | Leste | R$ 602.792 | R$ 1.066.653 | +77,0% |
| 3 | Parelheiros | Sul | R$ 601.031 | R$ 1.035.319 | +72,3% |
| 4 | Iguatemi | Leste | R$ 416.520 | R$ 651.158 | +56,3% |
| 5 | Cidade Tiradentes | Leste | R$ 191.768 | R$ 297.534 | +55,2% |
| 6 | Jardim Ângela | Sul | R$ 634.977 | R$ 894.577 | +40,9% |
| 7 | Lajeado | Leste | R$ 281.114 | R$ 376.296 | +33,9% |
| 8 | Capão Redondo | Sul | R$ 406.056 | R$ 524.629 | +29,2% |
| 9 | Itaim Paulista | Leste | R$ 352.323 | R$ 454.093 | +28,9% |
| 10 | Parque Interlagos | Sul | R$ 1.105.335 | R$ 1.410.305 | +27,6% |
À princípio parece contraintuitivo bairros que estão mais distantes do centro alcançarem valores acima de R$ 1 milhão e passarem por disparadas de preço expressivas, mas Fábio Takahashi, gerente de dados da Loft, explica que há alguns motivos para esse movimento.
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Existem fatores de mercado, mas também pontos específicos de cada bairro.
No caso de Perus, por exemplo, Takahashi explica que tem ocorrido um investimento em obras de infraestrutura e saneamento. Em maio deste ano, a prefeitura anunciou que deve construir três piscinões e ampliar uma Unidade Básica de Saúde (UBS).
A localização também é um fator positivo: a proximidade com a Rodovia dos Bandeirantes, Anhanguera e Rodoanel favorece a mobilidade e, consequentemente, um aumento de preços dos imóveis da região.
“Em regiões atendidas por transporte público, como linhas de trem e metrô, existem fundamentos que sustentam o crescimento. É raro observar uma valorização relevante sem que exista algum atributo urbano importante, seja infraestrutura ou acesso a transporte” explica.
Mas os motivos vão além de melhorias dos bairros e estão relacionados a um cenário mais amplo.
Uma das alavancas tem sido o Minha Casa, Minha Vida. Com mais incentivos aos financiamentos imobiliários e com o teto de preços dos imóveis do programa em R$ 600 mil, Takahashi explica que é natural uma demanda maior nas casas e apartamentos com menor tíquete, aumentando os preços cobrados.
Outro fator também está ligado ao patamar de preço dessas localizações. “Bairros com tíquete médio mais baixo tendem a ter mais espaço para valorização. Em regiões onde o tíquete médio já está acima de R$ 1,5 milhão, R$ 2 milhões ou R$ 3 milhões, a margem para crescimento é menor”, diz Takahashi.
O especialista também não descarta um motivo estatístico. A pesquisa é realizada com base em imóveis disponíveis plataformas online. O estudo considera 800 mil anúncios de venda e somente de bairros com pelo menos 50 casas e apartamentos ativos nos sites.
No entanto, regiões mais periféricas tendem a ter menos anúncios online. Com uma amostra menor, os preços ficam mais suscetíveis a oscilações. A entrada ou saída de poucos imóveis pode impactar de forma relevante a média de preços.
A pesquisa também mostra os bairros onde os imóveis mais desvalorizaram no primeiro semestre do ano.
O topo do pódio é ocupado pelo Morumbi, na Zona Sul, que teve uma queda de 11% nos preços. O tíquete médio no bairro é de R$ 3,4 milhões.
Outro conhecido por imóveis mais caros que passou por uma queda foi a Bela Vista. A redução foi de 8,2% no semestre, com casas e apartamentos a R$ 1,2 milhão agora.
Segundo a Loft, esses são bairros que passaram por um período recente de valorização significativa e agora estão em um processo de acomodação.
Além disso, na Bela Vista, houve um “boom” de lançamentos imobiliários. No início de 2025, o bairro chegou a liderar um ranking de venda de imóveis novos. Um estudo da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) mostrou na época que, em 2024, o número de unidades vendidas saltou 104% em relação ao ano anterior.
Portanto, para Takahashi, o movimento atual é de ajuste desse cenário.
O especialista também defende que existe uma mudança no fluxo devido aos tíquetes altos. Uma das justificativas é que, com o cenário macroeconômico mais conturbado, com taxa de juros elevada, a demanda por imóveis caiu nas regiões mais caras, o que tende a pressionar os valores cobrados.
Esse cenário de alta dos imóveis pode se ampliar nos próximos meses, explica o gerente de dados. E o motivo por trás dessa expectativa é a redução da taxa Selic.
Embora a projeção do mercado para o corte de juros já não seja mais otimista como no início do ano, a taxa básica pode encerrar 2026 a 14% ao ano e as reduções devem continuar no ano que vem.
Para Takahashi, “a tendência é que, nos próximos meses, as famílias que dependem de crédito encontrem condições melhores. Isso deve ampliar a demanda por imóveis e aquecer ainda mais o mercado. Se houver mais compradores, é esperado que a valorização continue”.
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