‘Taxa das blusinhas’ pode cair e acende alerta no varejo: Lojas Renner (LREN3), C&A (CEAB3) e Riachuelo (RIAA3) estão preparadas?
Para o BTG Pactual, revisão das tarifas pode reacender a pressão competitiva de plataformas estrangeiras, colocando varejistas brasileiros sob novo teste em meio a juros altos e consumo enfraquecido

O fantasma do fim da chamada “taxa das blusinhas” voltou a rondar as varejistas listadas na bolsa. Segundo informações da imprensa, a possível revisão ou até revogação da tarifa sobre compras internacionais de até US$ 50 entrou no radar do governo Lula, em meio a preocupações com a popularidade e a percepção de renda da população.
Segundo o BTG Pactual, a eventual redução da alíquota sobre importações de baixo valor pode aliviar a percepção de renda da população, ao baratear produtos estrangeiros. Por outro lado, a medida tende a aumentar a pressão competitiva sobre os varejistas nacionais.
“Em nossa opinião, qualquer revisão dos impostos de importação deve ser negativa para os varejistas locais, trazendo pressão sobre os preços, embora não na mesma medida que no passado”, escreve o banco em relatório.
A pressão da concorrência estrangeira
De acordo com os analistas do banco, a experiência recente mostra que o impacto da “taxa das blusinhas” foi relevante, mas não suficiente para frear de vez o avanço dos players estrangeiros, como Shein e Aliexpress.
Após a implementação da cobrança — de 20% de imposto de importação mais Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) —, o volume de encomendas internacionais caiu de forma expressiva, passando de cerca de 18 milhões por mês para algo próximo de 11 milhões no fim de 2024.
Mas o efeito foi temporário. Nos últimos meses, as importações já voltaram a crescer e hoje giram entre 15 milhões e 17 milhões de encomendas mensais, se aproximando dos níveis anteriores à taxação.
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Ainda assim, o período serviu como um respiro para o varejo local, que conseguiu ganhar participação de mercado ao melhorar execução, sortimento e estratégia de preços. No entanto, apesar do avanço das empresas brasileiras, a diferença de preços ainda pesa contra o varejo doméstico.
Mesmo com a taxa das blusinhas, Shein e companhia seguem mais baratas
Levantamentos recentes do BTG mostram que plataformas internacionais como a Shein continuam operando com preços mais baixos do que grandes redes locais.
Em uma cesta comparável de produtos, a varejista chinesa aparece cerca de 6% mais barata que a Riachuelo (RIAA3), 10% abaixo da Lojas Renner (LREN3) e 13% inferior à C&A (CEAB3).
A diferença já foi maior, mas segue relevante.
“Apesar dos desafios que os players estrangeiros enfrentaram no Brasil nas últimas décadas (incluindo a introdução de impostos de importação), ainda vemos a maioria dos players expostos a consumidores de média/baixa renda lutando contra uma concorrência mais acirrada das plataformas internacionais e um poder de precificação limitado”, diz o relatório do BTG.
Nesse contexto, uma eventual redução de impostos pode reabrir uma vantagem competitiva importante para os players internacionais.
O que muda se o governo mexer na “taxa das blusinhas”
O impacto de uma possível revisão da tributação ainda depende de pontos-chave. O primeiro fator é o tamanho da mudança. Uma redução parcial teria efeitos mais limitados, enquanto uma revogação completa ampliaria a pressão sobre preços.
Um cenário mais extremo, que incluiria também alterações no ICMS, é considerado menos provável, mas teria impacto ainda mais relevante.
O segundo ponto é que o jogo mudou desde 2023. O varejo local não ficou parado: houve investimentos relevantes em produto, logística e estratégia comercial, o que tornou as empresas mais preparadas para competir.
Ao mesmo tempo, as plataformas internacionais também evoluíram, com maior presença de vendedores locais e avanços na infraestrutura logística dentro do Brasil — o que reduz parte das fricções que existiam anteriormente.
Durante o período mais crítico da concorrência, entre 2023 e 2024, o crescimento das varejistas listadas ficou limitado a algo próximo de 5%. Hoje, a leitura é de que essas empresas estão mais estruturadas para enfrentar um cenário adverso, ainda que uma nova rodada de pressão não possa ser descartada.
O pano de fundo macroeconômico segue complicado
Para o BTG, as taxas de juros elevadas continuam comprimindo a renda disponível das famílias, enquanto o alto nível de endividamento limita o consumo. A inflação acumulada nos últimos anos também elevou o patamar de preços, reduzindo o poder de compra real.
Nesse ambiente, empresas mais expostas ao público de maior renda tendem a navegar melhor, já que esse segmento é menos sensível às oscilações econômicas. Por outro lado, a combinação de juros altos, concorrência internacional e crescimento mais fraco já se refletiu nas ações do setor.
Hoje, as varejistas de moda negociam, em média, a cerca de 8 vezes lucro projetado para 2026, um patamar que já embute uma visão mais pessimista para o consumo, especialmente no primeiro semestre.
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