Tombo de 20% do Ibovespa e dólar acima de R$ 5,50 são os novos normais? JP Morgan diz o que o investidor deve esperar
Banco faz projeções para os mercados nos próximos dias e diz se é hora de comprar, vender ou aguardar a turbulência passar

O investidor brasileiro acordou nesta segunda-feira (26) com a ressaca de uma eleição que o mercado não esperava. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito e a bolsa desaba nesta segunda-feira (26) — a B3 teve o primeiro circuit breaker desde a pandemia, o mecanismo que paralisa as negociações quando a queda passa de 10%.
Para o JP Morgan, a sangria tem explicação: o mercado havia embutido nos preços um resultado "materialmente diferente" do que saiu das urnas no domingo (25).
Depois do primeiro turno, Flávio Bolsonaro (PL) apareceu na frente, e a maioria das pesquisas mostrava o senador numericamente à frente de Lula na véspera da votação. Os mercados de apostas davam cerca de 75% de chance de vitória dele.
Lula virou o jogo e venceu com quase 52% dos votos válidos, ajudado por uma participação maior no segundo turno.
Quando o preço anda em uma direção e o resultado vai para a outra, o acerto de contas costuma ser brusco — e é o que estamos vendo hoje.
- Para entender:
O circuit breaker é um freio de emergência da bolsa. Uma queda de 10% do Ibovespa paralisa o mercado por 30 minutos. Com 15%, vem mais uma hora de pausa. Aos 20%, a B3 pode suspender as negociações pelo resto do dia. O banco já esperava que parte disso ocorresse.
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Ibovespa: o desconto que o mercado dá
Para medir o tamanho do ajuste, o JP Morgan usa o indicador preço/lucro (P/L). Ele mostra quantas vezes o lucro esperado das empresas para os próximos 12 meses o investidor aceita pagar pelas ações. Na sexta-feira (23), o P/L da bolsa brasileira fechou em 9,7 vezes.
O time de análise olhou para os últimos dez anos e dividiu a história desse indicador em quatro faixas, de crise a correção estrutural.
A conclusão é que o resultado da eleição deve levar a bolsa imediatamente à média da segunda faixa, de 8,3 vezes, o equivalente a uma queda de 14%.
Depois, segundo o JP Morgan, o mercado pode se acomodar mais embaixo, entre a segunda e a primeira faixa, perto de 7 vezes, o que representa um tombo de 28%.
Para os próximos dias, o banco projeta uma queda de cerca de 20% e avisa: o ajuste não deve acontecer todo de uma vez.
O JP Morgan havia elevado a recomendação para a bolsa brasileira em 5 de outubro, apostando em mudança de política econômica. Com a vitória de Lula, o time de análise acredita que essa mudança não deve vir, e as projeções feitas com esse pressuposto ficam sob revisão.
- Recordar é viver:
O banco lembra o que aconteceu entre o fim de novembro e dezembro de 2024. O mercado esperava um ajuste fiscal do governo e recebeu a isenção de imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês.
Naquele episódio, o Ibovespa caiu 8,5%, o real perdeu outros 8,5%, o P/L foi a 7 vezes, a Selic subiu 100 pontos-base de início e mais 175 pontos-base depois, e o Banco Central vendeu cerca de US$ 20 bilhões no mercado à vista e outros US$ 11 bilhões em operações de recompra.
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Ações: quem sofre mais e quem aguenta melhor
As empresas ligadas ao ciclo doméstico estão entre as mais expostas, segundo o JP Morgan — o que já pode ser visto no pregão desta segunda-feira (25), com Magazine Luiza (MGLU3) liderando as maiores perdas do Ibovespa: a queda passa de 57% no início da tarde de hoje.
Também sofrem as small caps — aquelas empresas de menor valor de mercado — as ações de maior oscilação (o chamado alto beta) e as companhias endividadas.
Na outra ponta, as exportadoras tendem a se sair melhor porque ganham com um real mais fraco.
Nesta segunda-feira (26), o dólar saltou para a casa de R$ 5,50 e colocou Suzano (SUZB3) na liderança das maiores altas do Ibovespa, com alta de 10,26%, seguida de Embraer (EMBJ3) e WEG (WEGE3), com avanços de 7,45% e 5,94%, respectivamente.
- Leia também: O Tesouro IPCA+ 8% está de volta: Tesouro Direto abre com altos retornos e tombo de mais de 20% nos títulos públicos
Dólar: de volta ao radar
O JP Morgan rebaixou a recomendação para o real de overweight (compra) para market weight (equivalente a neutra).
Em cenário de resultado visto como ruim para o ajuste fiscal, a projeção é de dólar a R$ 5,50, o equivalente a 10% de desvalorização do real, movimento que o banco considera razoável nos próximos dias.
Há explicações para isso: em torno de R$ 5,00, o dólar embutia cerca de 85% de chance de troca de governo. Com a continuidade, o movimento passa a ser assimétrico.
Além disso, as posições compradas na moeda estavam acima das de eleições passadas.
O próprio banco prefere esperar a poeira baixar antes de apostar contra o real, porque carregar essa aposta custa caro — os juros altos pesam. A trajetória, segundo o time de analistas, depende das mensagens de Lula e da equipe econômica sobre a política fiscal.
Juros: o ponto mais sensível
O JP Morgan também passou a recomendação para juros de overweight (compra) para neutra, mas com viés de alta.
O cenário pessimista do banco mira um patamar de 15,5% de rendimento nos títulos públicos em reais. O banco prefere ver os níveis de terça-feira (27) antes de agir, pois o ajuste do primeiro dia tende a ser grande.
A razão do cuidado é o risco de um ciclo vicioso. O dólar sobe e pressiona a inflação e as expectativas fiscais, o que aumenta o prêmio de risco cobrado pelos investidores, e assim por diante.
O time de análise cita ainda que o Banco Central tem duas vagas abertas na diretoria e outras duas se abrem no início do ano que vem.
O Copom se reúne em cerca de dez dias, com inflação persistente apesar da desaceleração da economia e um cenário externo de preços e juros mais altos.
O JP Morgan não descarta uma alta da Selic, hoje em 13,75%, em 4 de novembro para estabilizar o mercado.
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