Dólar fraco e juros altos nos EUA — o cenário do Itaú BBA para 2025 tem a China fortalecida após tarifas
Retomada das tarifas de importação diminuiu o otimismo do mercado em relação a corte de juros nos EUA e colocou em dúvida — de novo — a preferência pelo dólar

Prepare-se para ver o dólar mais fraco daqui para a frente. Segundo o Itaú BBA, este cenário veio para ficar diante da combinação de fatores econômicos e políticos que estão agindo sobre os EUA nesta segunda gestão de Donald Trump.
A política errática de tarifas de importação, riscos geopolíticos envolvendo guerras e ataques à independência do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), são apontados como os pontos críticos de confiança no dólar no momento.
Soma-se a isso o cenário fiscal norte-americano, que só piora. O Congresso aprovou no último mês um pacote que prevê um déficit fiscal de 6,5% a 7% do Produto Interno Bruto (PIB) nos próximos anos, um patamar sem precedentes em tempos de paz.
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Esse aumento da dívida pública pressiona os juros de longo prazo no país e torna os ativos dos EUA menos atraentes para investidores globais. Na prática, isso se converte em saída do dólar para ativos de outros países.
Um dado importante que fortalece a tese, segundo o relatório do Itaú BBA, é o alto déficit em conta corrente (quando um país gasta mais no exterior do que recebe por meio de suas transações internacionais) dos EUA.
No primeiro trimestre de 2025, o saldo negativo atingiu 6% do PIB. Historicamente, déficits acima de 4% tendem a levar à depreciação do dólar, e para que esse déficit volte à média histórica, seria necessária uma desvalorização adicional de 30% da moeda.
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“Esses fatores de questionamento do excepcionalismo norte-americano levaram a uma diminuição da sensibilidade e a um descolamento da relação entre a moeda e os juros, algo que tende a continuar a frente”, diz o relatório.
Dólar vs. moedas estrangeiras
A fraqueza do dólar, no entanto, pode não ser sentida igualmente em todos os países.
Os analistas do BBA ponderam que países que tenham aumentos de tarifas relativamente maiores que o restante do mundo e/ou tenham mais desafios domésticos podem ter o prêmio de risco compensando o efeito global do dólar.
O que é exatamente o caso do Brasil.
O Brasil, até o momento, é o país com maior aumento de tarifa na comparação com o anúncio de abril, o que tende a elevar a percepção de risco dos ativos por aqui. Na semana passada, o real reverteu parte da valorização no ano e o dólar avançou 2,26%, a R$ 5,55.
O euro tem sido “o novo dólar” para os investidores globais. Segundo o BBA, a moeda única vai seguir na preferência e deve bater US$ 1,20, ante previsão anterior de US$ 1,12.
Já o índice dólar (DXY), que compara a moeda norte-americana a seis divisas fortes, deve fechar o ano em 95,8 pontos, ante a previsão anterior de 99,8 pontos. Em 2024, o DXY fechou em 108,5 pontos, após renovar recordes acima de 110 pontos.
Juros nos EUA: Fed deve pensar duas vezes antes de cortar
O Itaú BBA prevê que o Fed fará apenas um corte de juros este ano, em dezembro.
O consenso do mercado é outro: três cortes de juros em 2025, o primeiro em setembro.
A cautela do BBA se deve ao mercado de trabalho resiliente e aquecido nos EUA, além dos riscos para a inflação diante da nova rodada de tarifas de importação.
Nos últimos três meses foram criados em média 150 mil novos empregos, e a taxa de desemprego permanece baixa, em 4,1%.
Embora o impacto das tarifas ainda não pressione as contas dos consumidores, os analistas do banco esperam que esse "choque inflacionário" seja relevante depois de 1º de agosto, quando devem começar para valer.
A projeção do Itaú BBA é de que o núcleo do índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) aumente para 3,8% e o núcleo do índice de preços de gastos com consumo Pessoal (PCE) — a medida preferida do Fed para a inflação — suba para 3,5%.
A ata da última reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês), realizada em junho, mostrou uma divisão clara entre os membros sobre a necessidade de cortes de juros.
Essa falta de consenso, somada à atividade econômica resiliente e aos efeitos das tarifas na inflação, sugere que os cortes de juros serão adiados, segundo o relatório.
O presidente do Fed, Jerome Powell, chegou a sinalizar com um corte em setembro, mas o relatório afirma que esse cenário só ganharia força se a inflação desacelerasse bem mais do que o esperado até lá ou se o mercado de trabalho enfraquecesse rapidamente.
China agora é estável?
Enquanto outras grandes economias navegam em cenários de incerteza, a China se destaca pela estabilidade das perspectivas, segundo o BBA.
As projeções de crescimento do PIB chinês foram mantidas: 4,5% para 2025 e 4,0% para 2026.
A economia chinesa tem se mostrado resiliente neste ano, impulsionada por dois pilares principais:
- Exportações além dos EUA: os produtos chineses estão encontrando novos mercados e sendo redirecionados para outros países asiáticos, mantendo um ritmo positivo de exportação.
- Pacote fiscal em ação: o governo chinês tem sido eficiente na implementação de seu pacote de estímulos fiscais, um passo fundamental para sustentar o investimento em infraestrutura. Além disso, subsídios para a compra de eletrônicos, eletrodomésticos e automóveis têm dado impulso ao consumo interno.
Esses fatores, combinados com um choque na atividade menor do que o esperado no auge das tensões comerciais, diminuíram a necessidade de novos estímulos adicionais, segundo o BBA —- pelo menos por enquanto.
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