A motosserra ronca mais alto: Javier Milei domina as urnas das eleições legislativas e ganha fôlego para acelerar reformas na Argentina
Ao conseguir ampliar o número de cadeiras no Congresso, a vida do presidente argentino até o fim do mandato, em 2027, deve ficar mais fácil

As eleições legislativas na Argentina foram encerradas às 18h (horário de Brasília) deste domingo (26), porém os primeiros resultados foram divulgados apenas às 21h30, trazendo alívio para o presidente Javier Milei. Com 90% das urnas apuradas, o governo conquistou mais de 40% dos votos na disputa pelos assentos na Câmara dos Deputados em nível nacional, o que representa 64 assentos. Já no Senado, partidos governistas levam 12 cadeiras, com 41,65% dos votos.
O resultado ficou acima da meta estabelecida pelo partido do presidente, o La Libertad Avanza (LLA), que mirava alcançar um terço das vagas disponíveis. Nas eleições deste domingo, estavam em jogo 127 assentos na Câmara dos Deputados e 24 posições no Senado.
Já o kirchnerismo saiu perdendo na corrida eleitoral e conseguiu, à nível nacional, 24,50% dos votos na disputa na Câmara 13,61% no Senado.
Com a vitória do governo, os argentinos vão ouvir a motosserra de Milei roncar ainda mais alto: o presidente argentino deve acelerar as reformas econômicas no país.
Porém, as eleições legislativas também indicaram um certo cansaço político: segundo a Câmara Nacional Eleitoral (CNE), 66% dos eleitores argentinos compareceram às urnas, apesar de, assim como no Brasil, o voto ser obrigatório no país.
A taxa é a menor já registrada desde 1983, quando a Argentina voltou à democracia após o fim da ditadura militar. Além disso, o índice também ficou abaixo da média histórica, que é aproximadamente 81%.
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Reformas de Milei em xeque
Ao conseguir ampliar o número de cadeiras no Congresso, a vida do presidente argentino até o fim do mandato, em 2027, deve ser mais fácil.
Isso porque, Milei passa a contar com o apoio político necessário para a aprovação de suas reformas econômicas, que são, em boa parte, impopulares, uma vez que reduzem o poder de compra da população. Além disso, ele também ficará menos suscetível ao risco de que seus decretos sejam derrubados pelos parlamentares.
Durante o primeiro ano do governo de Milei, apesar de não ter maioria no Congresso, o presidente conseguiu aprovar pacotes de lei que propunham mudanças em diversas áreas graças ao apoio de deputados e senadores que respondiam a outros partidos, especialmente o Proposta Republicana (PRO), partido do ex-presidente Mauricio Macri.
No entanto, durante o segundo ano, Milei deixou de cumprir promessas, além de ter passado por um desgaste no diálogo com políticos, aos quais muitos dos parlamentares aliados respondem. O presidente também viu aliados saírem de dentro do partido para outros blocos.
Assim, caso perdesse as eleições, Milei teria que negociar com os parlamentares e, para isso, teria que moderar seus discursos, segundo Sergio Berensztein, analista político.
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Trump na jogada
E não é apenas o avanço das reformas econômicas que estavam na jogada. Em meio a novas turbulências econômicas, o governo argentino vem recebendo ajuda de Donald Trump, que já havia demonstrado seu apoio ao presidente abertamente.
Porém, o republicano declarou que, caso Milei não ganhasse as eleições, os acordos financeiros entre os Estados Unidos e a Argentina seriam descontinuados.
"Estamos aqui para dar a você o apoio que precisa para as próximas eleições. Se a Argentina for bem, outros países seguirão seu exemplo. Mas se [o governo de Milei] não ganhar, não contará conosco. Se perder, não seremos generosos com a Argentina", disse Trump durante visita do presidente argentino à Casa Branca.
Vale lembrar que, no início deste mês, com o dólar em disparada na Argentina, os Estados Unidos fechou um acordo para uma linha de swap de US$ 20 bilhões com o país. Além disso, no último domingo (19), Trump afirmou que o governo norte-americano avalia comprar carne bovina da Argentina.
Uma vitória surpreendente para Milei: a queda da popularidade do presidente
Há alguns meses, as eleições legislativas pareciam uma excelente oportunidade para Milei, uma vez que a vitória — que parecia tão fácil na época — consolida seu projeto político e amplia seu apoio em um Congresso no qual o presidente não tinha maioria.
Até então, as reformas drásticas do argentino estavam mostrando resultados: a inflação mensal caiu de 25%, quando ele assumiu o cargo em dezembro de 2023, para quase 2% hoje; o nível de pobreza na Argentina caiu 10 pontos no primeiro semestre deste ano; e o país alcançou um superávit orçamentário recorde em 2024.
Porém, as medidas do presidente se tornaram impopulares por gerarem uma queda da renda média real da população. Além disso, o dólar teve um forte aumento em setembro e o Produto Interno Bruto (PIB) da Argentina começou a indicar uma desaceleração ao registrar queda de 0,1% no último trimestre em comparação ao período anterior.
Em meio às insatisfações, Milei ainda se viu no centro de uma série de escândalos de corrupção envolvendo aliados — incluindo sua própria irmã Karina Milei. Vale lembrar que o presidente foi eleito com um discurso de combate à corrupção no país, colocando-se como o candidato da renovação política.
Para tirar ainda mais o sono do presidente argentino, o governo sofreu uma dura derrota durante as eleições legislativas locais em Buenos Aires, em setembro, onde o peronismo saiu na frente. Embora seja considerada um reduto da centro-esquerda, a província concentra cerca de 40% de todo o eleitorado do país.
Porém, o pesadelo de Milei não se concretizou, e o presidente levou até mesmo Buenos Aires nas eleições deste domingo. Além da província, os partidos do governo venceram em outras 15 regiões: Tierra del Fuego, Chubut, Río Negro, Neuguén, Ciudad de Buenos Aires, Mendoza, San Luis, Córdoba, Entre Ríos, Santa Fe, Misiones, Chaco, Salta, Jujuy e La Rioja.
*Com informações do Clarín, Página 12, La Nación e BBC News.
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