Entenda o colapso da Ambipar (AMBP3): como a gigante ESG virou um alerta para investidores
Empresa que já valeu mais que Embraer e Gerdau na bolsa de valores hoje enfrenta risco de recuperação judicial após queda de mais de 90% nas ações

A Ambipar (AMBP3) tem vivido dias de pânico na bolsa. As ações da companhia vêm despencando nas últimas semanas, levando junto o valor de mercado, que hoje mal passa de R$ 1 bilhão.
Difícil acreditar que se trata da mesma empresa que, não faz muito tempo, chegou a valer mais que gigantes como Embraer (EMBR3) e Gerdau (GGBR4). Naquela fase de euforia, o papel bateu R$ 268, e a Ambipar figurava entre as 20 empresas mais valiosas da B3, com um valor de mercado superior a R$ 27 bilhões.
Então, resta saber: como a empresa que surgiu como umas das grandes apostas da economia verde veio parar aqui?
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A história da Ambipar
Com atuação no gerenciamento de resíduos perigosos e foco em sustentabilidade, a empresa estreou na B3 em julho de 2020, surfando a onda ESG e prometendo crescimento acelerado por meio de aquisições no Brasil e no exterior.
Para tal, a Ambipar precisou se endividar, o que não caiu nada bem quando a taxa de juros no Brasil começou sua escalada logo no fim da pandemia de covid-19.
Esse contexto arrastou o valor das ações — que chegaram na bolsa valendo cerca de R$ 24 — aos R$ 8. Foi quando a virada começou.
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Os papéis saltaram de R$ 8 para R$ 268… sem que o mercado pudesse enxergar o racional por trás disso, em uma disparada que um gestor classificou como “a mais estranha nos últimos 20 anos”. Até porque o mar não estava para peixe para a companhia.
Na verdade, o que estava acontecendo é que o controlador da companhia, Tércio Borlenghi Junior, estava comprando muitas ações da empresa.
Além disso, a própria Ambipar foi a mercado com um programa de recompra de ações. Teve também a entrada dos fundos da Trustee, que têm Nelson Tanure como cotista, e impulsionou ainda mais os papéis.
Esses movimentos levaram a um short squeeze das ações da Ambipar. Ou seja, os investidores que apostavam na queda dos papéis foram forçados a cobrir suas posições. Esse movimento amplificou ainda mais a valorização na bolsa.
Em outras palavras, tinha muita gente apostando na queda das ações. Mas quando os players começaram a comprar os papéis, esse cenário esperado não se concretizou — não graças ao desempenho da empresa e sim em razão do movimento especulativo.
Quando a casa começou a cair…
O castelo começou a ruir em setembro deste ano, quando a Ambipar pediu proteção judicial contra credores. O gatilho foi a má performance dos green bonds — títulos sustentáveis emitidos em dólar para financiar projetos ambientais.
A Ambipar havia emitido esses títulos de dívida pelo Deutsche Bank em dólar.
Para se proteger da volatilidade do câmbio, já que suas receitas são em reais, a empresa contratou um contrato de swap com o banco, transformando, na prática, sua dívida em dólar em uma obrigação em real.
O problema veio com um aditivo contratual que vinculava o derivativo à performance dos próprios títulos.
Quando o preço desses títulos verdes começou a cair, esse aditivo foi acionado. Imediatamente, o Deutsche Bank exigiu o depósito de garantias adicionais para cobrir a desvalorização.
Essa exigência gerou um risco de efeito dominó na Ambipar, que poderia gerar um rombo de R$ 10 bilhões no caixa da empresa. Isso porque quase todos os contratos financeiros da Ambipar contêm cláusulas de vencimento cruzado, em uma espécie de efeito cascata de cobrança entre os credores.
Foi aí que a empresa correu para a Justiça para se proteger disso, com uma medida que funciona como um passo anterior à recuperação judicial.
A pergunta que não quer calar
A Ambipar alegava ter R$ 5 bilhões em caixa no fim do segundo trimestre. Mas, foi à justiça pedir proteção por uma dívida de R$ 600 milhões. Segundo analistas, isso parece contraditório.
A Ambipar justifica que precisa da proteção judicial para se proteger de um efeito cascata de vencimento das suas dívidas.Mas os credores começaram a tentar rastrear o caixa da empresa, e acharam só US$ 80 milhões (R$ 400 milhões).
A preocupação é que a Ambipar alegue falta de caixa para honrar compromissos, apesar de bilhões reportados em seu demonstrativo financeiro.
A empresa culpa o ex-diretor financeiro João Arruda pela assinatura do aditivo com o Deutsche Bank, alegando que ele agiu sem aprovação do conselho. Arruda nega e afirma que o contrato trouxe benefícios.
A lição para o investidor
Segundo analistas, o caso Ambipar é um exemplo clássico de como o mercado pode se deixar levar por narrativas — mas preço e fundamentos não ficam descorrelacionados para sempre. Quando isso acontece, é o preço que acaba convergindo para a realidade.
O Seu Dinheiro gravou um vídeo explicando em detalhes essa confusão, você pode conferir ou enviar para seu amigo investidor que quer entender de forma rápida e fácil o que está por trás do colapso Ambipar.
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