Rodolfo Amstalden: O Dinizismo tem posição no mercado financeiro?
Na bolsa, assim como em campo, devemos ficar particularmente atentos às posições em que cada ação pode atuar diante das mudanças do mercado

“Por conta de gostar de ter a bola, as pessoas me associam ao Guardiola. Mas para aí. A maneira dele ter a bola é o oposto da minha. Nos times do Guardiola, com dois minutos você vê que os jogadores obedecem a um espaço. Quem está na direita fica na direita, quem está na esquerda fica na esquerda, e a bola chega naqueles espaços. Claro que o Guardiola foi modificando, os laterais, como o Cancelo, passam. O jeito que eu vejo nesse momento é quase que aposicional. Os jogadores migram de posição. É um jogo mais livre, a gente se aproxima nos setores do campo e nesses setores, há trocas de posição. Acho que isso tem a ver mais com a cultura do nosso futebol”.
— Fernando Diniz.
O mesmo esquema tático “aposicional” do técnico Fernando Diniz resultou em uma goleada acachapante de 6 a 0 do Vasco contra o Santos, e na triste derrota de 2 x 3 para o Corinthians, jogando em São Januário.
Dois placares tão díspares levam a crítica esportiva a questionar se o estilo de jogo de Diniz realmente faria tanta diferença assim, ou se outros fatores acabam sobressaindo como variáveis explicativas de uma dada campanha futebolística.
Embora as analogias entre esporte e mercado financeiro rendam um terreno farto — e, às vezes, espúrio — de transferência de conhecimento, gostaria de me ater aqui ao conceito de posição dos jogadores no campo.
Originalmente, o atributo “posicional” é aplicado na lógica para atribuir significados diferentes a um mesmo elemento, a depender da posição que ele ocupa em um contexto maior.
O caso mais óbvio talvez seja o do próprio sistema numérico decimal: quando escrevemos “915”, induzimos o leitor a acreditar que temos cinco unidades, uma dezena e nove centenas, o que é muito diferente de “519” ou de “195”, por exemplo.
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Até mesmo na gramática, identificamos algo parecido: “ele mesmo fez o trabalho!” inspira um entendimento diverso de “ele fez o trabalho mesmo!”. Na primeira situação, parece surpreendente que o sujeito tenha feito tudo sozinho, enquanto na segunda temos a eventual redenção de um vagabundo nato.
Assim, embora o prefixo “a” empregado livremente por Diniz tenha seu lugar intuitivo de ser, creio que o esquema ambicionado pelo treinador seja, de fato, posicional, e não aposicional.
Versatilidade em campo
Nas aspas referidas, ele mesmo fala que “há trocas de posição”, o que é muito diferente de não ter posição alguma.
Em nome da versatilidade exigida pelas situações de jogo, Diniz deseja, no limite, que qualquer jogador mude de função conforme a posição assumida tempestivamente no campo.
Se a situação demandar, um zagueiro pode ter que atuar temporariamente como goleiro ou atacante, enquanto um atacante pode cumprir a função de volante.
Veja que isso não deve ser confundido com um (outro) problema de posições fixas no desenho tático. Estamos falando aqui da mera alternância de um mesmo jogador entre diferentes posições, de forma análoga ao que fora proposto originalmente por Rinus Michels através de sua Laranja Mecânica.
Assim como nos campos, o mercado também muda a lógica do jogo
No ambiente de Bolsa, também devemos ficar particularmente atentos aos valores cambiantes da lógica posicional.
O setor elétrico, que sempre foi visto como tradicionalmente defensivo, de repente perdeu suas habilidades de desarme mediante a implementação da MP 579, durante o Governo Dilma.
Hoje, quem investe em Eletrobras (ELET3) a vê muito mais como meia de armação do que como zagueira.
- LEIA TAMBÉM: Rodolfo Amstalden fala sobre qual é seu espaço de tempo preferido para investir no mercado financeiro; confira.
Embraer (EMBR3), que em certo sentido era encarada como uma lateral direita que não podia ultrapassar o meio campo, conseguiu se destacar como a principal ponta de lança da bolsa brasileira desde o início da temporada 2024.
Por outro lado, a artilheira Cosan (CSAN3), uma espécie de Berkshire tupiniquim, acabou atrapalhada por um problema de sobrepeso das dívidas no balanço. E WEG (WEGE3) terá que reinventar seu papel em campo à medida que envelhece, e mediante a marcação cerrada da Trumponomics.
Flaco López e Vitor Roque jamais poderiam atuar juntos, assim como Cury (CURY3) e Direcional (DIRR3)…
Os rótulos frequentemente nos ajudam a pensar mais rápido, e ocasionalmente nos impedem de enxergar que algo importante mudou de lugar.
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