Crônica de uma ruína anunciada: a Moody’s apenas confirmou o que já era evidente
Três reformas estruturais se impõem como inevitáveis — e cada dia de atraso só agrava o diagnóstico

O Brasil encerrou maio com uma moderação na alta recente dos ativos locais, após meses de valorização robusta. A correção, que mais parece uma realização, teve como gatilhos três elementos claros: o ruído gerado pelo decreto que aumentou o IOF, o aumento visível da pressão política sobre a Fazenda e, por fim, a rotação parcial de capital de volta para ativos americanos, com alguma amenização da tensão comercial.
No campo da atividade econômica, o pano de fundo segue robusto. O mercado de trabalho permanece apertado, enquanto o PIB do primeiro trimestre surpreendeu positivamente. Em tese, isso deveria limitar o espaço para cortes da Selic neste ano. Ainda assim, mantenho a visão de que o BC pode entregar uma redução ao final de 2025 — embora o ideal fosse um tom mais duro no curto prazo, uma vez que o Copom tem sido forçado a exercer sozinho o papel de âncora de credibilidade econômica.
Em Brasília, o impasse político-fiscal se agrava. A decisão da Moody’s de rebaixar a perspectiva do Brasil de “positiva” para “estável” apenas formaliza aquilo que já assimilamos: o governo está adiando o inevitável corte de gastos. Não há mais espaço para firulas contábeis nem para a procrastinação política. É verdade que as agências de rating são notoriamente lentas — retrovisores do mercado —, mas mesmo assim funcionam como carimbos constrangedores para quem insiste em ignorar o óbvio.
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Para completar o retrato fiscal, os dados divulgados na semana passada pelo Banco Central trouxeram mais uma dose de realidade. O impacto crescente dos juros nas despesas públicas empurra a dívida bruta para 76,2% do PIB. Não há como disfarçar: o diagnóstico está feito, o remédio é conhecido, mas o paciente continua fingindo que pode se curar sozinho — sem ajuste, sem remédio, só com fé. Até quando?
A verdade incômoda
A pressão, agora, recai diretamente sobre os ombros do ministro Fernando Haddad. Após o desgaste gerado pelo aumento do IOF, ele recebeu um ultimato de dez dias de Hugo Motta e Davi Alcolumbre para apresentar um “plano B”.
A aposta de Haddad, de que o temor dos parlamentares com eventuais bloqueios de emendas seria suficiente para garantir apoio, revelou-se equivocada. Tudo indica que o Executivo será, mais uma vez, empurrado para um recuo constrangedor, pelo menos na questão do risco sacado — que gerou reação imediata do setor varejista e da própria base aliada.
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A verdade incômoda é que o governo se mostra cada vez menos preparado — e talvez menos disposto — a fazer o que precisa ser feito. A popularidade de Lula, em queda consistente, escancara o tamanho do problema: a desaprovação subiu de 50,1% para 53,7% em maio, mesmo antes do escândalo do INSS ganhar corpo e com a crise do IOF ainda longe de terminar.
Se essa tendência se mantiver, não seria nenhum exagero imaginar a desaprovação ultrapassando os 55% em breve.
A eleição ainda está longe no calendário, mas já ocupa o centro das preocupações em Brasília. O debate, portanto, foi antecipado — só que em um momento político desastroso para enfrentá-lo com seriedade. O mais provável é que siga o roteiro conhecido: uma sucessão de “puxadinhos”, com o ajuste verdadeiro deixado para 2027. Como sempre, o Brasil adia o inevitável — até que ele se torne insustentável.
Como bem colocou a Moody’s, não se trata de um tropeço pontual, mas de uma trajetória fiscal desconcertante. A agência foi clara ao apontar a lentidão no enfrentamento da rigidez dos gastos obrigatórios e na construção de credibilidade em torno da política fiscal.
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Em outras palavras, mesmo com algum esforço para cumprir metas artificializadas, o governo falha em apresentar um plano de longo prazo minimamente coerente para reequilibrar estruturalmente as contas públicas.
O relatório bimestral com bloqueios de R$ 10,6 bilhões e um contingenciamento adicional de R$ 20,7 bilhões é só mais um sintoma do descompasso. Paliativos fiscais não corrigem a trajetória da dívida — apenas adiam o enfrentamento de sua origem. E o horizonte, convenhamos, não é animador. O ano de 2026 tende a ser pressionado por dinâmicas eleitorais, e 2027 já se desenha como um ajuste duro e indigesto. Em vez de conduzir reformas estruturantes, o governo optou por gastar capital com manobras de curto prazo — e agora vê a fatura se aproximando.
A obsessão do governo em cobrir buracos fiscais exclusivamente pelo lado da receita — como ficou cristalino no caso do aumento do IOF — já não é apenas um erro técnico: tornou-se um vício crônico. E o problema, infelizmente, não está apenas nas escolhas equivocadas, mas sobretudo nas omissões estratégicas. Cresce o cansaço, tanto da sociedade quanto do Congresso, diante da gula arrecadatória travestida de responsabilidade fiscal.
Sem enfrentar com seriedade o problema das despesas obrigatórias, o Brasil continuará desperdiçando uma rara oportunidade de crescimento sustentável. O país opera no piloto automático rumo à estagnação.
O inevitável para o Brasil
Nesse contexto, três reformas estruturais se impõem como inevitáveis — e cada dia de atraso só agrava o diagnóstico. A primeira é a reforma administrativa: ainda que seus efeitos sejam mais relevantes no longo prazo, ela é fundamental para destravar o potencial do setor público. Sem um Estado mais leve, ágil e eficiente, não há futuro.
A segunda — e mais urgente — é a reforma orçamentária. Hoje, o orçamento federal é uma caricatura de planejamento: engessado, opaco e dominado por interesses difusos. Desvincular receitas, reduzir rigidez constitucional e restabelecer algum grau de discricionariedade são medidas indispensáveis para restaurar aracionalidade fiscal.
A terceira é a reforma da Previdência. Nela, precisaremos enfrentar três pontos centrais:
i) desvincular os reajustes previdenciários do salário mínimo;
ii) consolidar um modelo híbrido, com previdência complementar e regras universais — sem exceções para servidores e militares; e
iii) iniciar uma transição gradual rumo a um modelo de capitalização (o atual regime está falido diante da deterioração demográfica do país).
Em paralelo, é urgente revisar os chamados gastos tributários. A pressão da Moody’s pode até servir de estímulo para que o Congresso enfrente a desoneração da folha e outros subsídios anacrônicos, mas há amplo ceticismo quanto à viabilidade dessa revisão. As renúncias fiscais viraram um vespeiro político — e poucos querem mexer.
Nada disso é ilusão reformista. Trata-se de uma resposta necessária à falência silenciosa de um modelo que já não entrega o que prometeu. Sim, é duro. Mas é o preço da responsabilidade. O Brasil pode continuar fingindo que não vê o abismo à frente — ou pode começar a enfrentá-lo de frente. Caso contrário, seguiremos presos ao ciclo de improvisos fiscais, truques contábeis e reformas pela metade.
E, no fim, pagaremos mais caro por cada minuto de postergação. Ocorre que nenhuma dessas reformas se sustentará sem uma liderança política convicta e respaldada pelas urnas. Por isso, as eleições de 2026 representam um divisor de águas — talvez a última janela para debater com seriedade e profundidade o futuro fiscal do país. Se a oportunidade for desperdiçada, o inevitável virá — mas sem anestesia.
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