Trump vai voltar? Ex-presidente pode levar os EUA a uma situação inédita nas próximas eleições
Teremos um possível retorno de Donald Trump à Casa Branca ou mais quatro anos de Joe Biden? Saiba o que está em jogo nas eleições dos EUA

Tal como acontece, religiosamente, de quatro em quatro anos, sempre no mês de novembro, na terça-feira, dia 05 de novembro de 2024, teremos eleições presidenciais americanas.
Diferentemente daqui do Brasil, cuja votação popular é sempre realizada em domingos, as eleições dos Estados Unidos acontecem em dias úteis.
Bancos, bolsas de valores e futuros, comércio, indústria, construção civil... tudo funciona. As pessoas votam antes de ir para o trabalho, após a saída, ou interrompem o serviço para votar.
Por sinal, o voto não é obrigatório. Como na maioria dos países, vota quem quer.
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Há algo inédito nestas eleições nos EUA
Já estive algumas vezes nos EUA em dias de eleição e não deu para notar nenhuma alteração no movimento de carros e pessoas nas ruas, nem acúmulo de gente nos locais de votação. Parece uma data como outra qualquer.
Mas há um aspecto inédito nessas eleições de 2024. Desta vez, poderemos ter manutenção, renovação ou recondução ao cargo após tê-lo perdido num pleito anterior, algo que jamais aconteceu. Obviamente estou me referindo à hipótese, mais do que possível, de Donald Trump retornar à Casa Branca.
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A rigor, a campanha eleitoral, em se observando as anteriores, só deveria começar para valer no início do próximo ano. Mas esse costume foi quebrado no mês passado, quando o presidente Joe Biden anunciou que concorrerá a um segundo mandato, o que aliás é de praxe em quase todos os presidentes.
Acontece que Biden, se reeleito, terá 82 anos ao assumir e 86 ao passar o cargo ao sucessor.
Nessa faixa etária, é mais do que normal uma pessoa ser acometida de alguma doença incapacitante ou até mesmo de “ir ao encontro dos santos”, expressão comum nos Estados Unidos, cujo significado é óbvio. To meet the saints, canta Johnny Cash em uma das músicas de seu repertório.
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Em busca do dinheiro
Tão logo Joe Biden disse que disputaria a reeleição, democratas e republicanos começaram suas campanhas de arrecadação de fundos e a formar seus comitês eleitorais.
Eleição nos Estados Unidos é ganha com a formação de eficientes máquinas eleitorais, que são importantíssimas nas primárias. Quem me ensinou isso foi o jornalista brasileiro Argemiro Ferreira, especialista em política americana, durante anos correspondente da Globo News em Nova York e autor de diversos livros, inclusive um sobre o caso Watergate e suas consequências.
Quase todos os presidentes americanos conseguem se reeleger, o que atualmente só é permitido uma vez. Antes da décima segunda emenda à Constituição, aprovada em 1947, durante o governo de Harry Truman, não havia limite para isso.
Franklin Delano Roosevelt, por exemplo, venceu seguidamente em 1932, 1936, 1940 e 1944, só tendo seu mandato interrompido pela morte em 12 de abril de 1945, na Geórgia, poucos dias antes do suicídio de Adolf Hitler e subsequente rendição da Alemanha aos Aliados.
O caminho de Biden
Quando um incumbente, termo que não se usa no Brasil mas significa “aquele que já está no cargo”, se lança à reeleição, geralmente ganha a maioria das primárias e é escolhido por aclamação.
Desta vez a convenção democrata irá acontecer entre os dias 19 e 22 de agosto de 2024, no United Center, em Chicago.
O fato de ser presidente não impede Joe Biden de enfrentar oponentes nas primárias de seu partido.
Até agora, dois se apresentaram:
Robert Kennedy Jr. – Apesar de ser filho do Robert Kennedy (1925/1968), que tinha tudo para se eleger presidente quando foi assassinado num evento de campanha em Los Angeles, e sobrinho de John Kennedy (que dispensa apresentações), Robert Jr. é contra vacinas.
Sua principal luta é pela despoluição do rio Hudson, objetivo por demais provinciano para quem quer presidir o país mais importante do mundo.
O outro pretendente, no caso uma mulher, é a escritora de autoajuda Marlanne Willamson.
Nas primárias democratas de 2020, ela apoiou Bernie Sanders, senador pelo estado de Vermont e socialista convicto.
Só que os seguidores de Sanders são em sua maioria jovens e têm pouco ou nada a ver com as ideias de Marlanne.
Resumindo: se Joe Biden persistir em sua decisão de se candidatar às eleições do ano que vem, dificilmente terá oponentes em seu próprio partido.
O caminho de Trump até as eleições
No lado adversário, o dos republicanos, as maiores chances são de uma candidatura de Donald Trump. Sim, ele mesmo, Donald Trump, apesar dos pesares. E não são poucos os pesares, como se pode observar a seguir:
- Diz que obteve mais votos populares do que Hillary Clinton em 2016 e que a contagem de votos foi fraudada. As duas alegações são mentirosas e, por conseguinte, desprovidas de provas.
- Não reconhece a vitória de Joe Biden em 2020, também alegando fraude.
- Durante alguns meses, foi contra a vacina contra a Covid, até que mudou de ideia quando centenas de milhares de americanos começaram a morrer da doença.
- Em 6 de janeiro de 2021, estimulou seus seguidores mais fanáticos a ir até o Capitólio para impedir que o Colégio Eleitoral promulgasse a vitória de Biden, proclamação essa que seria (e foi) feita pelo seu vice, Mike Pence (nos Estados Unidos o vice-presidente do país preside também o Senado).
A invasão do Congresso, que incluiu a Casa dos Representantes (House of Representatives, equivalente à nossa Câmara dos Deputados) tornou-se extremamente violenta, violência essa que resultou na morte de cinco pessoas (inclusive um oficial da polícia do legislativo) e com a depredação de diversas dependências das Casas, Alta e Baixa, do Capitólio.
A última vez que ocorrera uma invasão do Congresso americano foi em 1954, quando quatro ativistas da independência do território de Porto Rico atacaram o Capitólio. Dispararam 30 balas de pistolas automáticas, ferindo cinco congressistas.
Os problemas de Trump
Voltando às acusações contra Donald Trump, a que se encontra mais adiantada na Justiça é a de suborno, por intermédio de um advogado, de uma atriz pornô (que atende pelo sugestivo apelido de Stormy Daniels) para não revelar um episódio de sexo entre os dois.
Um grand jury de Nova York está apreciando o caso.
Em minha opinião, o mais grave dos crimes cometidos por Donald Trump (este totalmente comprovado através da gravação de um telefonema) foi coagir o secretário de Estado da Georgia, Brad Raffensperger, para adulterar grosseiramente a contagem eleitoral, simplesmente trocando votos democratas por republicanos.
Ao que parece, os seguidores de Trump relevam todos esses fatos, beneficiando o candidato republicano com o que se costuma chamar de “efeito Teflon”. Nada gruda no ex, e talvez futuro, presidente.
Tanto é assim que Donald vai disputar as primárias republicanas e, acreditem, até agora é o franco favorito para vencê-las.
Biden x Trump: visões de mundo totalmente opostas
O que mais incomoda nessas eleições de 2024, ou pelo menos deveria incomodar, é que os dois candidatos finais, caso se confirme o confronto Biden/Trump, têm opiniões diametralmente opostas sobre quase todos os assuntos.
Na questão do meio ambiente, por exemplo, Donald Trump denunciou o Acordo do Clima de Paris, resultado de uma conferência mundial de cúpula realizada na capital francesa em 2015.
Joe Biden tomou posse em 2021 e os Estados Unidos voltaram a participar do acordo.
Agora, se Trump retornar à Casa Branca, provavelmente denunciará novamente o que foi decidido em 2015.
“Les États-Unis ne sont pas un pays sérieux”, diria o general e presidente francês Charles de Gaulle (1890/1970), se vivo estivesse.
Ainda imaginando o que poderia acontecer no caso de um segundo mandato de Donald Trump (com intervalo de quatro anos no meio), é possível que ele volte a se relacionar com a Rússia.
Aliás, na última vez que lá esteve, Trump criticou acidamente o FBI e a CIA, algo parecido com o que Jair Bolsonaro, em pleno exercício da presidência da República, fez em palestra no palácio da Alvorada para embaixadores estrangeiros credenciados no Brasil.
Nessa ocasião, o capitão-presidente acusou o sistema eleitoral brasileiro de ser fraudulento.
As chances de Biden nas eleições
Voltando às eleições americanas, desde o final da Segunda Guerra Mundial, apenas Jimmy Carter, George H. W. Bush (Bush pai) e o próprio Donald Trump falharam ao tentar a reeleição.
Lyndon Johnson não quis concorrer e Gerald Ford não havia sido eleito. Assumiu o cargo após as renúncias de Richard Nixon e, anteriormente, do vice de Nixon, Spiro Agnew.
A tradição americana de manter o presidente favorece Biden. O problema (para ele) é que o índice de desaprovação de seu governo está em 54%. Com minoria na Casa dos Representantes, é difícil para ele adotar medidas que possam reverter essa rejeição.
Para Wall Street, as alternâncias na política doméstica não costumam fazer muita diferença, nem mesmo numa eleição cheia de controvérsias, mescladas com ódio, como esta.
O que vale mesmo são as decisões do Fomc (sigla em inglês para Comitê Federal de Mercado aberto, colegiado equivalente ao Copom brasileiro). Estas sim, mexem com as cotações.
As eleições servem mesmo para dividir ainda mais o já dividido povo dos Estados Unidos da América.
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