Quando crescer via aquisições pode ser uma boa para empresas na bolsa — e quando pode ser um desastre
Assim como o investimento em ações, normalmente o que define se as fusões e aquisições serão bem-sucedidas é o preço do negócio

Uma das primeiras coisas que qualquer investidor iniciante deveria fazer quando começa a comprar ações é ler livros sobre como os maiores investidores de todos os tempos construíram suas fortunas.
Pode ser sobre o Warren Buffett, Howard Marks, Peter Lynch, Seth Klarman ou qualquer outro value investor bem-sucedido. O que você verá é que a receita de todos eles é parecida: investir em empresas de qualidade, mas somente quando os preços estiverem muito atrativos.
Se você colocar na cabeça que mesmo uma empresa maravilhosa pode ser um péssimo investimento dependendo dos preços pagos por ela, qualquer um desses gurus ficaria orgulhoso de você.
Infelizmente, nem todos os CEOs das companhias listadas em bolsa passariam nesse teste.
Sandálias da humildade
Para mim, a maior virtude de Warren Buffett não é a sua capacidade de analisar empresas, mas sim a sua paciência.
Leia Também
Ele não tem o menor problema de ficar "sentado" sobre dezenas de bilhões de dólares durante vários anos à espera de uma oportunidade realmente atrativa.
Mas isso é raro no mundo corporativo.
Infelizmente, uma parcela representativa dos CEOs não tem a mesma disciplina. Quando os recursos em caixa se acumulam, o dinheiro parece começar a queimar em suas mãos e eles partem para a primeira oportunidade de crescimento que aparecer, mesmo que ela não seja tão interessante — e os preços, bastante ruins.
A Alpargatas (ALPA4), dona das Havaianas, é um bom exemplo recente. A companhia possui uma das marcas mais valiosas do país, com poder de repasse de preços e margens bastante resilientes.
Desde 2017, a companhia vinha melhorando sua rentabilidade, com a venda de operações e marcas pouco rentáveis, como Topper, Osklen e plantas na Argentina. Os papéis responderam muito bem a essa guinada em prol da otimização de portfólio: saíram de R$ 10 em 2017 e superaram R$ 60 no ano passado.

Mas a melhora de resultados também trouxe mais dinheiro para o caixa. E, como acontece com bastante frequência no mundo corporativo, o dinheiro começou a queimar na mão dos gestores.
No fim de 2021, a Alpargatas anunciou a compra da Rothy's, uma espécie de startup de calçados, com rentabilidade igualmente baixa a das marcas vendidas e preços bem salgados: 5,7 vezes EV/Receita — a própria ALPA4 negocia hoje por bem menos do que isso, 2,8 vezes.
Sabe o que é pior?
- ESTÁ GOSTANDO DESTE CONTEÚDO? Tenha acesso a ideias de investimento para sair do lugar comum, multiplicar e proteger o patrimônio
A Alpargatas nem tinha todo o montante da aquisição (US$ 475 milhões) em caixa. Ela esperava pagar parte da compra com uma oferta de ações, acreditando que o anúncio trouxesse uma reação positiva para ALPA4 e permitisse a ela vender ações em seguida no mercado, por preços elevados.
Mas não foi isso o que aconteceu. O mercado recebeu muito mal a notícia e as ações despencaram. E, como ela ainda precisava do dinheiro para fazer a aquisição, teve de levar adiante a oferta de ações mesmo com os preços lá embaixo — o que também implicou em uma maior diluição para os acionistas e ainda mais pressão sobre ALPA4.
Tudo isso em um ambiente de forte alta de preços de borracha por causa do petróleo, o que atrapalhou imensamente as margens e a rentabilidade da companhia.
Essa combinação desastrosa fez as ações desabarem quase 70% desde as máximas do ano passado.

Por essas e outras, a Carteira Empiricus tem uma posição short (vendida) em ALPA4, inclusive.
Ações: o segredo é comprar barato
Assim como o investimento em ações na bolsa, normalmente o que define se as fusões e aquisições serão bem-sucedidas é o preço de compra. A Alpargatas é apenas um dos vários exemplos negativos que acompanhamos ao longo dos anos.
Mas também existe o outro lado da moeda: empresas que se especializaram em fazer aquisições acretivas, em bons momentos e por bons preços. A Cosan (CSAN3) é um dos exemplos mais conhecidos pelo mercado.
Mas tem uma outra companhia fora do radar que faz isso muito bem: a GPS (GGPS3), maior terceirizadora de serviços de limpeza, manutenção e segurança do Brasil. Ela usa as suas ações, hoje cotadas por 11 vezes Valor da Firma/Ebitda, para comprar empresas menores por cerca de 6 vezes o Valor da Firma/Ebitda.
Mas essas companhias menores normalmente têm várias ineficiências que a GPS consegue eliminar rapidamente, fazendo com que o múltiplo verdadeiro após as sinergias convirja para mais próximo de apenas 3 vezes a sua geração de caixa.
Essas aquisições disciplinadas têm feito a GPS crescer bastante nos últimos anos, mas o potencial pela frente ainda é enorme e, por isso, ela é uma das ações indicadas no Palavra do Estrategista — que, aliás, está oferecendo um livro bem bacana para quem quiser se tornar assinante.
Mas a melhor parte depois da derrocada da bolsa é que você pode seguir a mesma estratégia da GPS por conta própria.
Com a desvalorização de vários ativos nas últimas semanas, você pode fazer aquisições de empresas boas, que pagam ótimos dividendos e, neste momento, negociam por preços que são verdadeiras oportunidades para quem visa o longo prazo.
Por exemplo, a Gerdau (GGBR4) vale hoje menos de 3 vezes a sua geração de caixa e deve pagar um dividend yield de mais de 10% em 2022. Não à toa, ela entrou recentemente na série Vacas Leiteiras, com perspectivas de permanecer um bom tempo por lá.
Antes de encerrar, lembre-se que tão importante quanto analisar a qualidade do negócio que você está comprando é se atentar ao preço que você está pagando por ele.
Se você carregar esse ensinamento durante a sua vida nos investimentos, vai se dar melhor que a grande maioria dos investidores e ter retornos melhores do que boa parte dos CEOs, que costumam fazer aquisições nos momentos errados, pelos preços errados.
Um grande abraço e até a semana que vem!
Ruy
MESMO QUE 'DÊ RUIM'
Faça chuva ou faça sol nas urnas: JP Morgan seleciona ações que podem ganhar com o melhor ou o pior resultado eleitoral
30 de setembro de 2026 - 13:05TAG SUMMIT
Não tem tempo ruim para a infraestrutura: as empresas preferidas da Perfin para atravessar crises e juros altos
29 de setembro de 2026 - 17:53PRÊMIO DE RISCO
Dólar a R$ 4,80? As pistas que as últimas eleições na América Latina dão para o desempenho do real
28 de setembro de 2026 - 18:45VISÃO DO GESTOR
“Não se ganha dinheiro comprando o que é popular”: onde a Inter Asset está vendo pechinchas na bolsa brasileira
27 de setembro de 2026 - 12:01INTER INVEST SUMMIT
Ações “órfãs” na bolsa, juros altos e uma armadilha no crédito: onde investir em 2027, segundo especialistas
26 de setembro de 2026 - 18:08RALI NA B3
Ibovespa a 207 mil pontos? Especialista do Inter diz o que pode destravar a bolsa brasileira após as eleições
25 de setembro de 2026 - 16:40ALÉM DA BOLSA
Os fundos imobiliários cetipados vieram para ficar? Entenda por que eles estão em alta e o que você precisa saber antes de investir
25 de setembro de 2026 - 15:54SETOR DE AUTOPEÇAS
JP Morgan pisa no freio e rebaixa Frasle (FRAS3) para venda. Analistas preferem outras 3 ações que podem saltar até 69%
25 de setembro de 2026 - 13:18MAIS AQUISIÇÕES
TRXF11 enche o carrinho de novo e paga R$ 2,83 bilhões, mas FII cai na bolsa; veja o que entra no portfólio
24 de setembro de 2026 - 13:02O OUTRO LADO DA MOEDA
R$ 4,50 ou R$ 5,80? O gatilho que vai definir o preço do dólar depois das eleições
23 de setembro de 2026 - 18:33RADAR DE FIIS
Fundo imobiliário leva calote de inquilino em recuperação judicial; entenda o impacto no bolso dos cotistas
23 de setembro de 2026 - 13:01SD ENTREVISTA
Tubarões saem e varejo entra: sinal de alerta para os FIIs? LAREAL revela o que os institucionais estão vendo
23 de setembro de 2026 - 6:01AS MAIS SAUDÁVEIS
Dasa (DASA3) é compra para o UBS BB, mas banco revela outras 2 favoritas — uma delas para dividendos
22 de setembro de 2026 - 19:50EM DESACELERAÇÃO
FIIs de shoppings sob pressão: é hora de separar o joio do trigo — e o BTG Pactual já escolheu os ativos favoritos
21 de setembro de 2026 - 20:01EM ESPERA...
Nubank, BTG Pactual e Banco do Brasil: os gringos já escolheram onde investir, agora só falta o gatilho certo para apertar compra
21 de setembro de 2026 - 17:19DIRETO PELA B3
IA, Ibovespa e até farmacêuticas gringas: Itaú BBA diz como investir em 800 ações com retorno de 23% ao ano sem dor de cabeça
18 de setembro de 2026 - 19:20EM TOM DE CAUTELA
Lula turbina Bolsa Família em 15% e faz o Ibovespa perder 3 mil pontos. Por que o mercado torceu o nariz?
17 de setembro de 2026 - 13:00DEU RUIM
Ação da Marcopolo (POMO4) despenca 26% no ano e XP rebaixou para neutra; mas há 2 fatores que podem impulsionar a ação
17 de setembro de 2026 - 12:46ONDE APOSTAR NA BOLSA
Lula ou Flávio? Você não deve esperar as eleições para se posicionar nestas ações, segundo a Kinea
17 de setembro de 2026 - 9:01VISÃO DO GESTOR