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A exposição a riscos no mercado financeiro demanda posições que evitem dilapidação do patrimônio financeiro, como em ouro e dólar
O amadurecimento do mercado de capitais no Brasil acrescentou ao léxico do investidor pessoa física um termo que até bem pouco tempo atrás era um jargão quase exclusivo de operadores de mesa e grandes investidores: hedge.
O termo até poderia ter sido traduzido como "defesa" ou "proteção", mas vivemos em um país bastante chegado a um estrangeirismo. Diante disso, fazer hedge é cada vez mais compreendido entre os pequenos investidores sem a ajuda de um dicionário.
E se até alguns anos atrás o hedge era usado apenas por profissionais, nos últimos tempos ele deixou de ser uma entidade etérea e passou a ser aplicado na prática por agentes do mercado que nunca chegaram nem ao menos perto de uma mesa de operação.
Qualquer investidor em busca de ajuda profissional ouvirá de seu planejador financeiro a necessidade de fazer hedge. Ou você acha que é à toa que as recomendações de investimento vêm invariavelmente acompanhadas de orientações sobre diversificação e as devidas proteções?
Afinal, a exposição a riscos no mercado financeiro demanda posições que evitem dilapidação do patrimônio financeiro. Neste sentido, uma máxima levada a ferro e fogo pelo Seu Dinheiro é: “sempre tenha dólar na carteira”, qualquer que seja a cotação da moeda norte-americana.
Mas o dólar, apesar de ser a forma de hedge mais comum e preferida dos brasileiros, não é a única. O bom e velho ouro é outro ativo muito interessante para quem busca proteção.
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No decorrer desta reportagem, que faz parte da nossa série sobre Onde investir em 2022, vamos explicar para você por que e como fazer hedge e o que esperar do dólar e do ouro neste ano que se inicia.
Esta matéria faz parte de uma série especial do Seu Dinheiro sobre onde investir em 2022. Embarque na sua estação favorita:
Prever a trajetória da taxa de câmbio não é tarefa fácil. Há quem diga ser impossível.
“No início de 2021 a gente falava em dólar a cinco reais no fim do ano, mas isso não se confirmou”, constata Zeller Bernardino, que até recentemente cuidava da mesa de câmbio da Valor Investimentos.
De qualquer modo, em um ano eleitoral, como é o caso de 2022, uma coisa você pode esperar com certeza: volatilidade.
Anos eleitorais costumam ser extremamente voláteis nos mercados financeiros, mas principalmente na taxa de câmbio. Um candidato preferido pelo mercado desponta nas pesquisas e o dólar cai. Outro candidato nem tão querido assim pelo mundo das finanças começa a ficar em vantagem e o dólar sobe.
“Se o cenário de instabilidade se mantiver e o Fed der sinais de que reduzirá ainda mais os estímulos, a tendência é de que o dólar suba mais”, prossegue Bernardino.
O ouro, por sua vez, escapará imune às mazelas brasileiras no decorrer de 2022 e, na ausência de uma crise internacional em grande escala, deve se manter relativamente estável em relação às cotações atuais.
É importante lembrar que nos primeiros meses da pandemia o ouro flertou com sua máxima histórica.
Depois de ter ido a mais de US$ 2.100 por onça-troy em julho de 2020, os contratos futuros mais líquidos foram cedendo terreno nos meses seguintes e agora orbitam a faixa entre US$ 1.700 e US$ 1.800 por onça-troy. Em bom português, isto significa cerca de R$ 10 mil por míseros 28,3495 gramas de ouro.
Na avaliação de analistas da BMO Capital Markets e da UBS Global Wealth Management e de especialistas consultados pela Reuters, a expectativa é que o ouro se mantenha nessa faixa ao longo de 2022 à medida que a produção do metal se recupera do choque ocorrido com a chegada da pandemia.
Entretanto, há quem veja espaço para uma apreciação considerável do ouro nos próximos meses. E o autor da previsão tem lá seu pedigree.
Byron Wien é vice-presidente da gigante de private equity Blackstone. Ele é conhecido por formular – e divulgar – anualmente uma lista de dez surpresas para o ano nos mercados financeiros.
Ex-estrategista-chefe de investimentos do Morgan Stanley nos EUA, Wien está na Blackstone desde 2009, mas faz sua lista há 37 anos. E com um grau considerável de acerto.
Um dos dez eventos surpreendentes esperados por Wien para este ano é uma alta de 20% no preço do ouro.
“Apesar do forte crescimento nos Estados Unidos, os investidores buscam a segurança percebida e a proteção contra a inflação do ouro em meio à alta dos preços e da volatilidade. O ouro recupera seu título de paraíso para os bilionários recém-formados, mesmo com as criptomoedas continuando a ganhar participação no mercado.”
Byron Wien, vice-presidente da Blackstone
Caso a projeção se confirme, é provável que o ouro atinja novos recordes em 2022.
Investimentos em dólar e ouro são vistos como posições estruturais que todo investidor, não só o brasileiro, deve ter na carteira. Mas você conhece as opções disponíveis para isso?
Atualmente, existem algumas alternativas de investimento em dólar que incluem fundos de índice (ETF, na sigla em inglês), fundos cambiais, recibos de ações (BDR), contratos futuros, mercado de opções, além da boa e velha compra direta da moeda.
Alexandre Netto, head de câmbio e derivativos da Acqua-Vero, lembra ainda que é possível ter uma conta em dólar no exterior como uma alternativa de investimentos em dólar.
É bom ressaltar que o investimento em dólar provavelmente não vai deixar você milionário. Por ser a moeda mais forte do mundo e por ter historicamente uma correlação diametralmente oposta à dos ativos de risco brasileiros, como bolsa e juros. É por isso que é indicado como uma proteção ou um amortecedor para o portfólio.
“A taxa de câmbio sinaliza a oferta de dólar na economia. Quando entra dólar no país, cai. Quando sai, sobe. E a bolsa tem uma correlação oposta à da bolsa. Em momentos de volatilidade, ele contrabalança”, explica Zeller Bernardino, que até recentemente cuidava da mesa de câmbio da Valor Investimentos.
Para Bruno Mérola, analista da Empiricus responsável por fundos de investimento, a melhor maneira de investir em dólar ou ouro é via fundos de investimento indexados, ou seja, que têm o objetivo de acompanhar as flutuações desses ativos.
“E, quando falamos de fundos indexados, uma condição necessária é que sejam baratos, custando quase nada”, afirma Mérola.
Desde 2020, os únicos fundos que a Empiricus recomenda para o investidor se expor nesta classe têm taxas muito baixas, como Vitreo Dólar, que cobra 0,05% ao ano, e BTG Pactual Digital Dólar, com 0,10%.
Rafael Panonko, analista-chefe da Toro Investimentos, chama atenção para o fato de que o dólar é uma proteção não só para crise como também para a inflação. “Nos últimos 15, 20 anos os investimentos em dólar proporcionaram rendimento acima da média”, diz.
Outra maneira de se expor em dólar — nesse caso assumindo mais riscos — é via ETFs (fundos de índice) de ações norte-americanas. Panonko destaca o IVVB11, ETF negociado na B3 que replica, em reais, a performance do S&P 500, o índice norte-americano que reúne as 500 maiores companhias de capital aberto dos Estados Unidos.
“O IVVB11 negocia aqui em reais apesar de ser um instrumento em empresas norte-americanas que lucram em dólar. Se o dólar se valoriza frente ao real, o ETF também se valoriza.”, afirma o analista da Toro.
Vale lembrar, porém, que no caso do IVVB11 o investidor está exposto só ao risco cambial como também ao do índice S&P 500. Ou seja, não se trata de um ativo com finalidade específica de hedge.
Se o dólar é o “seguro” para ativos de risco brasileiros, o ouro costuma desempenhar o mesmo papel para ativos de risco globais.
Mas não é por se tratar de um chamado “porto seguro” que se deve agir de maneira descuidada. Assim como no caso do dólar, a Empiricus recomenda fundos com taxas de administração mais baixas para quem deseja ter uma parcela da carteira exposta ao ouro.
É o caso do BTG Pactual Ouro (sem exposição cambial, ouro puro), com taxa de 0,13%; o Vitreo Ouro (com exposição cambial + ouro), com taxa de 0,14%; e o BTG Pactual Ouro USD (com exposição cambial + ouro), com taxa de 0,13%.
Mérola diz que o ouro costuma ser a proteção contra aquilo que não sabemos que pode acontecer.
“Em condições normais de temperatura e pressão, o rendimento do ouro costuma ser bem baixinho e é nas grandes crises que ele tende a se valorizar como reserva de valor, algo físico que os investidores acreditam que, se tudo der errado, continuará tendo algum valor intrínseco”, diz.
Outra dinâmica para o metal, de acordo com o analista da Empiricus, é o nível de taxas de juros reais (juros menos inflação).
“Geralmente, quanto menores são as expectativas de juros reais, mais o ouro deve se valorizar, porque o custo de oportunidade de carregá-lo na carteira diminui. Períodos de juros muito baixos e/ou inflação muito alta costumam ser bons para ouro.”
Assim como no caso da moeda norte-americana, os ETFs são alternativas para se ter o metal precioso na carteira, junto com fundos de investimento e empresas ou contratos futuros.
“O ETF é a maneira mais fácil de investir em ouro, já que o fundo se valoriza diante da alta do ouro. Já os fundos de investimento contam com outros metais preciosos no mix. Eles são diferentes do ETF, que tem uma gestão passiva”, explica Panonko, da Toro Investimentos.
Ele cita o Trend ETF LBMA Ouro (GOLD11), que é o primeiro ETF de ouro criado no Brasil. Os investimentos em lotes são feitos a partir de 50.000 cotas no mercado primário.
O ativo, gerido pela XP Asset Management, é um ETF que busca replicar a performance do preço do ouro, em dólar, por meio do Fundo de Índice iShares Gold Trust, gerido pela Blackrock, a maior gestora de recursos do mundo.
“Temos também o BIAU39, que é um BDR de ETF que segue o iShares COMEX Gold Trust e tem o banco B3 como instituição depositária”, diz Panonko.
Segundo ele, outra forma de investimento em ouro é via empresas. Ele cita a Aura (AURA33), que tem BDRs no Brasil. O BTG Pactual possui recomendação de compra para a companhia.
“O ouro é investimento para momentos de crise, de risco. Em prazos maiores, não oferece tenta atratividade, até por ser metal. Um quilo de ouro hoje continua sendo um quilo amanhã, você tem só oscilação de preços. Diferente de empresa, que tem dividendo, que se valoriza”, acrescenta Panonko.
O analista da Toro não aconselha investimento em ouro via contratos futuros. “A liquidez é pequena e é um mercado que não é fácil para o investidor mais leigo”, afirma.
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