Qual o destino da Evergrande? Veja quatro possíveis cenários para a crise da gigante chinesa
As ações da Evergrande subiram mais de 17% na bolsa de valores de Hong Kong após um acordo com credores. A situação, porém, está longe de ser resolvida. Saiba o que esperar

Estejam preparados para o pior. Esse teria sido o tom do alerta de autoridades chinesas a funcionários dos governos locais e regionais para o caso da Evergrande, conglomerado que é dono da segunda maior incorporadora imobiliária do país asiático.
Nos termos relatados por fontes à agência de notícias Dow Jones, membros do governo central teriam sugerido a “preparação para uma possível tempestade” com um colapso da Evergrande.
O verbo vem na condicional porque o relato vem baseado em fontes e as autoridades chinesas, ainda que procuradas, não se manifestaram sobre o tema.
Ao mesmo tempo, enquanto a notícia de um acordo com credores locais de títulos com vencimento na quinta-feira animou os investidores, os investidores estrangeiros aparentemente vão ficar a ver navios.
Enquanto muitos temem uma quebra desordenada da empresa, outros acreditam em uma saída organizada. Também há quem fale na possibilidade de reestruturação da multibilionária dívida da Evergrande, num resgate seguido de estatização da companhia e até mesmo numa crise que coloque um fim ao crescimento da economia da China.
Diante de tantos cenários possíveis, o Seu Dinheiro resolveu se aprofundar em cada um deles para deixar você a par do que está sendo discutido como solução para a crise da dívida que nos últimos dias dominou o noticiário sobre os mercados financeiros internacionais.
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Cenário 1: Resgate da Evergrande
Comecemos então pelo cenário mais improvável. O resgate da Evergrande pelo governo da China é praticamente descartado por especialistas. Quem gostaria muito que acontecesse algum tipo de apoio estatal são os grandes fundos e bancos estrangeiros que são credores da incorporadora, o que inclui Ashmore Group, BlackRock, HSBC e UBS.
Para os analistas de crédito da S&P, entretanto, um resgate à Evergrande só aconteceria em um cenário muito extremo. “Nós acreditamos que o governo chinês se veria obrigado a intervir se houvesse amplo contágio e diversas grandes empreiteiras começassem a falir e passassem a representar um risco sistêmico para a economia”, afirmam eles.
Cenário 2: Uma reestruturação de sucesso
Outro cenário possível, mas também pouco provável, é que a Evergrande obtenha sucesso na reestruturação total de sua dívida. Nessa realidade alternativa, dentro de alguns meses ou anos a gigante teria a situação saneada e poderia voltar a se envolver nos grandiosos projetos que a transformaram na segunda maior incorporadora da China.
De acordo com dados da Refinitiv, a Evergrande tem uma dívida de US$ 305 bilhões (R$ 1,6 trilhão na cotação de hoje), sendo US$ 20 bilhões em moeda estrangeira.
É verdade que o governo e os bancos chineses estão empenhados nas negociações e os credores locais têm-se mostrado mais dispostos a negociar. Entretanto, especialistas consultados pela Reuters advertem que os detentores de bônus estrangeiros têm menos propensão a aceitar acordos, como ocorreu em crises de dívida recentes como a da Argentina.
Ainda que os credores externos detenham apenas 6,5% do bolo da dívida, o volume de US$ 20 bilhões é suficiente para que escritórios especializados no tema arrastem o imbróglio por anos.
Cenário 3: Colapso desordenado
Um eventual colapso desordenado da Evergrande é, de longe, o cenário mais temido. O potencial de desestabilização social, geopolítica e econômica na grande potência emergente deste início de século 21 não é desejado por ninguém, seja pelos credores, pelos fornecedores, pelos clientes, pelo governo chinês, pelos investidores do mercado financeiro e até por quem acha que não tem nada a ver com o pato.
A probabilidade de que isso ocorra, entretanto, é baixa. É preciso lembrar que um dos motivos da crise de liquidez da Evergrande e de outras grandes incorporadoras na China deriva do fato de o próprio governo ter entrado em ação para enquadrar o setor imobiliário à estratégia de “prosperidade comum”. Neste sentido, do ponto de vista de Pequim, o alto custo de moradia para a população é um problema maior do que a crise setorial em si.
Mas a China vai quebrar?
Na avaliação de Elias Jabbour, professor da UERJ e um dos principais especialistas brasileiros em China, a resposta é um enfático não.
“Primeiro, o sistema financeiro é estatal. Nenhum país quebra em moeda que ele mesmo emite”, afirma ele em vídeo sobre o tema. “Segundo, a conta de capitais da China é fechada. A moeda não é conversível. Então o risco de espraiamento da crise para o resto do mundo é muito pequena.”
Jabbour afirma ainda que a resposta do governo para a crise será política, e não econômica. “A solução vai passar por um enquadramento da Evergrande e do setor imobiliário à estratégia chinesa de prosperidade comum”, explica o professor.
O governo tem em vista, segundo ele, fazer frente aos altos preços dos aluguéis, algo que tem causado grande insatisfação entre os chineses nos últimos anos.
Cenário 4: Quebra organizada
O cenário mais provável, na avaliação de especialistas, é uma quebra ordenada da Evergrande, com uma cisão da empresa ou a assimilação da massa falida por concorrentes ou até mesmo por uma cooperativa de trabalhadores, uma vez que o setor de construção chinês é privado.
“Os esforços provavelmente se concentrarão no resgate aos credores da Evergrande”, escreve Dinny McMahon, analista da consultoria Enodo Economics.
Neste cenário, a expectativa é de que o governo privilegie os pagamentos a empresas terceirizadas e fornecedores. Os compradores que já pagaram por imóveis não entregues também devem ser atendidos, seja pelo repasse das obras a outras construtoras ou pelo reembolso de valores já pagos.
"Com relação ao impacto para o sistema financeiro, o mais provável é que seja mínimo, com os detentores de bônus arcando com um forte desconto, mas com os bancos saindo do processo praticamente ilesos", conclui McMahon.
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