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Quanto de juros você tolera?

10 de fevereiro de 2021
11:05 - atualizado às 13:21
Calculadora com sinal de porcentagem representando juros | Selic, fundos imobiliários, bolsa, Ibovespa, ações
Imagem: Shutterstock

Nietzsche diz que o valor de um homem se mede pelo tanto de verdade que ele pode tolerar. Escrevo no presente porque legados de boa filosofia são eternos. Concordo com ele.

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Aqui, somos admiradores da transparência radical de Ray Dalio. Preferimos a volatilidade à supressão dela, como alunos (presenciais) de Nassim Taleb — como defende a Artemis Capital, a volatilidade nada mais é do que a revelação da verdade. Empurrá-la para debaixo do tapete apenas acumula riscos escondidos.

Como escrito recentemente nestas pobres linhas, o princípio budista da “compaixão idiota” deve ser preterido frente à “compaixão sábia”. Verdades transmitidas com empatia, mesmo que duras, são muito mais valiosas do que os falsos elogios, os tapinhas nas costas, os ternos vazios, o discurso politicamente correto, o corporate talking.

Como no mito do anel de Giges, descrito no livro 2 da República de Platão e título do novo livro de Eduardo Giannetti, temos uma preocupação importante na Empiricus: faríamos a mesma coisa se ninguém pudesse nos ver? Qual é a sua verdade mais íntima, sem jogar para a torcida?

Estive com um banqueiro recentemente que me disse algo mais ou menos assim: “Os juros vão subir no ano que vem, talvez em 2023. Não importa muito. Haverá alguma racionalização dos preços de ativos de risco. Vamos parar de sonhar e alguns abusos serão corrigidos. Aí veremos quem é capaz de realmente gerar valor”. Quando a maré baixa, descobrimos quem nadava pelado. 

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O top management de outro grande banco na segunda-feira falou outra coisa interessante: embora o fluxo de net new money esteja indo muito para fora dos bancões, ainda há muito capital alocado lá. O que precisa haver é uma resposta rápida para dar solução à fuga de recursos e se adaptar à realidade.

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O resultado deste choque entre o novo, com muita coisa boa e também muitas promessas, e o velho, diante de um cenário de juros mais altos, saberemos só lá na frente. No mundo onde eu vivo, o futuro insiste em ficar… no futuro.

Em carta mensal a seus cotistas, com o brilhantismo de sempre, Luis Stuhlberger trouxe provocação pertinente para os dias atuais (a rigor, não sei se foi ele mesmo quem escreveu a carta; uso o nome como uma metonímia para o Verde, o que me parece razoável): “Uma taxa de juros básica na casa de 5% (ainda bem abaixo do que indica o mercado futuro) será capaz de desacelerar o processo secular de mudança dos portfólios de investidores brasileiros?”. 

Ele mesmo propõe uma possível resposta: “Acreditamos em grande medida que não, mas essa é uma pergunta que será recorrente ao longo deste ano”.

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Gostaria de explorar um pouco melhor a questão. Antecipo também a minha conclusão: novamente recorrendo à Platão, tenho tratado esse “processo secular de mudança dos portfólios de investidores brasileiros” como algo semelhante ao Mito da Caverna. Depois de ver a luz da superfície, dos benefícios de portfólios mais sofisticados, balanceados e com boas composições de risco e retorno, é difícil voltar à escuridão da caverna do CDI.

De forma um pouco mais concreta, e numa conta grosseira de padeiro, juros nominais curtos de 5%, para uma inflação de 4% (ou algo muito perto disso), implicaria um juro real de 1% ao ano. Não me parece suficiente para afugentar o investidor de aplicações de risco. Se a Selic fosse para 8%, 9%, 10% ao ano, aí talvez a conversa fosse diferente. No atual contexto, porém, não parece ser o caso, a não ser que haja uma explosão da trajetória fiscal (e, como já dissemos aqui reiteradas vezes, o Brasil não tem vocação para trajetórias explosivas; acho que nem coragem para isso nós temos, diante de nossa veia antropofágica macunaímica).

A inflação, embora muito alta, tem elementos transitórios importantes, ligados às commodities, ao dólar e ao desarranjo do supply chain global diante da Covid-19. Uma pequena acomodação da taxa de câmbio, a volta à normalidade das cadeias produtivas e uma pausa no ciclo de alta das soft commodities poderiam derrubar a inflação a partir de maio, junho.

Mais do que isso, o problema do Brasil (e do mundo, sejamos sinceros) estruturalmente ainda é crescimento. Há uma brutal ociosidade dos fatores de produção, tanto de capital quanto de trabalho. E existem forças deflacionárias estruturais, notadamente a tecnologia e a demografia.

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Isso parece corroborar a baixa probabilidade de uma taxa de juros muito alta.

Outro ponto importante na análise. Mais do que o juro curto em si (a Selic), a coisa mais relevante para a determinação da atratividade da Bolsa é a comparação frente às taxas de juro de mercado mais longas, como o yield da NTN-B de dez anos. 

Talvez pela minha trajetória pessoal (meu mestrado é em prêmio de risco cambial), sempre penso Bolsa como um equity premium. Ou seja, quanto a Bolsa está pagando a mais relativamente à renda fixa? Esse prêmio é suficientemente atrativo? 

Você basicamente calcula isso pegando o earnings yield da Bolsa, que é o inverso do preço sobre lucros, e subtrai o yield da NTN-B de dez anos. 

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De forma simples e rápida, com os devidos ajustes, temos um P/L projetado da Bolsa brasileira perto de 14,5 vezes agora. O earnings yield aponta algo como 6,89. Com o juro real de dez anos em torno de 3,60, ainda teríamos uma gordura aí da ordem de 3,30 pontos percentuais.

O mais curioso dessa história toda é que a alta do juro curto, a julgar pela sinalização recente do Banco Central e a consequente reação do mercado, poderia derrubar o juro longo, o que aumentaria o prêmio de risco da Bolsa num primeiro momento.

A verdade a se tolerar neste momento é que ficamos adultos. Teremos de tolerar a volatilidade da Bolsa. Ainda bem, porque ela é a manifestação objetiva da realidade, sem riscos escondidos de termos o conforto da ausência de volatilidade do CDI, que deve seguir nos entregando inflação mais algumas migalhas nos próximos anos.

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