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Estrategista-chefe da Empiricus traz uma reflexão sobre polarização política, investimentos e o mito do brasileiro cordial a menos de um ano das eleições
Semana de Natal, meu penúltimo Day One do ano. A liquidez já começa a ficar menor nos próximos dias. Dos três leitores, com alguma sorte, um deles ainda estará online. Inevitável uma reflexão sobre 2021 e o comportamento do investidor.
No momento em que somos acometidos por preocupações importantes em torno da variante ômicron e seus impactos sanitários e sobre os mercados, na dialética típica do ceticismo pirrônico, de que Sextus Empiricus é grande expoente, um lado meu se debruça sobre o baixo número de mortes ligadas à nova cepa, à hipótese de Marko Kolanovic de que a ômicron pode ser inclusive boa para os ativos de riscos e à sazonalidade forte típica do bimestre dezembro-janeiro; e o outro lado teme a capacidade de lidarmos com um novo choque neste momento. As cadeias de suprimento se normalizavam, a inflação talvez tivesse encontrado seu pico. Mas, e agora?
Pouco se comenta entre analistas locais a queda da oferta de trabalho, algo importante para quem se preocupa — ou deveria se preocupar — com o “supply side”. O crescimento potencial se dá por adição de força de trabalho, capital e/ou produtividade.
Ocorre, além da demografia, que as pessoas estão parando de querer trabalhar. Talvez seja por conta da Covid, em que se teme a volta ao trabalho e a convivência que enseja maior risco de contágio. Talvez seja geracional, em que a disputa por mais monitores dá lugar à indignação pela ausência das mesas de pingue-pongue no escritório.
Ou quem sabe seja mais sociológico ou antropológico. A ética do trabalho perdendo para outras instâncias.
“Le gout de l’effort”, o gosto pelo esforço, o prazer da dificuldade, é (ou era) expressão consagrada na pedagogia europeia. Importa mais o processo, não necessariamente o resultado. Valorizam-se o treino, a dedicação, o esforço em si. O prêmio da virtude é a própria virtude, como se, neste caso, valesse uma espécie de espírito olímpico permanente. É algo um pouco diferente do pragmatismo ou, tomando Milton Friedman como referência, do instrumentalismo norte-americano. “A ética protestante e o espírito do capitalismo” está lá como obra estruturante na caracterização do racionalismo econômico.
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O Brasil tomou um caminho meio diferente, seja, ainda tendo Weber em perspectiva, pela educação humanística da inclinação católica, ou pela antropofagia típica que nos define. Nosso herói Macunaíma se define como duplamente preguiçoso: “Ai, que preguiça”. Aqui não haveria ética do trabalho, porque a própria constituição psíquica do país estaria destinada exclusivamente ao prazer e ao gozo.
O colonizador que teve a mãe interditada na Europa e veio para cá atrás da realização completa; o colono, que pretendia alguma filiação capaz de dar-lhe a cidadania originalmente negada.
Falta-nos a referência paterna em sua essência mais pura, aquela que interdita a mãe e deveria nos impelir ao esforço externo. Como define Contardo Calligaris, “a função paterna efetiva é algo que limita e, em troca, outorga uma cidadania, um lugar simbólico e alguns ideais básicos como referência”. Aqui, ela está ausente.
Sobre a referência de um pai que não restringe a mãe, uma figura paterna reconhecida pelo gozo que exibe e que promete ao outro. O pai é o corrupto (ou corruptor) paternalista clássico. A função paterna é exercida pela frugalidade de pequenos favores direcionados, única forma de se reconhecer uma autoridade por aqui.
Não é somente que a corrupção e os favores sejam aceitos e tolerados. Eles representam e emanam poder, validam a autoridade e jogam a favor. O “rouba mas faz” não é só aceito, mas, ainda mais surpreendente, ajuda o candidato.
E, claro, aquele que recebeu um favor ou uma nomeação só poderá ser reconhecido se transmitir a prática para a frente, igualmente nomeando cargos e concedendo favores, de modo a se estabelecer um ciclo infinito permeado por indicações não técnicas e ineficientes, cujo resultado é um Estado e (porque não dizer) uma sociedade disfuncional.
Que o Brasil seja assim não é propriamente uma novidade. Somos o país do jeitinho, dos atalhos e do gozo infinito. Alguns se perdem em discussões eleitorais (ou seriam eleitoreiras?) enquanto seria mais profícuo talvez admitir que o país tem suas vicissitudes e cabe a cada um de nós trabalhar a despeito dos ciclos eleitorais, não em razão ou por conta deles.
Surpreende, contudo, o quanto o esforço parece desvalorizado em 2021, seja para o trabalhador ou para o investidor. De maneira curiosa, ambos estão deixando a B3 para investir em criptomoedas.
No Barbell Strategy típico, as ações agora parecem pertencer ao meio da barra, enquanto as duas pontas, as únicas dignas de alocação, estariam, de um lado, representadas pela super-segurança de aplicações muito tradicionais e, de outro, pela capacidade de multiplicação dos moedas digitais.
Quem se interessa por possibilidades de lucros de 50%, ou até 200%, com uma determinada small cap, se AXS sobe 8.000%?
Pra que dedicar-se ao seu círculo de competências, passar meses estudando uma empresa para ter algum tipo de vantagem (lícita) informacional sobre a média do mercado e identificar um potencial de valorização superior ao percebido pelo consenso?
Por que esperar por ciclos empresariais (necessariamente de longo prazo, claro, porque empresas não mudam no ritmo do day trade) e entendê-los com profundidade se, sem sequer saber o que é de fato o bitcoin ou uma gamecoin, podemos ali, sem qualquer esforço ou paciência, multiplicar o nosso capital?
Afinal, tudo que está subindo vai continuar subindo para sempre, não é mesmo?
Se a Bolsa foi ruim nos últimos anos, ela será necessariamente ruim também em 2022. É muito melhor comprar depois de anos bons, quando já subiu bem e as coisas estão caras…
A renda fixa tinha morrido e, agora, a B3 morreu? Quando será que entenderemos que classes de ativos financeiros também têm ciclos e não mortes? Afinal, não é essa a natureza do capitalismo?
Deixamos o esforço do entendimento e da paciência de lado para nos rendermos ao canto da sereia do curto prazismo perigoso das supermultiplicações.
De que importa a Cyrela estar passando seus terrenos de baixa renda para a Direcional, cujos resultados estão simplesmente triplicando em três anos? Podemos ao menos admitir que Ricardo Gontijo é o CEO do ano?
Ora, tudo que interessa é que não haverá IPOs e, portanto, com a janela fechada, devemos vender BTG e BR Partners, que nem IPOs faz?
Varejo também nem pensar… com essa renda disponível comprometida, é pra vender tudo. Se Arezzo está entregando crescimento e apontando para mais de R$ 400 milhões de lucro em 2022, com uma operação na mão e uma entrega muito além das expectativas, de que adianta, não é mesmo?
Estamos mesmo condenados a essa superficialidade de análise? Ai, que preguiça. A notícia boa sobre 2021 é que ele está terminando.
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