Petrobras despenca 20% e derruba Ibovespa em quase 5%, na maior queda do índice desde o ‘Moro Day’
Interferência do governo na presidência da Petrobras arrasta ações da petroleira e de outras estatais; dólar e juros fecham em alta com aumento do risco-país

Quando o presidente Jair Bolsonaro usou suas redes sociais para divulgar a indicação do general Joaquim Silva e Luna para a presidência da Petrobras, na última sexta à noite (19), os investidores já sabiam muito bem como seria o pregão desta segunda-feira (22).
Na hora do anúncio, que foi entendido como uma intervenção governamental na petroleira, com a intenção de possivelmente interferir na política de preços, o mercado já estava fechado. E, naquele dia, as ações da estatal já haviam apresentado recuos da ordem dos 7%, diante de ameaças de Bolsonaro ao atual presidente, Roberto Castello Branco.
Mas tão logo Silva e Luna foi indicado, os recibos de ações (ADRs) da estatal negociados na bolsa de Nova York começaram a despencar, assim como o EWZ, ETF de ações brasileiras transacionado lá fora. Estava contratada uma segunda-feira vermelha para a bolsa brasileira.
Dito e feito. O Ibovespa amanheceu hoje em queda de mais de 4%, puxado principalmente pelas ações da Petrobras, que já começaram o dia em queda de dois dígitos, diante de uma interferência lida como negativa para a empresa e seus acionistas.
Outras estatais também apresentavam quedas substanciais, diante do risco de contágio dessa intervenção política também em companhias como Banco do Brasil e Eletrobras. Mas durante todo o dia, a maioria das ações do Ibovespa operou no vermelho, porque houve, no mercado, uma percepção de mudança de chave no país: a passagem para um governo mais intervencionista.
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Esse abandono de um perfil mais liberal em relação às estatais fez com que o mercado passasse a se questionar também a respeito da postura do governo em relação a reformas, privatizações e responsabilidade fiscal. Tanto que o risco-país disparou na parte da manhã, afetando também juros e dólar.
Em suma, a decisão do governo não foi lida como algo que se limita a Petrobras, e foi isso que deu a tônica para as negociações no dia de hoje.
Petrobras desaba 20%
A parte da manhã foi bastante negativa para todos os mercados. O Ibovespa passou boa parte do tempo operando em queda de mais de 5%, na faixa dos 112 mil pontos, e na mínima chegou a recuar 5,73%, para 111.650,26 pontos.
Mas, na parte da tarde, reduziu as perdas com a virada das siderúrgicas para alta, chegando a tocar novamente na faixa dos 114 mil pontos. Mesmo assim, o Ibovespa ainda fechou com uma queda substancial de 4,87%, aos 112.667,70 pontos, puxado, sobretudo, pelo péssimo desempenho das ações da Petrobras. Foi a maior queda do índice em um único dia desde 24 de abril do ano passado, com a saída de Sérgio Moro do governo.
As ações da estatal passaram o dia inteiro com tombo próximo dos 20%, liderando as quedas do Ibovespa. Ao fim do pregão, as ações ordinárias (PETR3) marcavam perda de 20,48%, a R$ 21,55, e as preferenciais (PETR4) apresentavam recuo de 21,51%, a R$ 21,45.
Com isso a companhia já acumula uma perda de valor de mercado da ordem dos R$ 100 bilhões, somando-se os quase R$ 30 bilhões perdidos na sexta-feira com os cerca de R$ 70 bilhões perdidos hoje.
A terceira maior baixa do índice ficou por conta dos papéis do Banco do Brasil (BBAS3) que despencaram 11,65%, para R$ 28,83. O mercado volta a temer pela permanência do atual presidente do banco, André Brandão, cuja saída chegou a ser aventada, recentemente, após duras críticas de Bolsonaro à política de redução de custos da companhia.
Outra ação que foi alvo de especulação no sentido de ingerência estatal foi a da Eletrobras, com as dúvidas que foram levantadas a respeito da sua privatização. Além disso, Bolsonaro chegou a falar, no fim de semana, sobre intervir também no setor elétrico.
Mesmo assim, as perdas da estatal foram limitadas. Depois de caírem quase 10% na mínima do dia, as ações ordinárias (ELET3) fecharam em leve baixa de 0,69%, a R$ 28,91, e as preferenciais (ELET6) recuaram apenas 0,17%, a R$ 29,24.
Dólar e juros em alta
Já o dólar à vista fechou em alta de 1,27% a R$ 5,4539. Depois de subir mais de 2% mais cedo, batendo R$ 5,53 na máxima, o Banco Central atuou no mercado de câmbio, a fim de dar alívio à flutuação da moeda americana.
Os juros futuros fecharam em alta em todos os vencimentos com a pressão do dólar e o aumento do risco-país. Veja o desempenho dos principais contratos:
- Janeiro/2022: de 3,44% para 3,53% (+2,62%)
- Janeiro/2023: de 5,13% para 5,325% (+3,80%)
- Janeiro/2025: de 6,69% para 6,92% (+3,44%)
- Janeiro/2027: de 7,33% para 7,57% (+3,27%)
A faceta mais intervencionista em estatais revelada pelo governo brasileiro levou o CDS de 5 anos do Brasil (Credit Default Swap, ativo cuja cotação funciona como medida do risco-país) a atingir 188 pontos, nível mais alto desde novembro.
Os juros e o câmbio passaram a precificar este cenário de maior risco Brasil e duas elevações de 0,50 ponto percentual na taxa Selic já nas próximas reuniões do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom), a serem realizadas em março e maio.
Lá fora, as bolsas americanas fecharam com sinais mistos, porém majoritariamente negativos. O Dow Jones subiu 0,09%, enquanto o S&P 500 caiu 0,77% e o Nasdaq recuou 2,46%. As bolsas europeias, por sua vez, fecharam em queda.
Corretoras recomendaram venda de Petrobras e outras estatais
Temendo o uso da Petrobras para medidas populistas pelo presidente Jair Bolsonaro, analistas de diversas instituições financeiras mudaram a recomendação das ações da Petrobras para venda desde o fim de semana, reduzindo também o preço-alvo dos papéis.
Eles temem que, além de uma interferência na política de preços potencialmente danosa para a companhia, a provável troca de presidente também prejudique a política de venda de ativos e desalavancagem da companhia.
A Petrobras tem planos de vender refinarias para focar ainda mais na exploração do pré-sal, mas essa estratégia pode ser alterada, uma vez que a posse das refinarias é essencial para que a companhia consiga manter uma política de preços mais "social" e descolada da cotação internacional do petróleo.
Além disso, a forma como foi feita a indicação do governo aponta para um grave problema de governança na companhia.
O risco de contaminação da "guinada intervencionista" do governo para outras estatais levou analistas a também rebaixarem a recomendação para ações de companhias como Eletrobras e Banco do Brasil.
O combustível da discórdia
As ações da Petrobras já vinham sendo afetadas por um conflito aberto entre o presidente Jair Bolsonaro e o atual presidente, Roberto Castello Branco.
A política de preços da estatal vinha seguindo as cotações do mercado internacional, o que já resultou em quatro reajustes dos preços dos combustíveis nas refinarias apenas neste ano.
O último reajuste, anunciado na quinta-feira (18), foi a gota d'água para o presidente, que vem tentando acomodar as demandas feitas por uma de suas importantes bases de apoio, os caminhoneiros. Eles se queixam dos altos preços do diesel e mais de uma vez já ameaçaram entrar em greve.
Na sua tradicional live de quinta-feira, Bolsonaro reclamou do novo reajuste dos combustíveis e fez uma ameaça velada a Castello Branco, dizendo que a fala do CEO da Petrobras sobre a companhia "não ter nada a ver com os caminhoneiros" teria consequências. No dia seguinte, as ações da estatal recuaram em torno de 7%.
Na sexta à noite, Bolsonaro anunciou nas redes sociais que o governo estava indicando o general Joaquim Silva e Luna para a presidência da Petrobras, o que foi entendido pelo mercado como uma interferência do governo na cúpula da companhia.
O mandato de Castello Branco à frente da companhia termina em março, mas sua recondução para o cargo por mais dois anos já era esperada. Com a indicação de Silva e Luna, seu nome deverá passar por votação do conselho, uma vez que o governo não tem poder de simplesmente mudar o CEO da Petrobras. Mas como a maioria dos 11 membros do conselho são indicados do governo, é provável que a mudança seja aprovada.
O mercado entendeu o movimento como uma tentativa de Bolsonaro de interferir na política de preços da estatal. O presidente diz que só quer maior transparência e previsibilidade para os preços, mas o histórico de interferências governamentais na precificação da companhia deixou marcas.
Na própria sexta-feira, os recibos de ações (ADR) da Petrobras negociados na bolsa de Nova York chegaram a recuar 9% na mínima no after hours, uma espécie de prorrogação do pregão regular. Hoje, antes da abertura do mercado, as ADRs chegaram a recuar 17%, e o EWZ, ETF que representa as ações brasileiras, chegou a cair 5%.
No fim de semana, Bolsonaro atacou novamente Castello Branco, disse que mais mudanças virão por aí e indicou que, como governante, precisa trocar peças que não estão dando certo. O presidente ainda disse que "Vamos meter o dedo na energia elétrica, que é outro problema também."
Mas nem tudo foram lágrimas
Dentre as poucas altas do Ibovespa nesta segunda-feira destacaram-se as ações das Lojas Americanas (LAME4) e da B2W (BTOW3), que anunciaram, também na última sexta-feira, que estudam uma fusão das suas operações.
Os papéis preferenciais das Americanas dispararam 19,88%, fechando a R$ 28,95, maior alta do Ibovespa no dia. Já as ações da B2W subiram 1,15%, para R$ 89,67. Fora do Ibovespa, as ações ordinárias das Lojas Americanas (LAME3) tiveram uma estrondosa alta de 40,00%, fechando a R$ 26,39.
A união deve tornar a varejista mais comparável com suas concorrentes diretas, como Via Varejo e Magazine Luiza, que já operam com os negócios on-line e de lojas físicas integrados em uma única companhia.
A expectativa é que, no provável desenho da fusão, Lojas Americanas seja incorporada pela B2W, o que significaria a migração dos atuais acionistas de LAME4 (que não têm direito a voto) para uma companhia listada no Novo Mercado — o segmento de governança corporativa mais rigoroso da B3.
A segunda maior alta do Ibovespa no dia foi a das ações da Embraer (EMBR3), que avançou 7,40%, para R$ 12,48. Os papéis foram impulsionados pela notícia, divulgada na última sexta-feira, de que a companhia confirmou que de fato está discutindo a venda de aeronaves para a Lufthansa, negociação que já havia sido antecipada na quarta-feira (17) pelo CEO da aérea alemã.
Sobe e desce
Confira a seguir as maiores quedas do Ibovespa nesta segunda-feira:
| CÓDIGO | NOME | VALOR | VARIAÇÃO |
| PETR4 | Petrobras PN | R$ 21,45 | -21,51% |
| PETR3 | Petrobras ON | R$ 21,55 | -20,48% |
| BBAS3 | Banco do Brasil ON | R$ 28,83 | -11,65% |
| UGPA3 | Ultrapar ON | R$ 21,07 | -7,83% |
| VVAR3 | Via Varejo ON | R$ 12,94 | -7,57% |
Veja também as maiores altas do índice:
| CÓDIGO | NOME | VALOR | VARIAÇÃO |
| LAME4 | Lojas Americanas PN | R$ 28,95 | +19,88% |
| EMBR3 | Embraer ON | R$ 12,48 | +7,40% |
| CIEL3 | Cielo ON | R$ 3,74 | +4,76% |
| PRIO3 | PetroRio ON | R$ 92,19 | +3,71% |
| KLBN11 | Klabin unit | R$ 30,57 | +3,21% |
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