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2020-06-30T17:50:45-03:00
Vinícius Pinheiro
Vinícius Pinheiro
Formado em jornalismo, com MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela FIA. Trabalhou por 18 anos nas principais redações do país, como Agência Estado/Broadcast, Gazeta Mercantil e Valor Econômico. É coautor do ensaio “Plínio Marcos, a crônica dos que não têm voz" (Boitempo) e escreveu os romances “O Roteirista” (Rocco), “Abandonado” (Geração) e "Os Jogadores" (Planeta).
Após o vexame

IRB reconhece balanços maquiados, mas joga a culpa na antiga diretoria

Nova gestão do IRB isentou o conselho de administração e as empresas de auditoria, que assinaram pelo menos um balanço depois que os questionamentos aos números se tornaram públicos; ações despencam

30 de junho de 2020
15:52 - atualizado às 17:50
ações gráficos empresários bolsa
Imagem: Shutterstock

Cinco meses depois do questionamento da gestora Squadra, a empresa de resseguros IRB Brasil enfim reconheceu que seus resultados foram de fato maquiados.

A companhia reapresentou os números de 2019 e 2018, que mostraram um lucro líquido R$ 670 milhões menor do que o apresentado originalmente na soma dos dois períodos.

Mas a nova gestão jogou toda a responsabilidade pelas irregularidades encontradas nas costas da antiga diretoria da companhia.

O atual presidente do conselho e diretor-presidente do IRB, Antonio Cassio dos Santos, isentou o conselho de administração, que assinou pelo menos um balanço – o do quarto trimestre de 2019 – depois que os questionamentos da Squadra se tornaram públicos.

Santos também não apontou responsabilidade das empresas de auditoria, tanto a PwC, que já era a responsável por atestar os números da companhia, como a EY (antiga Ernst & Young), contratada especificamente para dar um parecer sobre os números atuariais do IRB.

Mesmo depois do alerta da Squadra, ambas as empresas atestaram no balanço do quarto trimestre e de 2019 que os resultados não tinham problemas.

"Da mesma forma como o conselho foi vítima, a empresa e a auditoria também foram. As mesmas pessoas fizeram erros recorrentes por um longo tempo", disse o presidente do IRB, sem citar nomes, de acordo com o Broadcast.

No balanço reapresentado, a empresa informa que ex-diretores e outros colaboradores praticaram irregularidades que culminaram na “modificação intencional e sistêmica de dados operacionais”.

Vale lembrar que a antiga diretoria do IRB não caiu após o questionamento da Squadra, mas após o vergonhoso episódio da notícia falsa de que o megainvestidor Warren Buffett era acionista da companhia.

As conclusões da investigação interna conduzida pela empresa foram remetidas aos reguladores e ao Ministério Público, que devem apurar as responsabilidades, disse Werner Süffert, diretor financeiro e de relações com investidores do IRB, em teleconferência com analistas.

No pregão de hoje, as ações do IRB (IRBR3) mantêm a rotina de alta volatilidade e passaram a cair forte no começo da tarde. No fechamento, despencavam 12,52%, cotadas a R$ 10,90. Leia também nossa cobertura completa de mercados.

As irregularidades

A investigação interna iniciada pelo IRB após a queda da antiga diretoria detectou irregularidades no registro de provisões técnicas, que foram feitas em competências inadequadas, a menor ou simplesmente não foram feitas.

A resseguradora também reconheceu que os resultados do ano passado foram inflados por itens que não vão se repetir em balanços seguintes, como a venda na participação de shopping centers. Ambos os problemas foram detectados na análise da gestora Squadra.

Essa contabilização indevida resultou em uma redução de R$ 553 milhões no lucro líquido e de R$ 727 milhões no patrimônio líquido do IRB de 2019.

A empresa também reapresentou os números de 2018, que mostram um impacto de R$ 117 milhões no lucro e de R$ 369 milhões no patrimônio.

Além dos balanços, o IRB detectou que a antiga diretoria teria feito pagamentos indevidos a ex-administradores e outros colaboradores, no valor de R$ 60 milhões, além de recompras de ações no mercado além do autorizado pelo conselho de administração.

A empresa informou ainda ter encontrado os responsáveis pela disseminação da "fake news" sobre a compra de ações por Warren Buffett, mas não revelou os nomes. Os atos teriam sido praticados "em caráter individual, fora de seus mandatos e de seus poderes regulares de gestão".

Capitalização

Junto com o balanço do primeiro trimestre, o IRB anunciou que planeja fazer uma capitalização para voltar a se reenquadrar nos requerimentos da Susep.

O regulador determinou uma fiscalização na empresa após constatar que os ativos garantidores de provisões técnicas estão abaixo do mínimo regulatório. No balanço, o IRB mostra que encerrou março com uma insuficiência de liquidez de R$ 2,1 bilhões.

A empresa contratou os bancos Bradesco BBI e Itaú BBA para estruturar um potencial aumento de capital. Ambos os bancos são acionistas e mantinham integrantes no conselho de administração do IRB até a mudança na gestão.

Posição do IRB

Eu procurei a empresa com um pedido de entrevista e recebi um posicionamento em nota, reproduzida abaixo:

O IRB Brasil RE analisou todas as informações e fatos disponíveis, por meio de investigação independente e de apurações internas.

As apurações sobre as demonstrações financeiras contaram com especialistas de empresas renomadas e procedimentos internos de auditoria e compliance, que levaram aos ajustes e também identificaram os Diretores e demais colaboradores responsáveis pelos registros realizados de forma inadequada. Em breve, o IRB Brasil RE apresentará essas conclusões à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e à Superintendência de Seguros Privados (SUSEP), e analisará o oferecimento de denúncia às autoridades competentes sobre os fatos e indícios apurados, visando as devidas investigações.

Na semana passada, o IRB Brasil RE já havia apresentado a esses órgãos, bem como ao Ministério Público Federal (MPF), as conclusões relativas à investigação independente sobre a divulgação intencional de informações falsas ao mercado e apurações internas sobre pagamentos realizados de forma indevida.

A Companhia tem agora o dever de apoiar as autoridades competentes, de maneira isenta, e entende que todos os envolvidos devem ser devidamente responsabilizados.

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