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Entre mortos e feridos, salvaram-se poucos; dólar disparou, bolsa desabou, e até alguns títulos de renda fixa tiveram desempenho negativo no mês.
Mesmo para quem não bebe, a ressaca de Carnaval, neste ano, foi braba. Com a piora na disseminação do coronavírus fora da China, o pessimismo se instaurou nos mercados mundiais na última semana de fevereiro, e a situação, que já não era das melhores, piorou de vez.
Como consequência, praticamente todos os ativos de risco tiveram desempenho negativo no mês, com destaque para as ações, os piores investimentos de fevereiro. O Ibovespa terminou o mês com queda de 8,43%, aos 104.171,57 pontos, o pior desempenho desde maio desde 2018, quando ocorreu a greve dos caminhoneiros que parou o país.
Entre mortos e feridos, salvaram-se poucos. O único bom investimento de fevereiro de fato foi o dólar, que subiu 4,52% e, no ano, acumula alta de 11,63%. Depois de quebrar recorde atrás de recorde, a moeda americana chegou ao seu mais alto patamar histórico em termos nominais: R$ 4,4785. Pelo jeito, para quem não se protegeu, não vai ter Disney mesmo…
Nem mesmo o ouro, que viu um forte rali neste mês, conseguiu terminar no azul (considerando apenas o seu desempenho em dólares, como fazemos no nosso ranking). E o bitcoin, que vinha de uma disparada no início do ano, também deu uma recuada. Desempenho positivo só mesmo na renda fixa pós-fixada, que acompanha a taxa básica de juros, e nos títulos prefixados de curto prazo.

Fevereiro foi um mês difícil para quem tinha ativos de risco na carteira - ou seja, praticamente todo mundo que se mexeu para tentar ganhar um pouco mais do que o parco juro que as aplicações mais conservadoras estão pagando.
Mas quem seguiu a cartilha e manteve uma parte da carteira atrelada à cotação do dólar - seja num fundo cambial indexado à moeda americana ou num fundo de ouro sem proteção cambial - conseguiu amenizar as perdas e, talvez, até obter algum ganho no consolidado do período.
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Durante todo o mês, os temores em relação às possíveis consequências do coronavírus para a economia mundial deixaram os investidores cautelosos e avessos ao risco.
Instituições financeiras começaram a rever para baixo as suas projeções para o crescimento mundial, e algumas empresas - como a Apple e a Microsoft - manifestaram que não conseguiriam bater suas projeções por conta do surto da doença causada pelo vírus.
Toda essa tensão gerou um movimento de corrida para os ativos considerados seguros e “à prova de crise”, como o ouro e o dólar, levando a uma disparada das suas cotações. As ações, por outro lado, se desvalorizavam globalmente, mas também sem grandes soluços.
Mas, na última semana do mês, o tempo fechou. O surgimento de novos focos da doença pelo mundo, sobretudo na Itália, na Coreia do Sul e no Irã, e a disseminação mais global do coronavírus deixaram os mercados ainda mais temerosos - o Brasil, por exemplo, confirmou o seu primeiro caso.
Ainda mais avessos ao risco, sem saber, ao certo, as consequências que uma pandemia poderia trazer para a economia mundial, os investidores reagiram com uma fuga ainda mais intensa para o ouro e o dólar.
O metal precioso acabou recuando no fim do mês (em dólar), mas a moeda americana continuou se fortalecendo. Já as bolsas mundiais desabaram. Por aqui, no entanto, os mercados estavam fechados, por conta do Carnaval.
Assim que a bolsa brasileira abriu, na quarta-feira à tarde, o Ibovespa despencou, de cara, 7%. Foi o pior pregão desde o “Joesley Day”, apelido do dia 18 de maio de 2017, quando o mercado reagiu - muito mal, por sinal - à notícia de que Joesley Batista havia gravado conversas comprometedoras com o então presidente Michel Temer.
Quase toda a perda do Ibovespa, neste mês, se concentrou nesses últimos dias. Já o dólar, continuou subindo e cravando recorde atrás de recorde, até chegar ao inédito patamar de R$ 4,50 nesta sexta-feira, de onde acabou recuando um pouquinho.
Mas não foi só o coronavírus que “tocou o terror” em fevereiro. Alguns fatores internos contribuíram para a alta do dólar e a queda da bolsa. Um deles foi o último corte de juros feito pelo Banco Central, que aumentou ainda mais o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos.
Este é um dos principais fatores que levaram o real a se desvalorizar tanto ante a moeda americana nos últimos tempos, conforme o Victor Aguiar já explicou na sua matéria sobre por que o dólar anda subindo tanto.
O outro fator foi o agravamento dos conflitos dentro do governo. Nesta última semana, o presidente Jair Bolsonaro convocou a população para uma manifestação, no próximo dia 15 de março, em apoio ao governo e numa postura de confronto com os poderes legislativo e judiciário.
A ação foi muito mal vista em Brasília. A postura de enfrentamento do presidente aos outros poderes tem sido encarada, pelo mercado, como um fator que pode atrasar ou mesmo enfraquecer as reformas, para as quais o Executivo precisa da aprovação do Congresso.

Na renda fixa, a situação não esteve muito melhor em fevereiro. Com o aumento generalizado da aversão a risco, os juros futuros de longo prazo dispararam - basicamente, eles representam uma aposta na melhoria estrutural do país. Uma alta nessa ponta da curva de juros mostra temor e incerteza quanto ao futuro mais distante.
Com isso, os títulos que costumam se beneficiar das quedas nos juros e sofrer com as altas amargaram desempenho negativo no mês. Estou falando dos títulos prefixados e atrelados à inflação (IPCA) de longo prazo.
Já os juros futuros de curto prazo tiveram queda, refletindo a aposta do mercado de que o Banco Central deve continuar reduzindo a Selic para tentar reanimar a economia.
Na última reunião do Copom, o Comitê de Política Monetária do BC, a instituição deu a entender que o ciclo de cortes havia terminado. Mas com a nova ameaça do coronavírus ao crescimento mundial - e consequentemente, ao crescimento brasileiro -, o mercado volta a apostar em novas reduções.
Por sinal, mesmo nos Estados Unidos os investidores voltaram a acreditar que o Federal Reserve, o banco central americano, deve voltar a cortar os juros.
O recuo dos juros curtos, portanto, foi o que valorizou os títulos prefixados de vencimentos mais próximos, que conseguiram se salvar em meio ao mar vermelho de fevereiro.
Felizmente a sua reserva de emergência, alocada nos investimentos tranquilinhos atrelados à Selic e ao CDI, teve resultado positivo, certo? Apenas tome cuidado para ela não perder da inflação. Como eu já mostrei nesta matéria, não é improvável que a sua reserva de renda fixa já tenha se transformado em perda fixa.
Já os fundos imobiliários continuaram a sofrer ajuste em fevereiro, após o rali sem razões aparentes de dezembro. Os fundos também guardam forte relação com as projeções para as taxas de juros e o desempenho da economia real.
Juro para cima impacta negativamente seus preços, assim como perspectivas de economia mais fraca e aumento da aversão a risco.
Depois dessa semana complicada, é bem possível que você esteja desanimado com os seus investimentos, principalmente se for um estreante na bolsa. Mas calma. Não é para sair correndo em pânico. Momentos de estresse como o atual são normais em mercados de risco. É por isso que a bolsa deve ser encarada como investimento de longo prazo.
Além disso, nesse mundo de juros baixos - e que devem cair ainda mais, dadas as circunstâncias, não dá para dispensar o investimento em ações, fundos imobiliários, fundos multimercados ou títulos de renda fixa menos conservadores, todos sujeitos a altos e baixos. Sem correr algum risco, não vai ter como multiplicar seu patrimônio e formar, por exemplo, uma reserva gorda para a aposentadoria.
O que esse momento mostra, sobretudo, é a importância da diversificação. Se você tem uma carteira diversificada - com uma reserva de emergência bem conservadora, apenas uma parte em bolsa, fundos de bons gestores que sabem ganhar na alta e na baixa do mercado e aquele seguro esperto em ouro e/ou dólar - provavelmente não tem muito com que se preocupar.
No mais, momentos de baixa do mercado podem ser, para os mais arrojados, boas oportunidades de comprar bons ativos baratos.
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