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2020-02-13T16:33:38-03:00
Victor Aguiar
Victor Aguiar
Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e com MBA em Informações Econômico-Financeiras e Mercado de Capitais pelo Instituto Educacional BM&FBovespa e UBS Escola de Negócios. Trabalhou nas principais redações de economia do país, como Bloomberg, Agência CMA, Agência Estado/Broadcast e Valor Econômico.
Pressão no câmbio

Por que o dólar está subindo?

O dólar à vista já sobe mais de 8% desde o início do ano e, com isso, busca níveis nunca antes atingidos. Entenda a dinâmica por trás do mercado de câmbio e os fatores que têm pressionado a moeda

13 de fevereiro de 2020
16:20 - atualizado às 16:33
Dólar subindo
Imagem: Shutterstock

Que o dólar à vista está numa tendência de alta, você já sabe: desde o início de 2020, a moeda americana acumula ganhos de mais de 8% — uma escalada que levou a divisa a novos recordes em termos nominais.

O tema tem gerado debates acalorados e despertado uma curiosidade que vai muito além do mercado financeiro. Um levantamento preparado pelo Google mostra que o câmbio aparece entre os assuntos mais procurados pelos brasileiros nesta semana.

Sendo assim, vamos responder às cinco maiores dúvidas em relação ao comportamento da moeda americana. Eu não sei se você vai encontrar a resposta no Google, mas ela está aqui no Seu Dinheiro. Vamos começar pela pela grande dúvida de todos:

1 - Por que o dólar está subindo?

Esse não é um questionamento simples, já que a tendência de alta da moeda americana é fruto de uma série de motivos que atuam em conjunto, e não apenas de um único ponto de estresse. Tanto no exterior quanto no Brasil, há diversos fatores que trazem pressão ao câmbio.

Em primeiro lugar, há o ambiente de maior cautela visto lá fora. É bom lembrar que, desde o início do ano, dois grandes acontecimentos elevaram a percepção de risco por parte dos investidores: os atritos entre Estados Unidos e Irã no Oriente Médio e o surto de coronavírus.

Por mais que a tensão entre americanos e iranianos não tenha se desdobrado num conflito militar propriamente dito, o mercado viveu dias turbulentos no início do ano, temendo uma escalada bélica no Oriente Médio — e essa preocupação se traduziu numa primeira onda de valorização do dólar ante as moedas de países emergentes, como o real.

E, quando os ânimos dos investidores começavam a se acalmar, veio a segunda onda de cautela: o surgimento de uma doença misteriosa na China e sua disseminação para outros países.

O coronavírus mexe com o dólar porque representa um risco ao crescimento da economia mundial. A China, epicentro do problema, é uma consumidora importante de commodities e uma participante relevante do comércio internacional.

Assim, uma desaceleração na atividade chinesa traria turbulência ao globo, numa espécie de efeito dominó. E como ainda não há uma perspectiva sólida para a contenção do surto, o mercado busca mecanismos de defesa — e um deles é comprar dólares, uma moeda forte e estável.

Além dos fatores externos, há também as questões domésticas. Aqui, há o "efeito Selic": com a taxa básica de juros sendo cortada para 4,25% ao ano, o Brasil fica menos atraente para os investidores estrangeiros que buscavam retornos fáceis.

Esse é um ponto estrutural da economia brasileira, e tem relação com o risco associado ao país. Em resumo: o investidor compara a taxa de juros do Brasil e dos Estados Unidos e, quanto maior a diferença, mais rentável será a aplicação de recursos por aqui.

No entanto, com os sucessivos cortes na Selic, esse diferencial nas taxas caiu bastante — ao ponto que, ao olhar para a atual classificação de risco do Brasil, o investidor que busca apenas esse tipo de retorno já não encontra muita vantagem.

Assim, o fluxo de dinheiro 'especulativo' em direção ao Brasil, que antes era abundante, tem minguado — e, com menos dólares entrando no país, a cotação da moeda americana sobe.

Por fim, há a desconfiança do mercado em relação à retomada do crescimento da economia brasileira e o mal estar gerado pelas recentes declarações do ministro Paulo Guedes, atuando em conjunto para trazer ainda mais estresse ao dólar.

2. Quanto está o dólar hoje?

Dólar em alta

Por volta de 15h30 desta quinta-feira (13), o dólar à vista era negociado a R$ 4,3470, em leve baixa de 0,10%. Ao longo da sessão, a moeda americana oscilou entre os R$ 4,3095 (-0,95%) e os R$ 4,3830 (+0,74%) — um novo recorde nominal em termos intradiários. Acompanhe o movimento do pregão em tempo real.

É importante ressaltar o uso do termo 'nominal' ao falarmos das sucessivas máximas do dólar. Esses recordes referem-se ao valor de face da taxa de câmbio, sem considerar a inflação.

A máxima nominal de fechamento do dólar à vista foi registrada na última quarta-feira (12), a R$ 4,3510.

3. Quando o dólar vai baixar?

Dólar balão

Veja bem, essa é uma pergunta bastante complicada. O câmbio, afinal, é o mercado que está exposto ao maior número de variáveis, tanto domésticas quanto internacionais — o que dificulta qualquer previsão para o comportamento do dólar.

É quase impossível cravar uma data em que a moeda americana vai cair, mas é perfeitamente viável citar alguns fatores que podem ajudar a tirar a pressão do câmbio.

Caso a economia brasileira comece a dar sinais mais firmes de aquecimento, a tendência é de alívio na cotação do dólar à vista. Afinal, os dados de crescimento do PIB são o cartão de visitas do país aos investidores estrangeiros — e uma economia forte é um fator-chave para atrair recursos de fora.

Ainda no Brasil, o avanço da agenda de reformas econômicas no Congresso também é importante para a retomada da confiança do mercado. A aprovação das novas regras da Previdência foi bem recebida pelos investidores, que agora esperam o avanço das reformas tributária e administratva.

No exterior, os desdobramentos do coronavírus serão acompanhados de perto pelo mercado. Caso o surto da doença se aprofunde, o dólar tende a avançar ainda mais; caso ocorra o contrário e a economia global não seja muito afetada, a tendência é de queda na aversão ao risco — e, assim, de maior demanda por moedas de países emergentes.

Dito tudo isso, uma boa dica é: sempre tenha dólares em sua carteira de investimentos. Na pior das hipóteses, a moeda americana atuará como proteção para o seu portfólio, se valorizando quando todo o resto está em queda; na melhor, você terá um ativo seguro em mãos.

4. Por que o dólar subiu tanto?

Dólar em alta

O nome do jogo é 'aversão ao risco'. Os mercados financeiros odeiam situações em que não tem previsibilidade quanto ao que ocorrerá no futuro — e, até agora, 2020 está recheado de circunstâncias desse tipo.

No câmbio, há uma estratégia clássica para lidar com períodos de estresse: na dúvida, é melhor vender as moedas mais arriscadas, como as de países emergentes — caso do real, do peso mexicano, do rublo russo, do peso chileno ou do rand sul-africano, entre outras — e buscar opções mais seguras.

Entre essas bolas de segurança, aparecem o dólar, o euro e o iene. Outra boa pedida é o ouro — desde o início do ano, a commodity já sobe quase 4%.

Nesta quinta-feira, o Banco Central (BC) atuou no câmbio para tentar conter a disparada do dólar, que bateu os R$ 4,38 mais cedo. A autoridade monetária convocou um leilão extraordinário de swap cambial, no montante de até US$ 1 bilhão — o que, na prática, significa a injeção de dinheiro novo no mercado.

A iniciativa do BC trouxe alívio imediato, afastando o dólar das máximas. Contudo, tais atuações são esporádicas e ocorrem apenas nos momentos em que o Banco Central identifica algum tipo de disfunção no mercado.

Afinal, o regime cambial no Brasil é flutuante — assim, em tese, o BC não tenta controlar artificialmente as oscilações da moeda ou defender uma cotação específica do dólar.

5. O que faz o dólar subir?

Dólar

Há variáveis domésticas e externas capazes de influenciar a cotação do dólar. O que esses fatores têm em comum é a capacidade de diminuir a previsibilidade em relação ao futuro, aumentando a percepção de risco por parte dos investidores.

Assim, o coronavírus mexe com o dólar porque o mercado não sabe se o surta da doença vai mexer com a economia global, se a China vai consumir menos commodities ou se o fluxo de pessoas vai sofrer alguma restrição; a reforma da Previdência afetava o câmbio porque, caso não fosse aprovada, o Brasil entraria numa situação fiscal muito difícil.

Quanto à Selic, os investidores agora estão numa espécie de bifurcação. Por um lado, o BC sinalizou na última reunião do Copom que não vai mais cortar os juros; por outro, os dados fracos da economia brasileira sugerem que ainda há necessidade de estímulos extras, o que pode ser feito via uma nova redução nas taxas.

Caso a Selic caia novamente, o diferencial de juros em relação aos EUA irá diminuir ainda mais, afastando alguns investidores; se a Selic ficar estável, o diferencia continua nos patamares atuais. Portanto, eis aqui mais um fator de incerteza.

Em resumo, é isso: quem acompanha o mercado de câmbio deve estar atento a uma série de variáveis, de modo a mapear os mais diversos fatores de risco. Uma tarefa complexa, mas que, ao fim do dia, ajuda a entender um pouco o comportamento do dólar.

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