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Felipe Saturnino

Felipe Saturnino

Graduado em Jornalismo pela USP, passou pelas redações de Bloomberg e Estadão.

Entrevista exclusiva

Coronavírus pode levar Copom a cortar juros já na próxima reunião, diz ex-diretor do BC

Tony Volpon, economista-chefe para o Brasil do UBS, afirma que os impactos do surto do novo coronavírus podem levar a Selic abaixo de 4%

Felipe Saturnino
Felipe Saturnino
2 de março de 2020
5:55 - atualizado às 20:02
Tony Volpon, economista-chefe do UBS para o Brasil
Tony Volpon, economista-chefe do UBS para o Brasil - Imagem: Divulgação

Na última reunião que decidiu pelo corte dos juros para 4,25% ao ano, o Banco Central sinalizou ao mercado que essa seria a última redução da taxa. Mas os potenciais impactos do agravamento da epidemia do coronavírus para a economia podem levar o BC a mudar de ideia e cortar novamente a Selic já na reunião deste mês.

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A afirmação é de Tony Volpon, economista-chefe para o Brasil do banco suíço UBS. Em entrevista ao Seu Dinheiro, o ex-diretor de assuntos internacionais do Banco Central afirmou que um novo corte nos juros poderá acontecer no próximo encontro do Copom desde que duas condições sejam satisfeitas.

A primeira delas é o fornecimento adequado de hedge [proteção] para o funcionamento do mercado cambial, tarefa da qual o BC também é incumbido, podendo oferecer instrumentos como swap cambial e leilão de linha.

"A proteção precisa ser feita o mais rápido possível. Não haverá graus de liberdade da política monetária sem o hedge do mercado", disse Volpon.

A segunda condição é a redução dos juros dos Estados Unidos na próxima reunião do Federal Reserve (Fed) — uma chance que aumentou recentemente, segundo Volpon. "Nenhum emergente vai cortar antes do Fed para não ter a sua moeda punida", diz ele.

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As próximas reuniões dos BCs norte-americano e brasileiro ocorrerão nos mesmos dias – 17 e 18 de março – o que só contribui para aumentar a expectativa sobre a reação das autoridades ao surto do coronavírus.

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Volpon atualmente prevê que a Selic termine o ano em 4%. A taxa básica hoje se encontra em 4,25%, depois do corte de 0,25 ponto percentual no início de fevereiro. Na ata da reunião, o Copom apontou ver como "adequada a interrupção do processo de flexibilização monetária".

No entanto, a depender dos efeitos do novo coronavírus na economia europeia e nos Estados Unidos, que podem afetar o PIB brasileiro, Volpon diz que pode adicionar mais previsões de corte à sua projeção para a Selic no fim do ano, o que levaria a taxa abaixo dos 4%.

A inflação não é um problema para essa conta, uma vez que o repasse do câmbio para a inflação é mitigado em uma economia como a brasileira, que opera abaixo de seu produto potencial.

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Além disso, há uma folga em relação ao centro da meta de inflação definida pelo Conselho Monetário Nacional, que é de 4%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. O mercado espera inflação de 3,22% para este ano, segundo a última edição do boletim Focus.

Críticas à atuação do BC

Volpon também não poupou o Banco Central de críticas. Para o economista, a autoridade monetária poderia ter realizado mais intervenções no mercado cambial em meio ao grande movimento de valorização do dólar.

"Particularmente, nos últimos dias, eu teria tido uma atuação mais agressiva. Agora, também entendo que, dadas as incertezas do cenário, é sempre bom guardar munição para um conjunto de notícias mais complicadas."

Entre as complicações que podem surgir no cenário, ele cita a consolidação da visão de que existe um surto consistente do vírus nos Estados Unidos. "O mercado parece precificar isso hoje, e, se o surto for realmente consistente, o BC talvez tenha que usar essa munição."

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Para o economista do UBS, a sangria dos mercados globais na semana passada se baseou principalmente na perspectiva de que o surto tem dimensão global, após chegar à Europa. "O foco italiano foi a razão da volatilidade, a meu ver", disse.

De acordo com Volpon, os mercados globais precificam "parcialmente" um cenário em que há um foco consistente de coronavírus tanto na Europa como nos Estados Unidos. "Se acontecer nos Estados Unidos o que ocorreu na Lombardia, os mercados podem piorar."

Olho no dólar

O UBS ainda mantém a projeção de dólar a R$ 4,00 no fim do ano, mas é bastante provável que haja uma revisão para cima no preço da moeda. Segundo Volpon, deve também haver um corte na previsão para crescimento do PIB do Brasil, hoje em 2,1%. Ambas as revisões se relacionam à dimensão da crise do coronavírus.

O nível de R$ 4,50, no entanto, pode fazer com o que o mercado "pause para avaliar" a dinâmica cambial, disse Volpon, mas com certeza o dólar "pode ir além disso", dada a tensão diante da inauguração de uma nova frente no surto de coronavírus fora da China.

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Para Volpon, embora o câmbio tenha se depreciado ainda mais com o coronavírus, a moeda tem sofrido efeitos cruciais da queda da taxa de juros. Desde outubro de 2016, a Selic caiu 10 pontos percentuais.

Os termos de troca e o crescimento mais baixo do PIB brasileiro são outros fundamentos que levam a uma taxa de câmbio de equilíbrio mais depreciada, de acordo com o economista.

Bolsa cara demais?

Outro tema explorado pelo ex-BC foi o desempenho do índice acionário brasileiro, o Ibovespa, que mais de 8% nos últimos três pregões. Ao explicar o fluxo de saída de investidores da B3, Volpon disse que os estrangeiros acreditam que a bolsa brasileira esteja muito cara no patamar atual.

"Tem duas bolsas: a de bancos e commodities, que não sobem tanto porque tem os P/Ls [relação entre preço e lucro] dentro do padrão, e outra bolsa, que subiu demais e opera com P/Ls muito esticados", disse Volpon.

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Ele conta que, em suas conversas com investidores estrangeiros, ouve deles que, no nível de preço atual, eles vêem a oportunidade de vender os papéis que detêm.

"Os estrangeiros também acham que investidores brasileiros não têm tanto acesso a mercados como eles, e estão dispostos a pagar o que os de fora não pagam", diz Volpon.

Outros dois motivos que afastam os estrangeiros da B3 são cautela com o crescimento da economia brasileira e a "moda global" do ESG (sigla em inglês que significa boas práticas ambientais, sociais e de governança). No caso deste último fator, o comentário de gestores estrangeiros que Volpon afirma ter recebido em relação à abordagem do governo brasileiro foi negativo.

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