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2020-08-06T15:40:38-03:00
Vinícius Pinheiro
Vinícius Pinheiro
Diretor de redação do Seu Dinheiro. Formado em jornalismo, com MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela FIA, trabalhou nas principais publicações de economia do país, como Valor Econômico, Agência Estado e Gazeta Mercantil. É autor dos romances O Roteirista, Abandonado e Os Jogadores
Renda fixa que varia

Após abalo na crise, debêntures voltam a render acima do CDI; vale a pena investir?

Após queda de 8% em março com temor de calote de empresas na crise, índice de debêntures voltou ao positivo e rende 2,1% no acumulado do ano, contra 2% do CDI

6 de agosto de 2020
15:40
Mercados renda fixa
Imagem: Shutterstock

O mercado de debêntures — os títulos de dívida emitidos pelas empresas — sofreu um abalo sísmico com a crise do coronavírus. Em meio ao temor de um calote generalizado com a parada súbita da economia, os investidores saíram vendendo seus papéis a qualquer preço.

Como consequência, o Idex, o índice de debêntures calculado pela gestora JGP chegou a registrar uma queda de quase 8% em março, um desempenho que não é esperado para um investimento que é considerado de renda fixa.

Nos meses seguintes, porém, o índice se recuperou e voltou a superar o CDI no acumulado do ano, com um retorno de 2,1%, contra 2,0% do indicador de referência das aplicações de renda fixa.

Renda fixa que varia

Mas por que o retorno dos títulos privados — e dos fundos que investem nesses papéis — varia? Não se trata de um investimento de renda fixa?

A rentabilidade de um título de renda fixa — público ou privado — só é garantida para quem carrega o papel até o vencimento. Mas quando o papel é negociado antes do fim do prazo, o que vale é a taxa definida pelo mercado.

Em momentos de maior incerteza, as taxas de juros dos títulos tendem a subir, então o investidor que vender seus papéis nessas condições terá uma perda, e vice-versa.

No caso dos fundos de investimentos, existe a obrigação de que as cotas sejam ajustadas diariamente pelo valor de mercado dos títulos da carteira, mesmo que o gestor não venda os papéis. Esse ajuste é chamado de marcação a mercado.

Quem investe em títulos públicos corre basicamente esse risco de mercado. Mas no caso das debêntures e outros papéis emitidos por empresas, existe ainda o risco de calote do emissor.

Atuação do Banco Central

Foi a conjunção desses dois riscos — de mercado e de crédito — que levou ao abalo do mercado de debêntures em março. A queda dos papéis derrubou junto a rentabilidade dos fundos, o que levou a uma onda de resgates que retroalimentou o processo.

A queda foi tão forte que levou o Banco Central a tomar medidas para tentar atenuar os efeitos da crise.

Primeiro, o BC liberou compulsórios para que os bancos pudessem comprar debêntures no mercado. Agora, a autoridade monetária pode atuar diretamente com a autorização dada pelo Congresso no chamado "orçamento de guerra".

Vale a pena investir?

No auge da crise, as debêntures que compõem a amostra do Idex chegaram a oferecer um rendimento (spread) de 4,8% sobre o CDI. Com a melhora do mercado, essa taxa caiu para 2,64%, mas segue bem acima do nível de 1,3% do início do ano.

“Com o tempo, foi ficando mais claro que as grandes empresas não sofreram tanto assim na crise, e que o risco de inadimplência, em especial, continua bastante afastado para esse tipo de empresa”, me disse Ulisses Nehmi, sócio da gestora Sparta.

Ou seja, quem teve sangue frio e investiu no momento mais crítico se deu bem com esse fechamento das taxas. Mas ainda vale a pena investir?

Nos cálculos do gestor da Sparta, o investimento em títulos privados ainda tem potencial para render de mais de três vezes a Selic atual.

Para chegar a esse número, ele considera o rendimento atual (de 2,64% mais o CDI de 2%), além de um ganho extra que pode vir com uma redução adicional dos spreads e pode trazer um retorno adicional de 2%.

Mas não se trata de um investimento livre de riscos. O principal deles para quem investir agora é o de uma nova piora nos mercados que volte a aumentar as taxas no mercado. Isso sem falar, é claro, no calote da empresa emissora das debêntures.

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