O Gato de Schrödinger e o pulo do gato morto: as altas recentes são sinais de compra?
Estaríamos diante de uma alta limitada dentro de um mercado de baixa ou seria algum sinal de que o mundo mudou completamente e o que costumava fazer sentido agora não importa mais?

Um dos paradoxos mais curiosos da física repousa na mecânica quântica, o chamado de “gato de Schrödinger”. Nós economistas viveremos eternamente sob o apelido de “physics envy” (ou, em bom português, invejosos da física) diante de nossos incessantes esforços no sentido de matematizar nossa tão amada ciência social, em comunhão ao processo ditado pela hipótese da ergodicidade - é uma velha tara do mainstream a tentativa de levar a economia de "soft science" para "hard science"; isto é, ligados às esferas exatas e quantificáveis do pensamento.
Digressão feita, de volta a Schrödinger. O paradoxo, na verdade, deriva de um experimento ilustrado pela interpretação de Copenhague para com a mecânica quântica. Basicamente, no exemplo em questão, há um gato fechado dentro de uma caixa, de forma a se saber se o mesmo se encontra vivo ou morto. Sem poder definir a priori, o observador deveria te-lo como "vivo e morto". Atrelado aos nossos queridos eventos aleatórios, um gato “vivo-morto" seria reflexo de um estado físico supostamente presente em sistemas quânticos; notadamente, a superposição quântica.
O emaranhamento de dois estados confunde o observador, o qual, perante demasiada incerteza, não poderia elucidar com precisão qual o verdadeiro estado do gato, uma vez que a caixa estaria fechada, impedindo conclusão. Paradoxalmente, assim, ao não saber se o gato está vivo ou morto, o observador que abrir a caixa e se defrontar, aleatoriamente, com um gato morto, seria potencialmente responsável pela então morte (ou pela vida) da criatura.
Erwin Schrödinger captou perfeitamente a mensagem. Somos vítimas do aleatório, da randomicidade. Principalmente quando se trata de mercados financeiros, então - daí nem se fala. Vivemos inevitavelmente em paralelo com nossa incapacidade de sistematizar com precisão eventos complexos. O mundo não cabe numa planilha de excel e estamos fadados a não entendê-lo completamente.
A problemática se intensifica com ativos financeiros, os quais não respeitam a clássica preservação de suas propriedades estatísticas com requerida fidedignidade. Evidentemente, o ferramental aplicado é salutar, mas longe de ser o ideal. Isso porque, nas finanças, investimentos costumam responder com mais exacerbação justamente aos momentos que não podemos antecipar, da mesma forma que não se pode afirmar com precisão se o gato está vivo ou morto a priori.
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Atualmente, nos defrontamos com uma situação muito parecida. Reféns de movimentos monetários de altíssima magnitude e sem precedentes na história, criando-se distorções nos mercados financeiros globais, descolando os ativos da realidade. Ontem, por exemplo, passamos da marca dos 85 mil pontos no Ibovespa? É sério isso?
Falta girar a roleta agora, porque virou cassino
Vamos verificar o que nos espera em pouco tempo. Não temos nada pra puxar PIB brasileiro no cenário corrente. Investimento e consumo? Sem chance. Além disso, nosso governo está sem dinheiro, empresários estão acuados e gringos nos evitam.
Talvez, de fato, nossas esperanças pudessem residir na exportação e no agro. O negócio, então, seria deixar o dólar subir de modo a nos valermos de duas abordagens:
- potencial de investimentos em agro e em exportadoras;
- dólar subindo mais.
Francamente, acredito que seja muito pouco ainda. Vem porrada grande por aí. A tão sonhada recuperação em V, difundida irresponsavelmente pelo ministro da Economia, é improvável. Crise econômica, cambial, sanitária e político-institucional. Tudo em um país que precisava de reformas estruturantes e de produtividade para poder deslanchar.
[captacao]
Outra desvantagem brasileira: o fiscal é apertado demais
Ao final da crise, a relação dívida / PIB flertará com a casa dos 100%. Isso em um país desindustrializado, sem investimento, com renda real afundada, massa de desempregados gigantesca e câmbio acima dos R$ 5,00.
Taxa de juros terá pouca influência; aliás, a queda da Selic tem mais ajudado na depreciação do real do que no estímulo econômico. Sem perspectivas para uma retomada consistente e longo-prazista das reformas de produtividade, ficaremos novamente sem rumo (como já estamos em partes, vale dizer).
Ao mesmo tempo, o mercado segue subindo. O gato está vivo e morto ao mesmo tempo. Estaríamos diante de uma alta limitada dentro de um bear market (mercado de baixa), o chamado “dead cat bounce” (pulo do gato morto), ou seria algum sinal de que o mundo mudou completamente e o que costumava fazer sentido agora não importa mais?
Como ser construtivo com Bolsa brasileira diante de tamanha calamidade? Prefiro comprar um pouquinho de tech nos EUA, mesmo estando absurdamente caro, do que encher a mão de risco em equity nacional... Sinceramente.
Por sinal, um jeito interessante de se ter Bolsa de modo mais estrutural sem o risco das ações é só ter um pouquinho de B longa (NTN-B, título do Tesouro que paga taxa mais inflação, com vencimento no longo prazo). Existem questões estruturais na montagem de um portfólio equilibrado que justificam a presença de juro real longo nas carteiras.
Um combo com bolsa, para reduzir exposição relativa, pode ser mais interessante do que encher a mão de high vol (volatilidade elevada; logo, mais risco). Mas tudo isso não deve passar de uns 15% do total.
Paralelamente, seria salutar, hoje mais do que nunca, internacionalizar os portfólios. Ouro (dolarizado de preferência), moeda forte (dólar, por exemplo) e posições balanceadas no exterior. Proteção e direcional no estrangeiro… Sim, prefiro isso a comprar Bolsa no Brasil.
Tudo, claro, feito sob o devido dimensionamento das posições, conforme seu perfil de risco, além da devida diversificação de carteira, com as respectivas proteções associadas.
Para quem compartilha desta visão e busca montar uma carteira de investimentos adequada para os tempos de crise, deixo aqui um convite. Eu trabalho junto com o Felipe Miranda, estrategista-chefe e sócio fundador da Empiricus Research, na série Palavra do Estrategista, que traz ideias de investimentos mesmo para tempos incertos como o atual. A publicação oferece uma sugestão completa de alocação em todas as classes de ativos, inclusive, 18 ações consideradas "Oportunidades de Uma Vida".
Você tem coragem de abrir a caixa dos mercados sozinho e ser considerado culpado caso o gato esteja morto? Melhor estar fardado e com coletes à prova de balas, pois mesmo se ele parecer vivo, pode só ser um pulo de um gato morto. Convido a todos a virem conosco nessa jornada por sete dias gratuitos. Nada melhor do que uma boa companhia.
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