Os segredos da bolsa: da China ao Copom, veja quais ações vão ser destaque na semana
O avanço do coronavírus, a reabertura dos mercados chineses, a decisão do Copom e a temporada de balanços são apenas alguns dos eventos que vão mexer com a bolsa nos próximos dias. Saiba quais ações podem apresentar as maiores oscilações e saia na frente

Janeiro ficou para trás, mas os fatores que têm mantido a bolsa em alerta — como o coronavírus ou o futuro da taxa Selic — continuam no radar em fevereiro. Mas nem tudo permanecerá como antes: importantes desdobramentos desses dois eventos ocorrerão ao longo da semana.
E, tendo isso em mente, é melhor redobrar a atenção no mercado de ações. Alguns papéis da bolsa brasileira tendem a reagir de maneira mais intensa nos próximos dias, de acordo com o desenrolar dos acontecimentos.
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Em primeiro plano, aparece o noticiário vindo da China — e as ações de companhias diretamente ligadas ao país asiático, como Vale, siderúrgicas e outras exportadoras. Após uma longa paralisação, os mercados chineses voltaram a operar nesta segunda-feira (3) — e, logo na abertura, as bolsas despencaram.
Por volta de 22h40 (horário de Brasília) de domingo, o Shanghai Composite recuava impressionantes 7,89%, enquanto o Shenzhen Component caía 9,1%. O tom negativo se espalhou pela Ásia: os índices do Japão e de Taiwan recuavam 1,00% e 2,75%, respectivamente.
As bolsas da China fecharam no último dia 24, em comemoração ao Ano Novo Lunar, e originalmente reabririam no dia 31. Mas, por causa do surto de coronavírus que atinge o país, o governo de Pequim optou por prolongar o recesso.
Durante o período em que os mercados chineses estiveram paralisados, a nova doença se disseminou numa velocidade preocupante. Os dados mais recentes dão conta de 362 mortos e mais de 17 mil pessoas infectadas no mundo — além da China, outros 26 países já têm casos confirmados.
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O surto do coronavírus elevou a aversão ao risco nas bolsas globais. Desde o dia 24 — quando os mercados chineses fecharam —, o Ibovespa acumulou perdas de 4,82%; nos Estados Unidos, os principais índices acionários também tiveram um desempenho amplamente negativo.

Assim, uma pressão mais intensa na abertura das bolsas da China nesta segunda-feira já era esperada — afinal, os índices precisariam se ajustar ao movimento negativo visto nos índices globais nos últimos dias. Sabendo disso, o banco central chinês anunciou a injeção de US$ 174 bilhões via operações de mercado, de modo a garantir liquidez às negociações.
Creio que você já entendeu onde eu quero chegar. A mensagem é a de que o pregão desta segunda-feira tende a ser volátil e cheio de estresse, principalmente se a onda negativa que varre as bolsas da Ásia chegar ao Ocidente.
E, para completar o quadro negativo vindo da China, um dado no front econômico traz ainda mais preocupação: o indicador de atividade industrial do país caiu de 51,5 em dezembro para 51,1 em janeiro — é a leitura mais fraca em cinco meses.
Vírus da incerteza
O surto do coronavírus disparou um efeito dominó nos mercados: a disseminação da doença gera uma dúvida quanto ao impacto na economia global, que por sua vez desencadeia uma hesitação quanto ao comércio internacional, o que, finalmente, mexe com as perspectivas de empresas que fazem negócios com a China.
E quais são essas empresas? Na linha de frente, aparecem as exportadoras de commodities — caso da Petrobras, da Vale, das siderúrgicas e das empresas do setor de papel e celulose.
A Petrobras é atingida por causa das oscilações na cotação do petróleo. O WTI com vencimento em março, por exemplo, saiu do patamar de US$ 55 para o nível de US$ 51; o Brent para abril foi de US$ 62 para US$ 56. Assim, caso a commodity siga pressionada pela tensão global, os papéis da estatal — tanto os ONs (PETR3) quanto os PNs (PETR4) tendem a sofrer.
Já Vale ON (VALE3) e as siderúrgicas, como CSN ON (CSNA3), Usiminas PNA (USIM5) e Gerdau PN (GGBR4) dependem diretamente da demanda da China por minério de ferro e aço — e um esfriamento da economia do gigante asiático afeta diretamente as perspectivas de lucro do setor.
Nesse sentido, é importante acompanhar o comportamento do minério de ferro nos próximos dias, já que a commodity é negociada no mercado chinês, que esteve fechado. Assim como ocorreu nas bolsas, é de se esperar uma forte pressão nos preços do produto nesta segunda-feira.
Por fim, as papeleiras Suzano ON (SUZB3) e Klabin units (KLBN11) também ficam nos holofotes, já que a China é uma importante consumidora global de celulose — tais ações também podem sofrer num cenário de menor demanda.
[captacao]
Voo para Pequim
No entanto, há outras ações que podem ser afetadas indiretamente pelo coronavírus. É o caso dos papéis de companhias ligadas ao setor de viagens, como empresas aéreas ou de turismo.
Gol PN (GOLL4) e Azul PN (AZUL4) podem ser negativamente impactadas em diversos fronts. No lado dos custos, há a preocupação com os gastos com combustível de aviação, que são altamente dependentes de dois fatores: o preço do petróleo e a cotação do dólar.
Assim, se a queda do petróleo é benéfica para as aéreas, a disparada do dólar tem o efeito contrário — e uma eventual pressão extra na moeda americana pode fazer a balança pender para o lado desfavorável para as companhias.
O surto do coronavírus, contudo, também traz um efeito no lado operacional que é difícil de ser mensurado no momento: até que ponto o medo de contágio irá diminuir as viagens corporativas e a lazer? Como esse fator irá afetar a linha de receita das aéreas?
Ok, eu sei: não há voos diretos entre Brasil e China. No entanto, ambas as companhias possuem rotas internacionais e têm acordos de parceria com outras empresas do mundo. Sendo assim, como fica a indústria aérea?
Uma preocupação semelhante atinge companhias como a CVC, cuja geração de receita depende, fundamentalmente, da disposição das pessoas em se deslocar de um lugar a outro. Caso o coronavírus diminua a demanda por viagens internacionais, qual o preço justo a se pagar pelas ações ON da empresa (CVCB3)?
O mercado já começa a mostrar desconfiança com os papéis da CVC: em janeiro, as ações da companhia amargaram perdas de 16,67%, tendo o segundo pior desempenho de todo o Ibovespa — apenas Cia Hering ON (HGTX3) ficou atrás (-27,09%).

Corta ou não corta?
Mas nem só de exterior e coronavírus vive a bolsa brasileira. Por aqui, teremos um importante evento nesta semana: a reunião do Copom que irá decidir o futuro da taxa Selic — o parecer sairá na quarta-feira (5).
Há duas opções sobre a mesa: a primeira, defendida pela maior parte do mercado, é a de corte de 0,25 ponto na taxa básica de juros, levando-a ao nível de 4,25% ao ano. A segunda, que conta com apostas bem menos volumosas, é a de manutenção da Selic em 4,5% ao ano.
Decisões de juros sempre mexem com a bolsa não por causa de algum impacto imediato para as empresas, mas, sim, por suas implicações futuras. Um corte de 0,25 ponto na Selic, afinal, não mexe com o endividamento de uma empresa ou estimula o consumo do dia para a noite.
Mas, com os juros mais baixos, esses efeitos serão sentidos em algum momento no futuro — e essa é a lógica por trás do pensamento dos investidores. Uma redução nos juros irá, em algum momento, estimular a economia e, assim, é melhor estar posicionado desde já nas ações de uma empresa que poderá se beneficiar de maneira mais nítida.
E quais seriam essas empresas? Em geral, há dois setores da bolsa que costumam reagir de maneira mais intensa aos cortes de juros: as varejistas e as construtoras.
Ambos são segmentos que dependem diretamente do consumo e do aquecimento da atividade econômica. Assim, fique atento ao comunicado do Copom na quarta-feira à noite: o corte — ou não — da Selic e as indicações para o futuro podem mexer com essas ações.
No Ibovespa, é possível citar, entre as varejistas: Magazine Luiza ON (MGLU3), Via Varejo ON (VVAR3), B2W ON (BTOW3), Lojas Americanas PN (LAME4), Lojas Renner ON (LREN3) e Cia Hering ON (HGTX3).
No setor de construção, MRV ON (MRVE3) e Cyrela ON (CYRE3) são as representantes; também é possível esperar alguma reação das operadoras de shoppings, como Iguatemi ON (IGTA3) e Multiplan ON (MULT3).
Ô balancê, balancê
E, falando em Lojas Renner, a varejista de moda divulga nesta quinta-feira (6) seu balanço referente aos três últimos meses de 2019. E os números vêm carregados de expectativa, já que, no trimestre anterior, a empresa decepcionou o mercado — algo que raramente ocorre.
A Lojas Renner reportou um lucro líquido de R$ 189,3 milhões entre julho e setembro do ano passado, uma baixa de 2,6% na base anual. Os investidores, agora, estarão de olho no desempenho operacional da companhia e na geração de receita, já que o último trimestre costuma ser sazonalmente mais forte.
Quem também reporta seus números trimestrais é o Bradesco, na quarta-feira (5) — é o segundo grande banco a divulgar o balanço na atual temporada, já que, na semana passada, o Santander Brasil divulgou lucro líquido gerencial de R$ 3,76 bilhões (+9,4% em um ano).
A comparação realmente importante, no entanto, é a do nível de rentabilidade dos bancos. No terceiro trimestre, o Bradesco reportou rentabilidade de 20,2%, contra 21,1% do rival. Nos três últimos meses do ano, o Santander melhorou, chegando a 21,3% — resta ver como será a evolução do Bradesco nesse indicador.
Entre as empresas que compõem o Ibovespa, a Klabin também reportará seu balanço nesta semana, na quinta-feira.
Agenda cheia
Acha que é muita coisa numa semana só? Pois saiba que a agenda de dados econômicos está carregada nos próximos dias, tanto no Brasil quanto no exterior. Veja abaixo uma lista dos principais eventos:
- Terça-feira (4): Produção industrial do Brasil em dezembro
- Sexta-feira (7): IPCA do Brasil em janeiro
- Sexta-feira (7): Dados do mercado de trabalho dos EUA em janeiro
Todos esses dados podem mexer diretamente com os mercados, ao fornecerem informações importantes quanto ao estado da economia brasileira e americana. Assim, eventuais surpresas com os indicadores têm a capacidade de impulsionar ou frear o mercado de ações.
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