A “febre do ouro” está de volta
Investidores despertam para o ouro no mundo inteiro. Você já pensou em atracar parte dos seus investimentos nesse porto seguro, ainda que apenas para diversificar seu portfólio?

Há três semanas, presenciamos uma guerra no mar e a ira não vem das baleias. No início do mês, a Marinha Real Britânica ordenou a captura, na costa de Gibraltar, de um navio iraniano que transportava petróleo para a Síria. Na última sexta-feira, a Guarda Revolucionária Iraniana tomou um navio britânico no Estreito de Ormuz — rota por onde transitam mais de um terço de todo o petróleo transportado por mar.
Por trás dessas duas investidas estão interesses nucleares e duras sanções econômicas dos EUA ao Irã, proibindo as exportações de petróleo daquele país em todo o mundo. Há um mês, um avião norte-americano de reconhecimento não tripulado foi derrubado por mísseis iranianos. O presidente Donald Trump confirmou e ordenou um ataque de retaliação à terra dos aiatolás, mas mudou de ideia e abortou a operação 10 minutos antes do bombardeio.
Cenas como essas carregam embriões de confrontos armados e causam grande impacto nos preços dos ativos globais. Somado a isso, atualmente temos taxas de juro embicando para zero ou em terreno negativo, moedas desvalorizadas, bancos centrais desorientados e a perspectiva de uma nova rodada de desaceleração econômica global turbinando a procura por ouro — um ativo com valor intrínseco, oferta restrita e despojado de bandeira ou ideologia.
Investidores despertam para o ouro no mundo inteiro. Você já pensou em atracar parte dos seus investimentos nesse porto seguro, ainda que apenas para diversificar seu portfólio? A Carteira Empiricus acabou de realizar um ajuste. A participação do ouro mais que dobrou — subiu a 5 por cento — e não por acaso. Há uma necessidade maior de proteção via o metal e o cenário que descrevi explica a valorização de 6,79 por cento do book de ouro em junho. Esse ganho superou todos os outros books da Carteira.
Brasil no ciclo global de corte de juro
No acumulado do ano (até julho), o book de ouro valoriza 11,42 por cento, perdendo apenas para o book de ações (42,36 por cento) e para o book de renda fixa (13,36 por cento). A posição alcançada pelo ouro ilustra bem o objetivo primordial da presença do metal no portfólio, que é proteger a Carteira Empiricus no seu todo. Lucrar com sua valorização pode ser consequência, explicam João Piccioni e Fernando Ferrer que, ao lado do CEO e estrategista-chefe da Empiricus, Felipe Miranda, são os editores do Carteira.
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Os riscos globais que despertam o apetite dos investidores por ouro mundo afora parecem distantes de nós, não é mesmo? Mas é apenas impressão. O João conta que o Brasil, hoje, faz parte de um ciclo global de queda de taxas de juros. Ao contrário do que ocorria no passado longínquo, hoje o real faz parte da cesta de moedas globais.
A combinação de farta emissão de dinheiro — portanto ampla liquidez nos mercados globais — e taxa de juro em queda empurram os investidores para ativos considerados “reserva de valor”, como o ouro. Nessa mesma leva acabam entrando outros metais e as ações das mineradoras. Afinal, são elas que, em princípio, controlam a oferta e a demanda, acrescenta Fernando.
O ouro já provocou muito barulho no Brasil: foi por muito tempo um substituto para o dólar e só podia ser comprado e vendido no mercado paralelo.
Nas décadas de 1980 e 1990, quando o Brasil mergulhou na hiperinflação, assisti a uma corrida do ouro. É verdade que, também no quesito inflação, o país mudou da água para o vinho. Hoje, a inflação calculada em 12 meses está em 3,3 por cento. E, até por isso, o Banco Central deverá cortar a taxa Selic na semana que vem e, quem sabe, mais uma vez até o fim do ano. Depois de julho, o Copom tem agendadas reuniões para setembro, outubro e dezembro. O calendário dos oito encontros de 2020 você pode conferir aqui.
“Saída de Emergência” na crise da dívida
No Brasil, o ouro já foi muito mais que opção de investimento. O metal foi uma “saída de emergência” para o governo quando o país deu calote nos credores da dívida externa, em 1982 e 1987. O Brasil não estava sozinho nessa. Muito pelo contrário, afundou com toda a América Latina, mas sempre esteve em destaque por ter a maior dívida da região e nenhuma estabilidade de preços.
Em 1982, a crise da dívida externa, a severa regulação das operações cambiais no país e a descoberta de Serra Pelada na extensão da Serra dos Carajás, no Sudeste do Pará, tornaram o ouro o ativo de maior liquidez durante anos na Bolsa de Mercadorias & Futuros, criada em 1986. Repórter da Gazeta Mercantil na época, fiz a cobertura do primeiro pregão de Contratos de Ouro na BM&F — hoje um segmento de negócios da B3.
A mina de Serra Pelada foi oficialmente aberta em 1980 e chegou a concentrar 100 mil garimpeiros. Um ano depois, os depósitos de ouro na superfície estavam esgotados. Iniciou-se, então, a escavação. Em 1983, Serra Pelada chegou ao ápice de produção (17 toneladas de ouro). No ano seguinte, a mina foi à exaustão. Produziu apenas 3,9 toneladas.
A Caixa Econômica Federal — a gestora do FGTS a que os trabalhadores terão acesso a partir de setembro — tornou-se compradora exclusiva do ouro de Serra Pelada e o Banco Central o guardião de reservas transportadas em caixotes de madeira. Toneladas de metal misturadas a cascalho foram entesouradas nos cofres subterrâneos da sede do banco, em Brasília, onde nem o vento entra sem permissão da alta chefia.
Lingote de “Londres” não agrada em Nova York
Na década de 1980, toneladas dessa reserva “suja” foram transportadas para a fundição da Casa da Moeda, no Distrito de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, transformadas em lingotes de ouro que desembarcaram em Nova York como pagamento aos bancos credores da dívida externa brasileira. Embora na penúria, o governo brasileiro precisou refundir os lingotes porque eles estavam formatados para negociações em Londres. Não seguiam o padrão do mercado em Nova York.
Essa história me foi contada por um dos chefes da Casa da Moeda dez anos depois do embarque do ouro, que chegou a desestabilizar por alguns dias a cotação do metal nas Bolsas internacionais. Na visita a Santa Cruz — distante uma hora da Avenida Presidente Vargas, onde fica a sede do Banco Central no Rio — vi bancos de madeira artisticamente esculpidos por “dinastias de moedeiros” que fabricam nosso dinheiro, passaportes e vale-refeição. Ali acompanhei um exército de mulheres dedicadas a um serviço exclusivo, não compartilhado com homens: a conferência da precisão das notas assim que expulsas das máquinas de impressão em grandes lotes.
Ao construir o que para mim foi uma inesquecível reportagem, aprendi que a planta da Casa da Moeda, em Santa Cruz, fora traçada calculadamente na forma de um triângulo, que comportava a produção de notas e moedas, a empresa fornecedora de papel-segredo e a fábrica de tintas especiais. A ideia era inibir ou evitar qualquer iniciativa de interromper a provisão de papel-moeda para o Departamento do Meio Circulante do Banco Central, que também fica no Rio de Janeiro.
O Brasil passou por radicais mudanças políticas e econômicas nos últimos 40 anos. Hoje, o real está solidificado entre as moedas globais, é possível comprar dólar no sistema bancário e você também pode comprar ouro físico se quiser proteger ou diversificar sua carteira. Importante lembrar que o ouro físico traz uma despesa adicional para o seu armazenamento em uma instituição custodiante. Os fundos multimercados dedicados ao ouro são interessantes alternativas de investimento. A Carteira Empiricus sugere a exposição ao ouro via fundos multimercados. Ou ainda por meio de ETFs (que podem ser adquiridos via corretoras internacionais). Quer saber como investir em ouro na prática? Baixe nosso eBook gratuito agora e descubra a melhor forma de ganhar dinheiro com essa aplicação.
Ontem, o João e o Fernando realizaram uma transmissão ao vivo para os assinantes do Carteira, na qual expuseram a tese do maior gestor de hedge funds do mundo, Ray Dalio, que acredita que haverá uma mudança de paradigmas no mercado e que o ouro voltará a ficar em evidência. Além disso, os editores do Carteira Empiricus explicaram quais são os principais veículos para se expor ao ativo e suas características.
Nesta quinta-feira não faltam informações que podem mexer com os mercados. A atenção dos investidores globais estará voltada para a decisão do Banco Central Europeu (BCE), que manteve juros inalterados (-0,40 por cento para depósito e zero por cento para operações de refinanciamento), informou que os juros ficarão “nos níveis presentes ou mais baixos” até ao menos meados de 2020 e ainda sinalizou novas recompras de ativos em mercado.
Ainda lá fora, gigantes como Amazon, Alphabet e Intel divulgam balanços trimestrais.
Por aqui, o foco estará no balanço do mercado de trabalho, em junho, a ser apresentado pelo Caged, no relatório da dívida pública publicado pelo Tesouro, na repercussão das regras para a liberação do FGTS anunciadas ontem e nos resultados trimestrais das empresas “blue chips” — entre elas, Bradesco e Ambev.
A Bolsa inicia sua jornada em alta de 0,5 por cento. O dólar cai a 3,75 reais. Os juros, por ora, operam entre estabilidade e leves baixas.
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