Na dúvida, incline-se contra o vento
A economia se move em ciclos. O perfil do gestor – mais otimista ou cético – e do próprio fundo – mais alocado em ações de alta ou baixa liquidez, tendem a influenciar seu desempenho...
Por algum motivo oculto, muitos investidores apostam que o começo de um novo calendário apostólico romano é a deixa para fazer a limpeza do portfólio: vender o que foi mal e comprar o que foi bem nos últimos 12 meses.
Minha caixa de e-mails reflete a prática. Ela se divide entre:
1. Mensagens apaixonadas de quem aceitou a sugestão de acrescentar ao portfólio um long biased – um fundo de ações que também ganha dinheiro quando a Bolsa está em queda – e teve retornos muito superiores ao Ibovespa no ano passado.
2. Mensagens indignadas de quem apostou em um dos meus multimercados favoritos e viu seu desempenho ficar para trás do CDI em 2018 – onde já se viu?
Posso adivinhar o fluxo de olhos fechados: se você acaba de abrir uma hamburgueria e não faz ideia de como chamá-la, vá de “Long Biased”. Vai atrair dinheiro como um imã.
Multimercados estão fora de moda – os mesmos que receberam os clientes há um ano, atrasados para os ganhos excepcionais de 2017 – e, na certa, vão sofrer resgates.
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“No mundo dos investimentos, a falha planta as sementes do sucesso futuro”, profetiza David Swensen, o mais reconhecido alocador de fundos do mundo, responsável pelo bolsão de dinheiro da Universidade Yale, nos EUA.
Ele continua: “Na falta de razões fundamentais para trocar os gestores da alocação, retornos positivos podem ser esperados de seguir a estratégia de sacar dinheiro dos gestores que oferecem desempenho recente forte e alocar dinheiro naqueles com resultados fracos. Na dúvida, incline-se contra o vento”.
Evitar o amado e abraçar o mal-amado, como diz Swensen. Não, não é superstição. A economia se move em ciclos. O perfil do gestor – mais otimista ou cético – e do próprio fundo – mais alocado em ações de alta ou baixa liquidez, mais afeito ao mercado de juros ou câmbio, por exemplo – tendem a influenciar seu desempenho.
E o que você, investidor, costuma fazer ao se deixar influenciar somente por retornos recentes? Sair do fundo assim que se encerra uma fase ruim do ciclo para ele e começa o período em que ele vai desempenhar bem e entrar em outro ao fim de sua fase áurea, quando começa um período não tão positivo para ele?
Ano difícil
Faça isso repetidamente, some o fato de o imposto sobre fundos no Brasil punir resgates em menos de dois anos, e aí está a fórmula para o fracasso do seu portfólio.
Foi um ano difícil para os multimercados de forma geral, mas alguns dos melhores resultados de 2018 são de gestores que não tinham desempenhado tão em bem em 2017, caso da Verde e da Gávea, por exemplo.
E eu confesso que tenho ficado um pouco irritada diante de quem me pergunta se deveria resgatar do Nimitz, dado o retorno de 57 por cento do CDI no ano passado. Ninguém mais se lembra dos 166 por cento do CDI de 2017? Isso pra não citar todo o histórico acumulado desde 2010 pela SPX.
Há exatamente um ano, eu defendi aqui o fundo Verde, dizendo que Stuhlberger sempre será Stuhlberger, em uma fase bastante difícil do fundo. Lá eu escrevi assim: “Em janeiro de 2019, voltamos a conversar sobre o assunto”.
Aqui estamos. Desde então, o Verde sofreu saques de investidores de alto patrimônio e, em setembro, abriu as portas no varejo, criando filas de demanda. Quem entrou não pode reclamar. De setembro até hoje, o ganho é de 262 por cento do CDI.
Digo o mesmo para você hoje: “Em janeiro de 2020, voltamos a conversar sobre a SPX”.
Quer saber? Amo gestor desafiado – muito mais do que os que estão confortavelmente deitados sobre o retorno recente positivo. É deles (sempre!) o meu próximo investimento.
Cota murcha
Eu me lembro como se fosse hoje da audiência pública da mais recente Instrução de fundos, a 555. E de como os gestores reclamavam para a CVM do excesso de regras que recaíam sobre eles.
Àquela época, enquanto a poupança captava a rodo com sua praticidade e as LCIs e LCAs levavam o investidor por meio do argumento da isenção, os fundos ficavam para trás com seus impostos esquisitos (que tal o come-cotas?) e a necessidade de obrigar o investidor a preencher um longo questionário antes de fazer seu investimento (com o popular nome “suitability”).
Uma das principais respostas da CVM foi a criação do fundo Simples, concentrado em títulos pós-fixados de baixo risco e, por isso, liberado da obrigatoriedade de suitability e de envio de material impresso ao cotista. Seria a porta de entrada do investidor no mundo dos fundos. Lindo!
Só que a CVM não impôs nenhuma restrição ao custo do produto. Eu questionei na época e ouvi que seria uma interferência no livre mercado.
Aqui estou eu alguns anos depois observando o retorno médio do fundo Simples em 2018: 5,39 por cento. Se o saque for feito em menos de seis meses, o investidor ganha menos do que na poupança.
O desempenho é pior do que o do tipo “renda fixa – duração baixa – grau de investimento”, que concentra a maior parte dos fundos DI, com ganho médio de 6,25 por cento. Ou seja, claramente os tais fundos Simples, apesar da gestão, comunicação e distribuição simplificada, são mais caros do que os fundos Complexos.
Os bancos montaram o tal do Simples, fácil de acessar, até definiram mínimos baixos para soar populares. Só que cobraram preços altos por ele.
E a indústria, mais uma vez, mostrou que não merece um voto de confiança.
Cota cheia
Pra quem procura, tem. Nas corretoras online – BTG, Órama e XP – onde a concorrência é mais acirrada e o investidor é mais bem informado, os fundos Simples são mais baratos. Você encontra produtos com taxa menor do que 0,2 por cento ao ano.
Aí sim, para qualquer prazo, mais rentáveis do que a poupança.
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