Ilan diz que expectativa muito alta com novo governo é risco para o país
O desafio da gestão é de poder colocar em prática as medidas anunciadas e satisfazer o eleitorado, disse o presidente do Banco Central, em entrevista ao jornal suíço "Le Temps"

O alerta já vem sendo feito por analistas estrangeiros do mercado financeiro e por alguns setores da sociedade doméstica, mas o aviso de que há um excesso de otimismo com o Brasil surgiu agora de um membro do próprio governo. O presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, que deixará o cargo em março, avaliou ao jornal suíço "Le Temps" que as expectativas no País estão muito altas.
“O desafio é de poder colocar em prática as medidas anunciadas e satisfazer o eleitorado”, disse ele à publicação com sede em Genebra, citando este clima como um dos riscos para o Brasil.
Na terça-feira, o banqueiro central brasileiro fará uma apresentação no The Graduate Institute Geneve. No dia seguinte, também será palestrante em Milão, na Bocconi University, numa viagem pela Europa que começará neste fim de semana com as reuniões bimestrais de presidentes de bancos centrais, em Basileia, também na Suíça.
“O mais importante é colocar em prática uma política monetária confiável, sabendo que o ambiente fiscal continua frágil. E esse sucesso depende da determinação de percorrer todo o caminho da reforma”, adiantou ao Le Temps sobre o teor de suas falas durante a semana que vem.
Na entrevista, Goldfajn explica que deixará o Banco Central por motivos pessoais, depois de dois anos e sete meses à frente da instituição, e que trabalhará “em outros setores”. Reafirmou também o compromisso de permanecer no cargo até que o Senado confirme a nomeação do sucessor Roberto Campos Neto, que trabalhava no Brasil para o banco espanhol Santander.
Inflação sob controle
Para ele, o atual presidente disse que muito trabalho foi feito para limpar a economia, mas que assim deve continuar. “O mercado deve ver a continuidade na política monetária e nas reformas estruturais”, recomendou.
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O presidente do BC considerou que a inflação está sob controle e que seguirá assim nos próximos anos. A taxa de juros também está em um nível baixo, o que, segundo ele, também é um bom estímulo para a atividade. Ainda sobre economia, Goldfajn recordou que o País entrou em recessão em 2015 e previu que 2019 será o segundo ano de recuperação do Produto Interno Bruto (PIB).
O crescimento - 1,3% - foi fraco em 2018. Para este ano, esperamos uma taxa de 2,5%”, relatou. Questionado, então, sobre a necessidade de um “tratamento de choque” pedido para a economia doméstica pelo presidente Jair Bolsonaro, ele argumentou que a ideia é buscar reformas e aumentar a flexibilidade da economia.
“Se o novo governo colocar as contas em ordem, a economia se tornará mais produtiva”, considerou ele, acrescentando que os mercados gostam de liberalização da economia, privatização, redução dos gastos públicos e, sobretudo, de visibilidade e confiança.
Ano difícil
Goldfajn avaliou que 2018 foi um ano difícil para os emergentes. Primeiro, houve um excesso de capital nos países ricos, o que causou um fluxo para os países emergentes, que alimentou a inflação. Depois, o aperto monetário causou o movimento oposto.
“Vários países como a Argentina ou a Turquia viram uma desaceleração do crescimento. Outros países como a Índia, o Brasil e a Indonésia tiveram que se proteger. O Brasil havia feito reformas, o que ajudou a mantê-lo em curso para o crescimento”, lembrou.
Durante os períodos de maior tensão econômica, principalmente no câmbio, o BC brasileiro ofereceu aos agentes de mercado contratos de swap cambial para que se protegessem das variações do real em relação ao dólar.
Sobre os “medos” levantados pelo governo de Bolsonaro, o presidente da autoridade monetária argumentou que o mais importante é colocar em prática uma política monetária confiável, sabendo que o ambiente fiscal continua frágil.
“E esse sucesso depende da determinação de percorrer todo o caminho das reformas.”
Autonomia assegurada
Na avaliação do número 1 do BC, a autonomia da instituição está assegurada e ela é uma condição para a estabilidade do sistema monetário. “O Ministério da Fazenda pode ter prioridades próprias que não são as do Banco Central. Mas neste momento, vejo apenas sinais positivos para os investidores.”
Em relação a este tema, o periódico ressaltou que a independência de alguns bancos centrais no mundo - em especial nos Estados Unidos, em função das críticas feitas pelo presidente Donald Trump ao trabalho do Federal Reserve (Fed, o BC americano).
Goldfajn enfatizou, no entanto, que as autoridades monetárias são o último recurso no caso de uma crise financeira e econômica e que têm as ferramentas para agir.
“Questionar sua independência é colocar em jogo sua credibilidade. Os mercados também precisam saber que os bancos centrais podem agir de forma independente quando uma situação o exige”, observou.
Na entrevista, Goldfajn disse ainda ter “certeza” de que as medidas adotadas pelo governo argentino em colaboração com o Fundo Monetário Internacional (FMI) produzirão frutos em 2019. No caso de outro vizinho, avaliou que cabe aos venezuelanos encontrar uma solução para o problema do país.
“No que nos diz respeito à economia deles, é muito fraca para ter um efeito contagioso na América do Sul.”
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