Noticiário político estressa os mercados e derruba o Ibovespa aos 95 mil pontos; dólar sobe
O dia já estava negativo para os ativos locais, com as movimentações em Brasília trazendo cautela às negociações. O noticiário, contudo, trouxe ainda mais nervosismo ao Ibovespa e ao dólar na reta final do pregão

Os mercados financeiros do Brasil tiveram uma quarta-feira (5) bastante turbulenta. Uma mistura de noticiário político intenso e instabilidade nos ativos globais já havia desencadeado uma onda de aversão ao risco por aqui, colocando o Ibovespa no campo negativo e fazendo o dólar à vista operar em alta.
Esse movimento, contudo, ganhou ainda mais força na última hora de sessão, quando os mercados começaram a repercutir uma notícia a respeito de possíveis alterações no teto de gastos do governo. E, com esse novo elemento em mãos, os agentes financeiros ficaram ainda mais defensivos.
Em meio às dúvidas, o Ibovespa fechou em queda de 1,42%, aos 95.998,75 pontos — logo após a abertura, o índice chegou a subir 0,31%, tocando os 97.686,14 pontos. O dólar à vista também sentiu o golpe e terminou o dia em alta de 0,99%, a R$ 3,8949, distante dos R$ 3,8389 registrados na mínima (-0,46%).
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O que está acontecendo?
Pouco depois das 16h, os mercados brasileiros começaram a piorar de maneira acentuada. O Ibovespa, que já estava em queda de cerca de 1%, perdeu ainda mais força e chegou à mínima do dia, aos 95.685,84 pontos (-1,74%). O dólar e os juros tiveram comportamentos semelhantes, indo às máximas.
Sem entender o que estava acontecendo, telefonei para um operador de uma grande corretora:
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— O que está acontecendo?
— É essa história da flexibilização do teto de gastos...
Ele se referia a uma matéria publicada pouco antes pela Bloomberg: de acordo com a agência, membros o governo Bolsonaro estariam discutindo medidas para flexibilizar a regra do teto de gastos públicos, de modo a ganhar um "respiro fiscal". As mudanças seriam implementadas após a aprovação da reforma da Previdência.
A notícia não foi bem recebida pelos mercados, uma vez que mexe diretamente com a confiança depositada pelo mercado na equipe do ministro Paulo Guedes para conduzir a economia brasileira. O dólar à vista, por exemplo, chegou a avançar 1,21%, tocando os R$ 3,9034 na máxima.
O ministério da Economia, contudo, foi rápido para desmentir as informações. Em nota, a pasta diz que não encaminhará qualquer mudança na lei do teto de gastos e reitera "a importância do controle dos gastos públicos para que o país volte a ter equilíbrio nas contas públicas".
Em meio a esse impasse, o Ibovespa e o dólar ainda encontraram tempo para suavizar parte das perdas. Os juros, contudo, não conseguiram reduzir o estresse e fecharam nas máximas — os DIs fecham por volta de 16h30.
Na ponta curta da curva de juros, os DIs com vencimento em janeiro de 2020 fecharam em alta de 6,23% para 6,28%, e os para janeiro de 2021 avançaram de 6,38% para 6,48%. Na ponta longa, as curvas para janeiro de 2023 subiram de 7,30% para 7,44%, e as para janeiro de 2025 foram de 7,84% para 8,01%.
Suspense em Brasília
Mas, antes da tensão envolvendo o teto de gastos, o dia já era negativo para os ativos locais — e o noticiário político era diretamente responsável por dar esse tom de cautela às negociações. Diversos focos de estresse colocaram os mercados em alerta, sempre tendo em vista os potenciais impactos para a tramitação da reforma da Previdência.
O principal deles foi a suspensão da reunião da Comissão Mista de Orçamento (CMO), que votaria hoje a concessão de um crédito extra de R$ 248,9 bilhões solicitado pelo governo ao Congresso — a medida tem como objetivo viabilizar o cumprimento da chamada "regra de ouro" das finanças públicas.
Mas as discussões da comissão não avançaram, com desentendimentos entre deputados da base aliada e da oposição. O tema, agora, voltará a ser discutido apenas na semana que vem — o prazo limite para a aprovação é 15 de junho.
Esse entrave nas discussões na CMO trouxe insegurança aos mercados, que temem que esse cenário de dificuldades possa ser replicado ao longo da tramitação da reforma da Previdência. E, em meio às incertezas, um movimento de realização de lucros atingiu especialmente o Ibovespa.
"Essa é uma questão complicada e de negociação bastante delicada, e isso deixa o mercado receoso", diz Álvaro Frasson, analista da Necton. "Nada é um fato isolado na atual conjuntura política, uma coisa acaba puxando a outra".
Um operador ainda citou uma notícia publicada pelo Broadcast como fonte de estresse: de acordo com a agência, o parecer do relator da reforma na comissão especial da Câmara, deputado Samuel Moreira, tende a ser apresentado apenas na semana que vem — havia a expectativa de que o texto poderia ser finalizado até essa sexta-feira.
Por fim, os agentes financeiros passaram o dia atentos Supremo Tribunal Federal (STF), que retomou o julgamento que decidirá se o governo precisa de aval do Congresso para se desfazer de suas estatais. Também está na pauta a decisão do ministro Edson Fachin, que suspendeu a venda de 90% da TAG pela Petrobras, por US$ 8,6 bilhões.
Assim, na dúvida quanto ao que pode acontecer no front político, o mercado preferiu reduzir sua exposição ao risco — e, no exterior, o clima também não foi dos mais favoráveis.
Dúvidas
Lá fora, o índice de gerente de compras (PMI) dos Estados Unidos — um termômetro da atividade da indústria e do setor de serviços — caiu a 50,9 em maio, ante 53 em abril. O dado reforçou a percepção de que a economia americana pode estar perdendo força, sentindo os primeiros efeitos da guerra comercial.
Também contribuiu para trazer pressão aos mercados acionários globais a alta nos estoques de petróleo dos Estados Unidos. As reservas da commodity subiram em 6,771 milhões de barris na semana até o dia 31 de maio — e essa elevação derrubou os preços do Brent (-2,16%) e do WTI (-3,37%).
As bolsas de Nova York, que abriram a quarta-feira com avanços firmes, mergulharam ao campo negativo logo após a divulgação do PMI. Mas, aos poucos, foram recuperando o ânimo e terminaram o dia em alta: o Dow Jones subiu 0,82%, o S&P 500 teve ganho de 0,82% e o Nasdaq avançou 0,64%.
"A gente perdeu força junto com o exterior. Os mercados lá fora conseguiram voltar, mas, por aqui, o Ibovespa não reagiu", diz Ari Santos, gerente da mesa de operações da H. Commcor, destacando que a cautela em relação ao noticiário de Brasília acabou gerando certa reticência entre os agentes financeiros locais.
Esse movimento de recuperação das bolsas americanas se deve à confiança do mercado de que o Federal Reserve — o Banco Central dos Estados Unidos —irá promover um novo corte de juros no país, em meio à percepção de que a economia americana começa a patinar.
Ontem, o presidente do Fed, Jerome Powell, deixou a porta aberta e sinalizou que a instituição terá de agir "de maneira apropriada" para sustentar a expansão econômica. E, com os dados apontando para algum enfraquecimento da dinâmica da economia americana, os mercados apostam que um ajuste de política monetária é a ferramenta certa a ser adotada no momento.
Essa crença também mexeu com o mercado global de câmbio: o dólar ganhou força ante as demais divisas do mundo, tanto as fortes quanto as de países emergentes — o que também afetou o desempenho do real nesta quarta-feira.
Voo tranquilo
Com o novo dia de queda do petróleo e o dólar abaixo dos R$ 3,90, as ações de companhias aéreas apareceram entre as principais altas do Ibovespa nesta quarta-feira. Os papéis PN da Azul (AZUL4), por exemplo, subiram 1,55%, enquanto os ativos PN da Gol (GOLL4) avançaram 0,57%.
O preço do petróleo e a cotação do dólar interferem diretamente na linha de custos das companhias aéreas, já que o valor a ser pago pelo combustível de aviação depende diretamente dessas duas variáveis.
Estatais aguardam
De olho na definição do STF, o mercado assume uma postura cautelosa em relação às ações das empresas estatais. Os papéis PN da Petrobras (PETR4) caíram 1,30%, enquanto os ONs (PETR3) recuaram 1,41% — as perdas do petróleo também influenciaram o comportamento dos ativos da companhia.
Ainda entre as estatais, Banco do Brasil ON (BBAS3) caíram 2,76% e tiveram o pior desempenho entre as ações de bancos do Ibovespa. Os ativos da Eletrobras seguiram a mesma linha: os ON (ELET3) recuaram 1,25%, e os PNB (ELET6) tiveram perda de 1,24%.
Preocupação com a China
O FMI cortou levemente suas projeções de crescimento para a economia da China: agora, a instituição prevê que o PIB do gigante asiático crescerá 6,2% neste ano e 6% em 2020 — antes, as estimativas eram de avanço de 6,3% em 2019 e de 6,1% no ano que vem.
A notícia traz mais uma camada de preocupação quanto aos efeitos que a guerra comercial poderá trazer ao gigante asiático. E, nesse contexto, ações de empresas mais expostas ao mercado chinês — caso das mineradoras e das siderúrgicas — operam em queda nesta quarta-feira.
Vale ON (VALE3), por exemplo, caiu 1,47%. O tom é igualmente negativo entre os ativos do setor de siderurgia: os papéis ON da CSN (CSNA3) recuaram 3,63%, as ações PN da Gerdau (GGBR4) tiveram perda de 1,08% e os ativos PNA da Usiminas (USIM5) fecharam em baixa de 0,24%.
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