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Victor Aguiar

Victor Aguiar

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e com MBA em Informações Econômico-Financeiras e Mercado de Capitais pelo Instituto Educacional BM&FBovespa. Trabalhou nas principais redações de economia do país, como Bloomberg, Agência Estado/Broadcast e Valor Econômico. Em 2020, foi eleito pela Jornalistas & Cia como um dos 10 profissionais de imprensa mais admirados no segmento de economia, negócios e finanças.

Guerra comercial volta ao radar

O Ibovespa estava correndo, mas escorregou numa casca de banana atirada por Trump

O Ibovespa chegou a subir mais de 2% no melhor momento do dia, impulsionado pelo corte de 0,5 ponto na Selic. Mas o índice devolveu quase todos os ganhos quando Donald Trump anunciou novas tarifas de importação aos produtos chineses

Victor Aguiar
Victor Aguiar
1 de agosto de 2019
10:41 - atualizado às 9:44
Casca de banana
Ibovespa chegou a tocar os 104 mil pontos, mas levou um tomboImagem: Shutterstock

O Ibovespa e as bolsas americanas começaram a quinta-feira (1) cheios de energia e com vontade de correr. Os índices acionários passaram os últimos dias de molho, sem se exercitar muito, aguardando que a neblina que tomava conta do ambiente se dissipasse. E, neste início de mês, o clima estava bem melhor.

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Vendo que os céus estavam limpos e a temperatura estava agradável, as bolsas vestiram seus tênis de corrida e foram para a rua. O Ibovespa já começou em alta velocidade, enquanto os índices dos EUA iniciaram a sessão num ritmo mais leve, acelerando aos poucos.

Mas, apesar das diferenças, estava claro que o dia estava propício para ganhar quilometragem. E tudo ia conforme os planos até o meio da tarde, quando um observador atirou uma casca de banana na pista de corrida — e os mercados acionários escorregaram.

Não foi um simples desequilíbrio: foi um tombo daqueles. O Ibovespa, que subiu 2,20% na máxima, aos 104.055,69 pontos, fechou com ganhos de apenas 0,31%, aos 102.125,94 pontos; nos EUA, o Dow Jones (-1,17%), o S&P 500 (-0,90%) e o Nasdaq (-0,79%) tiveram quedas firmes — os três índices chegaram a avançar mais de 1% durante a manhã.

E quem foi o culpado por causar esse acidente? Bom, estamos falando do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump: por volta de 14h30, ele foi ao Twitter para falar sobre as recentes negociações comerciais com a China — e soltou uma informação que pegou os mercados de surpresa.

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O republicano disse que irá impor, a partir de 1º de setembro, tarifas de 10% sobre US$ 300 bilhões em produtos importados do país asiático — esse montante não inclui os US$ 250 bilhões que já foram sobretaxados e 25% pelas autoridades americanas.

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Com isso, foram reacendidos os temores dos agentes financeiros em relação à possibilidade de uma guerra comercial mais ampla entre Washington e Pequim — e essa apreensão foi traduzida num forte movimento de aversão ao risco que atingiu em cheio os ativos globais.

"O Trump já vinha sinalizando há alguns dias que estava perdendo a paciência com os chineses", diz um economista, afirmando que, com a medida, o Federal Reserve (Fed) poderá se ver forçado a promover mais cortes de juros nos Estados Unidos — ontem, a autoridade reduziu em 0,25 ponto a taxa do país, mas deu a entender que o movimento não significava que um ciclo de cortes seria iniciado.

Mas, enquanto a reação de Pequim ao anúncio não é conhecida, os agentes financeiros buscaram proteção, desfazendo-se de ativos mais arriscados — caso das ações, commodities ou de moedas de países emergentes.

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No mercado de commodities, o petróleo WTI teve forte baixa de 7,90%, enquanto o Brent recuou 6,40%. Nesse cenário, as ações da Petrobras acabaram sendo negativamente impactadas: os ativos PN da estatal (PETR4) caíram 1,84%, e os ONs (PETR3) tiveram queda de 1,53%.

Dólar pressionado

O dólar à vista também foi fortemente afetado por esse movimento: a moeda americana vinha oscilando perto da estabilidade, mas, a partir do anúncio de Trump, firmou-se no campo positivo. Ao fim do dia, o dólar teve alta de 0,71%, a R$ 3,8472, o maior nível de fechamento desde 2 de julho.

No exterior, houve um movimento generalizado de fortalecimento do dólar em relação às divisas emergentes e de países exportadores de commodities, caso do peso mexicano, rublo russo, peso colombiano, rand sul-africano, peso chileno e dólar neozelandês. O real, assim, foi contaminado por esse movimento.

BC x Fed

Antes do turbilhão causado por Trump, o Ibovespa operava em alta firme, influenciado pela diferença na postura dos bancos centrais do Brasil e dos Estados Unidos.

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Ontem, o Fed cumpriu o script traçado pelos mercados pela metade: a autoridade monetária dos EUA baixou os juros do país em 0,25 ponto, conforme esperado pelos agentes financeiros, mas deu a entender que o movimento não implica no início de um ciclo de cortes mais prolongado, o que jogou um balde de água fria nas expectativas.

Esse movimento provocou uma reação imediata nos ativos globais já na sessão passada: por aqui, o Ibovespa caiu aos 101 mil pontos e o dólar avançou ao nível de R$ 3,80. Só que, mais tarde — com os mercados já fechados — foi a vez de o Copom divulgar sua decisão de política monetária: e, ao contrário do Fed, surpreendeu pela firmeza.

O BC reduziu a Selic em 0,5 ponto, para 6% ao ano — parte dos agentes financeiros apostava num movimento menos intenso, de 0,25 ponto —, e deixou a porta aberta para promover mais ajustes negativos nas próximas reuniões. E, com os juros mais baixos, o Ibovespa tem caminho aberto para ganhar terreno.

Juros mais baixos diminuem a rentabilidade dos investimentos em renda fixa e, consequentemente, reduzem sua atratividade. Com isso, os mercados acabam recorrendo a alternativas mais arriscadas para obterem retornos maiores — caso das ações e da renda variável.

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"O mercado está reagindo de maneira natural [à postura do BC], há um movimento de maior tomada de risco", diz Luis Gustavo Pereira, estrategista da Guide Investimentos. Ele destaca que, num cenário de juros mais baixos, as ações dos setores de construção e varejo tendem a se beneficiar com maior intensidade.

E, ao menos nesta quinta-feira, esse comportamento pode ser notado no Ibovespa, com os papéis desses dois segmentos apresentando desempenhos positivos. Entre as varejistas, destaque para Magazine Luiza ON (MGLU3) e Via Varejo ON (VVAR 3), com ganhos de 4,85% e 6,22%, respectivamente.

Mas os outros ativos de empresas desse setor também tiveram altas firmes: foi o caso de Lojas Americanas PN (LAME4) e Lojas Renner ON (LREN3), com valorizações de 3,91% e 2,87%, nesta ordem. Entre as construtoras, Cyrela ON (CYRE3) subiu 4,55% e MRV ON (MRVE3) avançou 3,30%.

Mais balanços

Ainda no Ibovespa, um terceiro fator que influencia o comportamento do índice é a temporada de balanços corporativos no Brasil, uma vez que a Vale, a BR Distribuidora e a Gol reportaram seus números trimestrais recentemente.

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Nesse grupo, destaque para a Vale, que teve prejuízo líquido de US$ 133 milhões entre abril e junho deste ano, revertendo o lucro de US$ 76 milhões contabilizado no mesmo período do ano passado. A mineradora continua sendo afetada pelo rompimento da barragem em Brumadinho (MG) e precisou fazer um provisionamento extra de US$ 1,37 bilhão no trimestre. Como resultado, as ações ON da empresa (VALE3) caíram 2,83%.

Já Gol PN (GOLL4) fechou em alta de 6,68% após reportar uma redução de 93,6% no prejuízo líquido na mesma base de comparação, para R$ 120,8 milhões. Para o BTG Pactual, os números da companhia aérea ficaram acima do esperado, especialmente a receita líquida, de R$ 3,14 bilhões. Com isso, a instituição elevou o preço-alvo para as ações, de R$ 35 para R$ 60, mantendo a recomendação de compra.

Por fim, BR Distribuidora ON (BRDT3) avançou 1,88% — a companhia teve lucro líquido e R$ 302 milhões no trimestre, alta de 14,8% na base anual.

Juros em queda

O movimento do BC também provocou um ajuste nas curvas de juros, especialmente as mais curtas. Os DIs com vencimento em janeiro de 2020, por exemplo, caíram de 5,61% para 5,50% — essas são os ativos que melhor refletem as apostas do mercado em relação ao nível da Selic ao fim do ano.

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Ainda no vértice curto, os DIs para janeiro de 2021 recuaram de 5,49% para 5,40%. Na longa, as curvas com vencimento em janeiro de 2023 ficaram estáveis em 6,35, e as para janeiro de 2025 foram de 6,90% para 6,89%.

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