A Bula da Semana: Desaceleração, recessão ou o quê?
Cresce preocupação com ritmo da economia global após dados fracos de atividade nos EUA

O risco de recessão nos Estados Unidos está, por ora, afastado, mas ainda é cedo para dizer que o cenário econômico global está definido. A grande dúvida, no momento, é se o país está vivendo uma desaceleração pontual, depois de leituras fracas dos índices ISM sobre a atividade, ou se já está em um estágio final de ciclo, após uma robusta expansão.
A resposta terá grandes implicações nos mercados. Afinal, os ativos globais não “precificam” uma recessão na maior economia do mundo. Então, se uma queda abrupta da atividade nos EUA acontecer, se irá, certamente, ferir os negócios pelo mundo. O problema é que ainda vai levar algum tempo para responder a essa questão com convicção.
Ao que tudo indica, a perda de tração da atividade por causa da guerra comercial, visível há alguns meses na Europa e na Ásia, começa a impactar os EUA. Por isso, os investidores clamam por um acordo da Casa Branca com a China, de modo a mitigar uma disseminação mais acentuada dos efeitos do conflito.
Nesta semana, acontece a décima terceira rodada de negociações em Washington e, apesar das esperanças de um desfecho favorável, o que se viu até agora foi uma piora nas relações sino-americanas. E Pequim não parece disposto em negociar vários pontos. Se não houver progresso nas tratativas, um novo aumento de tarifas dos EUA contra produtos chineses é esperado a partir do dia 15 deste mês.
Também é importante observar a evolução dos indicadores econômicos pelo mundo. Nesta semana, porém, prevalece a divulgação de dados de inflação ao consumidor, no Brasil (IPCA) e nos EUA (CPI), na quarta e quinta-feira, respectivamente. Os números tendem a calibrar as apostas em relação ao rumo dos juros, mas investidores dão como certa uma queda adicional por parte do Fed e do Copom, na mesma dose, neste mês.
Já os indicadores domésticos sobre a atividade, no comércio e no setor de serviços, na quinta e sexta-feira, devem manter o debate sobre a aceleração da economia em um ritmo mais intenso que o esperado após a virada para o segundo semestre e a necessidade de a Selic cair abaixo de 5% antes do fim do ano. A queda do dólar na semana passada, aproximando-se da faixa de R$ 4,05, adiciona ingredientes a essa discussão.
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Ainda por aqui, o mercado aguarda a conclusão da votação da reforma da Previdência no Senado, prevista para acontecer até o fim do mês. Os investidores também esperam que outras pautas relevantes para o crescimento econômico do país entrem na agenda do Congresso, como a reforma tributária, o pacto federativo e as privatizações e concessões.
Confiança nos BCs
Recessão ou não, os investidores alimentam a perspectiva de que os principais bancos centrais terão ferramentas suficientes para evitar um colapso da economia global, lançando mão de estímulos para impulsionar a atividade, em meio ao cenário benigno da inflação. Para o mercado, só uma postura suave (“dovish”) na condução da política monetária pode contrabalançar os riscos que podem se materializar no horizonte à frente.
Porém, se a economia dos EUA continuar a perder ritmo, a percepção dos investidores em relação às condições de risco pode piorar. Ou seja, diante de uma recessão global ou falta de instrumentos de política monetária para estimular a economia mundial, a aversão aos ativos mais arriscados pode ser uma importante restrição à melhora dos mercados, em especial de países emergentes.
Esses sinais de arrefecimento mais acentuado nos EUA tornam mais relevante a participação do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, em diversos eventos no início desta semana. Também merece atenção a ata da reunião de setembro do Fed, quando o colegiado reforçou justamente a importância de acompanhar o contágio da atividade internacional na economia norte-americana. O documento sai na quarta-feira.
A ver, então, o que dizem os próximos indicadores econômicos e as autoridades monetárias ao longo desta semana, o que tende a deixar os negócios oscilando ao sabor dessas divulgações, sem uma direção definida. Ainda mais porque a semana termina com um feriado no Brasil, no sábado, e a próxima já começa com um feriado nos EUA, na segunda-feira que vem. Ao menos a China volta da longa pausa nacional.
Confira a seguir os principais destaques desta semana, dia a dia:
Segunda-feira: A semana começa com as tradicionais publicações domésticas do dia: relatório de mercado Focus (8h25) e dados semanais da balança comercial (15h). No exterior, o calendário está mais fraco, mas merece atenção o discurso do presidente do Fed, Jerome Powell. O feriado na China termina hoje e, no fim do dia, sai o índice do gerente de compras (PMI) no setor de serviços do país em setembro, medido pelo Caixin.
Terça-feira: A agenda doméstica traz o resultado de setembro do IGP-DI e os dados regionais da produção industrial em agosto. Já nos EUA, é a vez do índice de preços ao produtor (PPI) no mês passado. O presidente do Fed volta a discursar hoje, em outro evento. É esperada a divulgação dos dados da balança comercial chinesa no mês passado.
Quarta-feira: O resultado da inflação oficial ao consumidor brasileiro (IPCA) no mês passado é o destaque nacional. No exterior, as atenções se dividem entre mais um discurso de Powell e a ata da última reunião do Fed. Também saem os estoques no atacado norte-americano em agosto.
Quinta-feira: O desempenho das vendas no varejo brasileiro em agosto e a estimativa para a safra agrícola neste ano recheiam a agenda doméstica do dia, que traz também a primeira prévia deste mês do IGP-M. Nos Estados Unidos, é a vez do índice de preços ao consumidor (CPI).
Sexta-feira: A semana chega ao fim com os números do setor de serviços no país em agosto. No exterior, merece atenção a leitura preliminar do índice de confiança do consumidor norte-americano, medido pela Universidade de Michigan.
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