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A Amazon chegou cedo, fez (e faz) tudo direito e tem um gênio obcecado no comando. Por isso, toda vez que te falarem sobre a “Nova Amazon” ou a “Amazon Brasileira”, seja bem crítico
No fim da tarde de 4 de julho de 1994, eu abraçava meu pai, aliviado. O risco do vexame de cair nas oitavas para o (bom) time norte-americano tinha ficado para trás – o gol de Bebeto sepultou os rumores de briga com Romário (a leitura labial não deixa dúvidas sobre o “eu te amo”, depois da assistência magistral do baixinho) e colocou a Holanda no caminho do Brasil.
Mal sabia eu que, em algumas horas, o mundo mudaria para sempre.
No dia 5 de julho, Jeff e Mackenzie Bezos fundaram a Amazon – na garagem de casa, o casal embalava e despachava livros para todos os EUA. De lá para cá, uma pequena evolução além de livros, hoje a Amazon vende, bem, meio que tudo e, de acordo com o Wikipedia (se está na Internet, tem que ser verdade, não?) tem um braço de publishing, um estúdio de filme e televisão, produz alguns eletrônicos e é o maior provedor de serviços de infraestrutura de nuvem do mundo.
Cerca de 100 milhões de pessoas assinam o Amazon Prime e, nos EUA, o serviço de streaming de vídeo (Amazon Prime Video) já está fechando a diferença para a incumbente Netflix.
Com esse portfólio e receitas na casa de US$ 233 bilhões (mais de 10% do PIB brasileiro), além da Alexa, o robozinho que executa tarefas cotidianas enquanto (dizem as más línguas) espiona famílias na surdina, já presente em cerca de 11% dos lares norte-americanos, a Amazon sai na frente da corrida para ser a “Buy n Large” do mundo real (para quem não pescou a referência, Buy n Large é o nome da grande corporação que substituiu os governos na animação Wall-E, da Pixar).
Há quem diga, inclusive, que a Amazon é um dos fatores para a queda da inflação nos EUA – se o menor preço está a um clique e dois dias (em breve um) de distância para os usuários Prime, pagar mais caro para quê?
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O domínio é amplamente justificado: qualquer pessoa que já tenha usado os serviços da Amazon é testemunha da qualidade do atendimento e oferta de produtos. Tem tudo, é geralmente o menor preço e os prazos, com raríssimas exceções são atendidos.
Jeff Bezos é um psicopata da experiência do usuário e inovação – não tem nada que o careca não esteja disposto a fazer para servir bem o cliente, aumentar o império e expandir as atividades.
A Amazon chegou cedo, fez (e faz) tudo direito e tem um gênio obcecado no comando. Por isso, toda vez que te falarem sobre a “Nova Amazon” ou a “Amazon Brasileira”, seja bem crítico. Até porque a Amazon está entrando no mercado local com gosto – talvez a Amazon seja a Amazon Brasileira.
Mas porque falar da Amazon por aqui?
Oras, porque lá no não tão distante fevereiro de 2000, dois primos abriram uma loja de artigos esportivos na frente do Mackenzie. Em 2002 começaram a operar online e, em 2007, migraram 100% das operações para o ambiente virtual.
Em 2009, o Tiger Global (fundo de investimento) comprou uma participação minoritária, apostando na explosão de vendas com a Copa do Mundo e na força do mercado brasileiro. A Netshoes tinha tudo para voar!
Os investidores continuaram a aparecer – tudo que era venture capitalist (investidores especializados em negócios com alto potencial de crescimento) queria um pedaço do bolo. Em 2017, o IPO (sigla em inglês para oferta pública inicial de ações) foi feito na Bolsa de Nova York, a um valuation de US$ 560 milhões (US$ 18 por ação).
O problema é que o Brasil não é os EUA, e operar um e-commerce por aqui, em meio ao caos fiscal e os desafios logísticos, não é tarefa fácil – que o diga o pessoal do Submarino que, nem com a expertise e o capital infinito das Lojas Americanas, consegue tornar o maior portal de vendas online do Brasil em algo lucrativo.
No aniversário de dois anos do IPO, as ações da Netshoes eram negociadas perto dos US$ 2 (retorno “maravilhoso” de -90%) e o pessoal da Tiger contratou o Goldman Sachs para achar um comprador para o que tinha se tornado um belo mico.
Foi quando saiu a notícia de que o Magazine Luiza (MGLU3) tinha um acordo de exclusividade e estava, de fato, interessado em comprar as operações – no dia 26 de abril, os papéis da Netshoes subiram quase 20% e, cotados a US$ 2,55 cada.
O acordo foi anunciado no dia 30 – a Magalu levou por US$ 2 a ação (total de US$ 62 milhões). A estratégia é ampliar a atuação em vestuário (ainda fraco) e aumentar sua base de clientes jovens, um dos pontos fortes da Netshoes.
Por mais que o preço tenha sido bom, a reação do mercado foi intrigante – as MGLU3 subiram nada menos do que 7,14% depois do anúncio. Como que comprar um negócio pequeno, que queima caixa e nunca deu dinheiro pode ter gerado valor de R$ 2,4 bilhões para a companhia da família Trajano?
A primeira resposta é “não pode”.
Boa parte da alta se deve a euforia, algumas dinâmicas de fluxo e “squeeze” dos vendidos (shorts) na ação.
Outra parte veio do reconhecimento de créditos fiscais – em linhas gerais, no mesmo dia que anunciou a transação, o Magazine anunciou ao mercado que teve ganho de causa no STF em uma ação referente a créditos fiscais – o valor do ganho é de cerca de R$ 750 milhões, de acordo com o comunicado.
A outra parte vem da confiança de que é possível, sim, que a administração do Magazine consiga dar jeito nas operações da Netshoes – depois de sair do buraco no fim de 2015 (Magazine estava praticamente quebrada) e transformar a varejista no que, talvez, seja o maior case de sucesso do mercado acionário brasileiro, fica difícil duvidar da capacidade de execução de Fred Trajano (CEO da Magalu), um discípulo declarado de Jeff Bezos.
Há quem diga que os problemas da Netshoes nem sejam assim tão profundos e que um choque de gestão pode transformar a companhia rapidamente. Mas, mesmo que não consiga fazer a Netshoes dar resultado, a verdade é que a Magazine talvez não tenha pago nada pela compra.
Calma, explico.
A Netshoes tem um prejuízo acumulado de R$ 1,1 bilhão – desde que algumas condições sejam cumpridas, esse prejuízo pode ser utilizado para reduzir a base de cálculo de IR da Magalu e, potencialmente, gerar economias fiscais até maiores do que o valor da transação.
Assim, o que a Magazine pode ter levado é uma “opção de graça” para colocar a Netshoes nos trilhos.
E, se você está pensando se deve ir atrás da Amazon Brasileira, da Netshoes, da Magalu ou do Submarino, eu te falo que a melhor coisa é ir com a original: as ações da Amazon negociam na B3, na forma de BDRs, que são recibos de ações emitidas em outros países. O código é AMZO34. Infelizmente, como a CVM é elitista, só investidores qualificados (aqueles com carteira de pelo menos R$ 1 milhão) podem comprar as BDRs.
Os riscos, além dos inerentes ao investimento em renda variável (risco de mercado), compreendem o risco do próprio negócio da varejista, a menor liquidez dos papéis e, por fim, o risco cambial, dado que as ações da Amazon são denominadas em dólares e os recibos, em reais.
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