‘Avianca pode nos custar US$ 48 milhões’
Paulo Kakinoff, presidente da Gol, admite haver risco de que o leilão das Unidades Produtivas Isoladas (UPI) da Avianca Brasil não ocorra, o que pode causar prejuízo à sua empresa

A 15 dias da data marcada para o leilão das Unidades Produtivas Isoladas (UPI) da Avianca Brasil - que conterão as autorizações de pouso e decolagem (slots) da empresa em crise -, o presidente da Gol, Paulo Kakinoff, admite haver risco de que o evento não ocorra, o que causaria um prejuízo de US$ 48 milhões (R$ 190 milhões) para a aérea. Segundo Kakinoff, essa possibilidade de perda evidencia o esforço da Gol na disputa pela Avianca. "Destaco isso como um primeiro combate a uma falácia de que há interesse (da Gol) para que a Avianca não chegasse ao leilão", disse. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Há risco de a Avianca não sobreviver até o leilão?
Não temos visibilidade da real situação da Avianca. O que sabemos é que, ao longo da recuperação judicial, nenhum conjunto de agentes interessados nesse processo fez tantos investimentos e esforços como se está sendo feito agora (para a Avianca não quebrar). Se considerarmos só o investimento que a Gol já fez, são US$ 13 milhões (mais US$ 35 milhões para o Elliot, maior credor da Avianca). A Latam fez outro de US$ 13 milhões. O fundo Elliott também fez um aporte.
A Gol está preocupada com a possibilidade de que o leilão não ocorra? Haveria impactos?
Sim. Essa é uma preocupação. Do ponto de vista financeiro, perderíamos US$ 48 milhões. (Do ponto de vista operacional), continuaríamos com impactos significativos. A Gol nunca se recusou a receber clientes da Avianca, mesmo sem ter a menor perspectiva de que o custo desse transporte seria compensado. Evidentemente, temos caixa para isso (absorver os custos e a perda financeira). Jamais teríamos incorrido nesse modelo de negócio se não estivéssemos cientes dos riscos. Tudo isso evidencia o esforço que está sendo feito (para recuperar a Avianca). Destaco isso como um primeiro combate a uma falácia de que há um interesse de (da Gol) para que a Avianca não chegasse ao leilão.
Se a Avianca sobreviver até o leilão, precisaria de mais investimentos para operar até a conclusão da venda das UPIs. A Gol está disposta a um novo aporte?
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Aportes superiores aos US$ 13 milhões serão objeto de discussão e estão condicionados a uma diligência na empresa.
A Azul foi a primeira a firmar acordo para ficar com a Avianca. Depois, Gol e Latam fecharam com o Elliot. O Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) investigará se houve conduta anticompetitiva da Gol e da Latam. Qual a posição da Gol?
Essa é uma retórica que classifico como realidade fantástica. Estamos à disposição para demonstrar como esse processo foi construído. Vale destacar que começou com iniciativa do principal credor da Avianca (Elliott), que nos procurou com uma oferta de plano de recuperação que pudesse viabilizar a participação da Gol como um dos pretendentes a adquirir ativos da empresa. Todo o processo foi feito em uma relação exclusiva com o Elliott. Nunca houve qualquer conversa com outro competidor.
Mas como foram divididos os slots nas UPIs? Há justamente uma UPI que é interesse para Latam e outra para Gol...
Isso é um equivoco. Foram colocadas sete UPIs. Todos são livres para fazer ofertas por elas. O trabalho que a Elliott fez foi estruturar as UPIs para que fossem comparáveis e tivessem um nível de fragmentação que permitisse a outros ‘players’ terem a possibilidade de adquirir os ativos (para diminuir o risco de a operação ser barrada no Cade). Por que a Azul não adquire as UPIs? Esse processo é competitivo, o que me faz crer que quem não gosta de competir é a Azul.
No centro da disputa estão os slots de Congonhas. Quão importante é para a Gol ter mais slots ali? A empresa já tem 43% de participação no aeroporto.
São slots valiosos para toda a indústria. No caso da Gol, esse crescimento possibilitaria oferecer um nível de serviço ainda melhor para nossos clientes, pela quantidade de conexões que poderíamos oferecer.
O crescimento da Azul no terminal atrapalharia a Gol?
Ouvimos que a competição (Gol e Latam) teria receio de ter a Azul em Congonhas. Sempre que se fala em competição, deve se entender quais os benefícios possíveis de serem extraídos desse ambiente. Um deles é o preço. O que se sabe não ser o caso da Azul, justamente por ser a empresa que cobra as tarifas mais caras do Brasil. Uma outra dimensão é o produto. Aqui, o contraste fica maior. Nós temos itens exclusivos como Wi-Fi em todos os voos que operamos em Congonhas. A Gol está acostumada com competição.
A Gol chegou a negociar a compra da Avianca antes da recuperação judicial?
Tivemos tratativas infrutíferas ao longo dos últimos dois anos. Foram conversar esporádicas. A última, em dezembro. O assunto não prosperou porque as condições aventadas não pareciam ser factíveis para nós, inclusive a questão regulatória (de concentração).
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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