O urso está a caminho dos EUA. O que esperar de um ‘late cycle’?
Minha impressão é que desta vez teremos não mais do que um bear market corretivo no mercado de ações dos Estados Unidos, nada que se prolongue por muito tempo ou que cause danos de difícil reparação

Normalmente, mas nem sempre, um boom econômico se encerra com um período conhecido como Late Cycle. Trata-se de uma fase na qual os lucros das empresas, depois de atingirem seu apogeu (o que infelizmente só se sabe a posteriori), começam a diminuir. Às vezes diminuem por anos a fio. Em outras, fazem apenas um ajuste.
Como era de se esperar, os preços das ações em Bolsa caem junto com os lucros até que a relação se estabilize. Mas não é uma ciência exata, algo que se pode medir com gráficos ou avaliar com fórmulas matemáticas. Há sempre o componente emocional.
Lembre-se, caro amigo leitor, que os mercados são movidos por dois sentimentos importantíssimos: ganância e medo. Vontade enorme de ganhar; pânico ante a possibilidade de perda.
Não raro as ações sobem muito mais do que poderia se supor ou caem bem abaixo de um valor razoável se comparado a outros investimentos. Já vi (poucas vezes, mas vi) papéis sendo negociados abaixo do valor de seu dividendo anual.
Tudo indica que a Bolsa de Valores de Nova York atravessa um Late Cycle. Mas de modo algum está prestes a sofrer um crash.
Vai ter recessão?
Ainda é muito cedo para se afirmar que o atual estágio de crescimento da economia americana irá terminar com uma recessão. A definição clássica desse fenômeno é que ele se caracteriza por dois trimestres seguidos de retração do Produto Interno Bruto.
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No momento, o PIB dos Estados Unidos ainda sobe à razão de 3,5% ao ano, um número formidável para um país que está sempre parecendo que chegou ao topo.
Justamente para evitar que os EUA cresçam exageradamente, hipótese que geralmente termina mal, desde dezembro de 2015 o FOMC (Federal Open Market Committee), órgão do Fed equivalente ao Copom de nosso Banco Central, começou a elevar as taxas. Progressivamente, mas elevando.
Durante sete anos, o FOMC manteve os juros básicos entre zero e 0,25% ao ano, o que na prática significa uma taxa negativa (por causa da inflação). Isso aconteceu para impedir que a recessão causada pela crise das hipotecas (subprime), ocorrida entre 2007 e 2010, se transformasse em uma depressão como a dos anos 1930.
Atualmente, os rendimentos dos títulos do Tesouro americano estão levemente positivos. Enquanto a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor (CPI – Consumer Price Index) está em 2,5% ao ano, as obrigações de 10 anos rendem 3,05%.
Minha impressão é que desta vez teremos não mais do que um bear market corretivo no mercado de ações dos Estados Unidos, nada que se prolongue por muito tempo ou que cause danos de difícil reparação. Logo os preços serão considerados baratos pelos gestores dos grandes fundos. Não há nenhuma crise de crédito à vista, nem instituições financeiras com problemas.
Trata-se apenas de uma correção, repito.
A atuação da autoridade monetária se faz necessária sempre que a atividade econômica, ou a dança dos preços dos ativos negociados em bolsa, se mostre além dos limites razoáveis de prudência.
Durante todo o ano de 1999 e início de 2000, o mercado de ações de empresas de tecnologia, as chamadas pontocom (dotcom), viveu uma bolha especulativa, que acabaria terminando em tragédia, uma espécie de tulipomania cibernética.
Naquela ocasião, os players estavam tão assustados com os próprios ganhos (lucro também dá medo), que o chairman do FED, Alan Greenspan, nem precisou mexer nas taxas. Bastou que, num discurso pronunciado no American Enterprise Institute, classificasse o bull market sem freios como “exuberância irracional”.
Pronto, o índice Nasdaq Composite, que concentrava a maioria das dot.com, levou um tombaço.
Empresas com bases sólidas como a Apple, a Amazon.com e a Adobe sobreviveram ao violento sacolejo. Já outras, tais como Pets.com, a Gov.works, a Jewishnet.co.uk, a Kozmo e a Broadcast.com simplesmente desapareceram do mapa. Tanto que ninguém se lembra delas.
O artificialismo da bolha das pontocom nada tem a ver com o bull market que está revertendo para bear agora no final de 2018. Este é apenas um escape através da válvula da panela de pressão, válvula essa operada pelo Fed. Quase sempre com maestria.
Ao contrário do que ocorreu em 1929 e na crise do subprime, acredito que a atual baixa das cotações das empresas negociadas na NYSE logo sincronize os preços com os lucros das empresas.
E o Brasil, como fica?
Como não creio em um crash no mercado de ações dos Estados Unidos, também não aposto em consequências danosas na Bolsa brasileira. Nosso mercado será mais afetado se houver uma queda prolongada no preço das commodities. Isso sim é algo que assusta.
Tal como acontece no Canadá, na Austrália, na Nova Zelândia, na Rússia e na África do Sul, nossa Bolsa depende muito das cotações das matérias-primas. Que, no momento, estão em queda acentuada.
O lado positivo é o governo cuja posse se aproxima. Cada novo integrante que é anunciado mostra que o Brasil vai optar por um amplo programa de privatizações, pelo enxugamento e modernização do Estado. Enfim, pelo liberalismo, palavra que chegou a virar nome feio no Brasil.
Somados todos os prós e contras, acho que essa mudança radical no modo de lidar com a coisa pública é que prevalecerá. Vamos deixar os empreendimentos para os empreendedores.
Evidentemente que o melhor cenário seria o da Bolsa de Nova York retomando sua trajetória de alta, ou interrompendo a de baixa, aliado a uma alta das commodities.
Ao longo dos 60 anos nos quais acompanhei o mercado, já vi o do Brasil adquirir moto próprio. Acredito que essa situação poderá se repetir em 2019. Quem sabe a gente está tendo um early cycle.
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