Os EUA viraram uma república de bananas? O que se sabe até agora sobre a operação do FBI contra Donald Trump
Aliados de Donald Trump saíram-se com reações exacerbadas; Casa Branca exaltou respeito ao estado de direito

Donald Trump continua despertando paixões nos Estados Unidos. E não é pela beleza de seu topete alaranjado. A operação promovida pelo FBI contra o complexo de Mar-a-Lago, na Flórida, desencadeou reações tão exacerbadas de republicanos quanto cautelosas de democratas.
O FBI e o Departamento de Justiça dos Estados Unidos ainda não se manifestaram sobre a batida policial. Acredita-se que a polícia federal norte-americana estivesse em busca de documentos confidenciais ou sensíveis supostamente levados por Trump quando deixou a Casa Branca.
Trump divulgou a visita do FBI ao complexo de Mar-a-Lago na noite de segunda-feira.
De acordo com Lindsey Halligan, advogada do ex-presidente, a operação contou com 30 a 40 agentes do FBI, todos com luvas, alguns de terno, outros vestidos casualmente, além de 10 a 15 viaturas e um caminhão alugado pela polícia federal norte-americana.
Esta foi a primeira vez na história dos Estados Unidos que um ex-presidente teve a casa revistada pela polícia.
Por que o FBI pode estar atrás de Donald Trump
O que se sabe até agora sobre a batida policial é que ela foi baseada em um mandado de busca e apreensão expedido pelo Departamento de Justiça dos EUA. O problema é saber qual investigação sobre Trump sustenta o mandado.
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O ex-presidente norte-americano protagoniza uma série de problemas com a Justiça dos EUA.
O mais grave deles envolve o levante ocorrido em 6 de janeiro do ano passado. Na ocasião, eleitores de Donald Trump atacaram o Capitólio em uma tentativa desesperada de evitar a oficialização da vitória de Joe Biden nas eleições presidenciais de 2020.
Pelo menos cinco pessoas morreram, dezenas ficaram feridas e mais de 800 acabaram indiciadas pelo episódio. No Congresso dos EUA, uma comissão tenta provar o envolvimento direto de Trump no motim.
Mas não é só.
O FBI investiga se, ao deixar a Casa Branca, Trump levou consigo documentos confidenciais contendo informações sensíveis e que deveriam ter sido devidamente arquivados.
Os questionamentos de Trump aos resultados das eleições de 2020 nos EUA também estão na mira do Departamento de Justiça.
Na Geórgia, um promotor investiga Trump e seus aliados por uma tentativa de interferência indevida no resultado da eleição no Estado em 2020.
Ontem, um tribunal federal de apelações acatou um pedido de congressistas norte-americanos para que tenham acesso aos misteriosos registros fiscais do ex-presidente.
Enquanto isso, Trump deve responder nos próximos dias aos questionamentos do procurador-geral de Nova York. A investigação envolve suspeita de fraude nos preços dos ativos ostentados por Trump.
Democratas defendem estado de direito e ‘justiça para todos’
Karine Jean-Pierre, porta-voz da Casa Branca, assegurou que o presidente Joe Biden não foi informado com antecedência da operação do FBI.
“O presidente ficou sabendo do assunto por meio de informes públicos”, disse ela. Ainda de acordo com a porta-voz, “ninguém na Casa Branca foi avisado antecipadamente".
Karine Jean-Pierre acrescentou que Biden promove um grande esforço para preservar a independência do Departamento de Justiça. "O presidente Biden acredita no estado de direito", acrescentou.
A presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, disse à NBC News que "para obter um mandado, você precisa de uma justificativa razoável".
Na avaliação de Pelosi, a operação “mostra que ninguém está acima da lei, nem mesmo um presidente ou ex-presidente dos Estados Unidos".
Ao mesmo tempo, alguns representantes do Partido Democrata manifestaram preocupação de que o episódio sirva de combustível para Trump.
"Isso pode ser muito útil para ele, já que muitas pessoas ainda o apoiam no momento", disse à BBC Dave Aronberg, procurador estadual de Palm Beach, onde fica Mar-a-Lago. "Trump usará isso para recuperar seu status de mártir."
Aliados de Donald Trump reagem com indignação
Indiferentes aos frequentes problemas de Trump com a Justiça norte-americana, seus aliados reagiram com indignação à presença do FBI no complexo de Trump.
Políticos republicanos acusam o Departamento de Justiça de ter atuado com “motivação política”.
O ex-vice-presidente de Trump, Mike Pence, que se distanciou de Trump, exigiu que o secretário de Justiça dos EUA, Merrick Garland, forneça "uma prestação de contas completa" sobre a batida policial.
O líder da minoria republicana no Senado, Mitch McConnell, seguiu na mesma linha. O Departamento de Justiça "já deveria ter fornecido respostas ao povo americano e deve fazê-lo imediatamente", exigiu.
No Congresso, aliados de Trump prometem abrir investigações parlamentares na Câmara e no Senado se vencerem as eleições de meio de mandato, programadas para novembro.
"Completo exagero", disse Lindsey Halligan, advogada de Trump. "Se eles precisavam de documentos, era só ter pedido."
O próprio Trump acusou o Departamento de Justiça de agir politicamente por causa de sua liderança nas pesquisas de intenção de voto com vistas a 2024. As mesmas que ele dizia estarem erradas quando apontavam sua derrota nas urnas em 2020.
"A ilegalidade, a perseguição política e a caça às bruxas devem ser expostas e interrompidas", declarou.
Ação contra Donald Trump transformou EUA em república de bananas?
Mas a reação mais exacerbada - e também curiosa - de apoio a Donald Trump partiu do governador da Flórida, Ron DeSantis.
Em uma publicação no Twitter, como se estivesse se referindo ao governo dos Estados Unidos como uma ditadura, DeSantis afirmou que uma operação de busca como essa só aconteceria em uma “república das bananas”.
“O ataque a Mar-a-Lago é uma nova escalada na instrumentalização das agências federais contra os oponentes políticos do regime, enquanto pessoas como Hunter Biden são tratadas com luvas de pelica”, acusou DeSantis, referindo-se ao filho do presidente Joe Biden.
“Agora o regime está usando mais 87 mil agentes da Receita para atuar contra seus adversários? República de Bananas”, prosseguiu DeSantis.
O que é uma república de bananas
‘República das bananas’ é um termo claramente pejorativo usado frequentemente como referência a países politicamente instáveis, submissos a uma potência estrangeira e governados por um líder corrupto ou autoritário.
Economicamente, uma “república de bananas” é dependente da exportação de commodities agrícolas ou minerais.
O termo costuma ser empregado a gosto do freguês para depreciar países latino-americanos e africanos em geral.
No fim de julho, Jennifer Rubin, colunista do insuspeito The Washington Post, pontuou em um artigo endereçado aos republicanos que criticam a atuação do Departamento de Justiça o que poderia transformar os Estados Unidos em uma república de bananas — mas por motivos bem distintos dos apontados pelo governador da Flórida.
“Como você sabe que a democracia está degringolando? É quando um líder toma as seguintes atitudes:
- Recusa-se a admitir que perdeu uma eleição.
- Recorre a meios de comunicação cativos para minar a credibilidade das eleições e mentir sobre fraude eleitoral.
- Ignora montanhas de evidências mostrando que a eleição foi legítima.
- Tenta usar o Departamento de Justiça para lançar dúvidas sobre a legitimidade de uma eleição.
- Pressiona funcionários públicos a acharem votos suficientes para mudar o resultado de um Estado-chave.
- Pressiona servidores públicos a alterarem certificados de votação e fraudar documentos para anular a vontade do povo.
- Inventa um esquema para manter o poder que seu próprio advogado entende que seria ilegal.
- Incentiva seu vice-presidente a desconsiderar seu juramento e ajudar a facilitar a trama do golpe.
- Conclama pessoas exaltadas a aparecerem na capital do país justamente quando os votos eleitorais estão sendo contados e promete que a aglomeração será ‘selvagem!’.
- Convida uma multidão armada e desequilibrada a marchar sobre o Congresso e promete juntar-se a ela para confrontar os líderes eleitos que cumprem seus deveres constitucionais.
- Incentiva a multidão a responsabilizar seu vice-presidente por não ter a ‘coragem’ de virar a mesa de uma eleição, mesmo quando a multidão violenta se aproxima dele.
- Recusa-se a chamar as forças de segurança para reprimir a insurreição violenta de seus apoiadores.”
*Com informações da BBC e do Washington Post.
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