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Jair Bolsonaro passa boa parte de seu tempo escrevendo bobagens e se interessando por assuntos que não têm a menor relevância neste momento. Isso quando não está escutando as idiotices do Rasputin da Virgínia
No início dos anos 1990, eu morava num apartamento de quatro quartos na orla da Barra da Tijuca. Era espetacular. Só que não me pertencia. Pagava aluguel. Preferia ter dinheiro líquido, em dólares, para poder especular nos mercados futuros de Chicago e Nova York.
Quando decidi largar o mercado para ser escritor, minha primeira providência foi comprar um apartamento de dois quartos, num ponto da Barra muito menos valorizado. Sendo de apenas dois quartos, tive de instalar meu escritório no quarto de empregada (pois nossa cozinheira vai pra casa todo dia às três da tarde), um cubículo de menos de quatro metros quadrados, ao qual dou o nome de sarcófago. Não tem janelas, eu fecho a porta para que o barulho da cozinha não atrapalhe meu raciocínio.
Felizmente o ar-condicionado me mantém a 19 graus, isso em pleno verão carioca.
Foi nessa "cela" que escrevi meus 18 livros, as séries Carga Pesada e Linha Direta, meus artigos para a Resenha BM&F e esta coluna.
Como minha filha se mudou em 2007 para a Inglaterra, eu poderia ter montado o escritório no quarto dela. Mas me viciei no sarcófago.
Hoje, sexta-feira dos feriados da Páscoa, escrevo na amplitude da fazenda de um amigo, em Minas. Estou sentado num canto da sala principal. Para cada janela que dirijo meu olhar, vejo árvores frondosas. Bandos de maritacas passam voando e fazendo uma algazarra, colírio para os olhos e música para os ouvidos.
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Só que, para falar do assunto deste texto, tenho de abrir um zoom e me situar numa realidade diferente, um Brasil que patina sem sair do lugar, país que tem quatro poderes (suspense para o quarto, que virá ao final deste artigo). E nenhum deles se entende.
Comecemos pelo primeiro, o Executivo, que deveria ser o mais forte, mas não é. Por culpa e sabotagem dos outros dois, cujos integrantes, em sua grande maioria, só cuidam de seus interesses pessoais, uma espécie de vendilhões do templo.
Em vez de tentar com mais ímpeto um já difícil entendimento, Jair Bolsonaro passa boa parte de seu tempo escrevendo bobagens e se interessando por assuntos que não têm a menor relevância neste momento, como o direito de cada cidadão de bem (quem define isso?) possuir quatro armas. Isso quando não está escutando as idiotices do Rasputin da Virgínia.
Apesar desses deslizes, o capitão-presidente é a favor da livre iniciativa e do enxugamento do Estado e isso é ótimo.
Se atravessarmos a Praça dos Três Poderes, vamos chegar às duas cuias do Congresso Nacional. Lá, o suposto partido do governo vota contra o Executivo, sempre que sente a possibilidade de perder uma disputa. Só para que possam bravatear: “Ganhamos!”.
A uma séria e brilhante exposição de motivos do ministro Paulo Guedes, sobre a imperiosa necessidade da Reforma da Previdência, alguns parlamentares da Comissão de Constituição e Justiça – mesmo os suplentes que não deveriam estar lá junto aos titulares –, respondem com atitude infantis. Se são suplentes, são substitutos, caramba. Banco de reserva. É como se um time de futebol entrasse em campo com 22 jogadores.
Vamos continuar girando pela Praça. Chegamos ao Supremo, reduto, diz a Constituição, de homens de notável saber jurídico e reputação ilibada. Ali a turma – ou seria a turba? –, com as exceções de praxe, se transformou em uma trupe mambembe de astros de quinta categoria.
Esse é o Brasil de abril de 2019.
Apesar dos pesares, que não são poucos, não vemos multidões, nem multidinhas, protestando nas ruas contra a PEC previdenciária nem contra as privatizações. Só isso é um enorme avanço, em minha opinião.
No Partido dos Trabalhadores, só restou uma bandeira: “Lula Livre”.
No início falei de um quarto poder. Esse é grande. Elegeu Jair Bolsonaro e fez Alexandre de Moraes e Dias Toffoli correrem da raia com o rabo entre as pernas.
Essa massa de internautas pode levar o Brasil para a era da verdadeira modernidade.
"Todo poder emana do povo", diz o artigo 1º da Constituição. É a ele que os inimigos dos inimigos dos inimigos têm de obedecer, sob pena de serem condenados à execração pública.
A frase de Adam Smith é uma das reflexões do livro “A Riqueza das Nações”, obra seminal do liberalismo econômico.
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