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2019-08-03T10:42:49+00:00
Bruna Furlani
Bruna Furlani
Jornalista formada pela Universidade de Brasília (UnB). Fez curso de jornalismo econômico oferecido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Tem passagem pelas editorias de economia, política e negócios de veículos como O Estado de S.Paulo, SBT e Correio Braziliense.
De olho na China

“O aplicativo de tudo” que está mudando a China e que é a fonte de inspiração da Rappi

Apesar de ser pouco conhecida no Brasil, a companhia terminou o ano passado com mais de 6 milhões de comerciantes ativos e mais de 400 milhões de usuários na plataforma

3 de agosto de 2019
6:00 - atualizado às 10:42
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Imagem: shutterstock

Se tivesse que enumerar um dos meus desenhos preferidos quando era menor, com certeza, "Os Jetsons" estariam na lista. Mas se a Bruna do passado tivesse me perguntado se um dia seríamos capazes de ter a famosa robô Rosie, além das incríveis videochamadas e dos relógios inteligentes do desenho, eu provavelmente não acreditaria.

Agora imagina só ter um único aplicativo capaz de oferecer mais de 200 tipos de serviços, como o aluguel de bikes e carros, aquisição de ingressos de cinema, reserva de viagens e de hotéis, assim como a administração das vendas e do estoque do seu restaurante. Pois bem, ele existe e eu estou falando do app da gigante chinesa Meituan Dianping.

Apesar de ser pouco conhecida aqui no Brasil, a plataforma tecnológica é líder na China e atende mais de 2800 cidades ao redor de todo o país. Apenas para se ter uma ideia, em 2018, a média diária de pedidos de entrega de comida foi de 17,5 milhões.

Por ser uma das maiores fontes de inspiração para fazer com que a brasileira Rappi cresça ainda mais na América Latina, fui atrás do modelo de negócios da Meituan para entender melhor o que há por trás do seu sucesso.

Entendendo como ela funciona

Com sede em Pequim, a Meituan, que se assemelhava à plataforma de desconto norte-americana, foi fundada em 2010. Cinco depois, a companhia se fundiu com sua principal rival, a Dianping, que funcionava de forma semelhante à empresa de avaliação on-line Yelp.

Desde então, a companhia - que surgiu da fusão de duas gigantes - vem fazendo barulho com os quase 6 milhões de comerciantes ativos e mais de 400 milhões de usuários na plataforma.

Apenas para ter uma ideia, em 2018, o montante arrecado com o total de transações feitos pela companhia foi de 515,6 bilhões de renminbi (RMB), o que seria equivalente a aproximadamente R$ 288,79 bilhões, levando em conta a cotação da última sexta-feira (2).

De tudo um pouco

Quem entra no aplicativo, leva um susto de primeira. Isso porque o app está em chinês e mudar o idioma não é tarefa fácil, digo por experiência própria. Nem mesmo o site da empresa é tão intuitivo e oferece muitas respostas.

Apesar de parecer uma empresa muito complexa, talvez a melhor definição para explicar o seu funcionamento é que ela seria um mix entre companhias como Groupon, Rappi, Amazon e Yelp!.

Em outras palavras, ela é uma plataforma em que é possível encontrar diferentes lojas anunciando praticamente de tudo. E quando eu falo tudo, quero dizer desde de cursos on-line até mesmo serviços de casamento, salão, renovação da sua casa, entre outras coisas.

Essa é justamente a estratégia da companhia, como explicou Xia Huaxia, cientista-chefe da Meituan Dianping, à revista Fast Company, em fevereiro deste ano, ao ser eleita a empresa mais inovadora do mundo.

Na ocasião, ele ressaltou que "a nossa estratégia ao integrar os diferentes negócios é atrair o maior volume de usuários possível aos serviços de maior frequência e depois impulsionar alguns serviços de pequena ou média frequência como cortes de cabelo e serviços de casamento".

O tesouro da Meituan

E o segredo para ser esse superaplicativo capaz de fornecer tudo de forma rápida e inteligente tem dois nomes: Super Brain (super cérebro, na tradução para o português).

Ele funciona como um serviço de inteligência em tempo real capaz de calcular 2,9 bilhões de planos de rota a cada hora e que consegue otimizar o cálculo dos melhores caminhos em uma média de 0,00055 segundos. O que faz com que a média de entregas no aplicativo consiga ser reduzida em 30% e com isso, os entregadores conseguem completar cerca de 30 ordens por dia.

Mas não é só isso. O superaplicativo chinês não está focado apenas nos clientes. Entre os serviços oferecidos pela companhia estão opções voltadas para comerciantes. Por exemplo, por lá, o dono de um estabelecimento comercial consegue controlar o seu estoque, fazer um inventário da loja e ainda receber uma ajuda na hora de administrar o negócio e de fazer iniciativas de marketing.

Com isso, a empresa oferece soluções voltadas para o consumidor no modelo conhecido como B2C (business to consumer) como em um modelo estilo B2B (business to business).

Outro ponto interessante e que a companhia pode explorar é a sua capacidade de oferecer dados sobre hábitos de compra on-line, comportamentos e preferências de consumo. Ou seja, se fizer isso de fato, ela poderá começar a ganhar com propagandas, além das comissões de vendas feitas pela plataforma.

Olha o IPO

De olho na expansão e na possibilidade de testar a disposição dos investidores em comprar os papéis da companhia, a Meituan Dianping abriu capital em setembro do ano passado na bolsa de valores de Hong Kong.

Na ocasião, a empresa arrecadou US$ 4,2 bilhões em uma das maiores ofertas iniciais de ações do segmento de internet do mundo.

A empresa conseguiu uma precificação perto do topo da faixa indicativa ao fazer o IPO (sigla para oferta inicial de ações em inglês).

A ideia da abertura de capital era para ajudar a empresa a se posicionar no mercado e bater de frente com a sua principal concorrente, Ele.me, que tem apoio do Alibaba.

Na última sexta-feira (2), as ações da companhia terminaram o pregão cotadas em 63,90 HKD (por volta de R$ 31,73), uma queda de 3,84%.

No vermelho

Mas apesar da grande variedade de serviços ter atraído usuários e investidores para a bolsa, a empresa não saiu do vermelho.

Segundo dados do último balanço da companhia divulgados em março deste ano, a Meituan Dianping terminou o período com um prejuízo líquido de 1,43 bilhões renminbi (RMB), o que seria equivalente a R$ 800 milhões. Ainda que seja negativo, o valor é menor do que o montante apresentado no ano anterior que foi de 21,06 bilhões renminbi (RMB).

A receita, por sua vez, também deu uma boa melhorada com um aumento de 70,1% e alcançou a cifra de 19,17 bilhões renminbi (RMB), equivalente a R$ 10,74 bilhões.

Ainda que tenha melhorado alguns aspectos, como o aumento na base de usuários, o balanço da companhia trouxe um ponto interessante. Por conta do crescimento no volume de pedidos, a empresa também gastou mais com questões trabalhistas.

Durante o período, os custos operacionais da Meituan Dianping expandiram cerca de 75% e fecharam o primeiro trimestre deste ano em 14,10 bilhões renminbi (RMB), ou seja, R$ 7,90 bilhões.

Fonte de inspiração

Ainda que não sejam capazes de dar lucro por agora, isso não parece importar muito, pelo menos não para a Rappi.

A pergunta que fica é: até quando os acionistas estarão dispostos a esperar para que a empresa se torne rentável?

Sempre de olho nas tendências que a Meituan Dianping vem trazendo em termos de serviços, a Rappi vem se inspirando na chinesa para se tornar uma gigante na América Latina.

Um exemplo disso está no oferecimento de opções como compra de passagens aéreas, reserva em hotéis e restaurantes, e até mesmo o oferecimento de cursos on-line.

Nesse quesito, a ideia da Rappi se assemelha muito com a estratégia da Meituan Dianping em atrair o maior volume de usuários possível com os seus serviços de maior frequência, sem se esquecer de impulsionar também alguns serviços de pequena ou média frequência.

Mesmo sem possuir o chamado Super Brain, capaz de oferecer rotas em questão de milissegundos, a startup colombiana parece estar fazendo um bom trabalho. E pelo visto se continuar assim poderá tentar obter a coroa na América Latina, assim como faz a Meituan na China.

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