Madrid e Barcelona, dois aeroportos e duas visões da gastronomia em trânsito
Em dois hubs com diferentes estratégias, a culinária também aparece com identidades diferentes: entre o local com criatividade e o global com praticidade, diferentes expressões gastronômicas para conferir

Se Istambul mostrou como um aeroporto pode se transformar em cidade gastronômica, a Espanha revela outro tipo de dinâmica. Aqui, a diferença entre Adolfo Suárez Madrid–Barajas Airport e Barcelona–El Prat Airport não é apenas arquitetônica ou operacional, mas reflete diferentes estratégias e identidade culinária.
Falando apenas de aviação, Barcelona, apesar de cosmopolita e extremamente gastronômica, fica muitas vezes em segundo plano na estratégia nacional para voos de longa distância. É Madrid que concentra as principais conexões intercontinentais da Espanha e funciona como ponte natural entre Europa e América Latina.
Essa diferença, no entanto, não diminui a importância culinária de Barcelona. Pelo contrário. O aeroporto catalão tornou se uma vitrine interessante para chefs e projetos que representam o espírito criativo da cidade.

Barcelona, cozinha autoral antes do embarque
O Barcelona–El Prat Airport traduz bem a personalidade gastronômica da cidade. Chefs importantes passaram a enxergar o aeroporto como espaço de exposição internacional, criando versões mais acessíveis de suas cozinhas.

Um exemplo claro é o projeto Alas, dos irmãos Sergio Torres e Javier Torres, conhecidos mundialmente como Hermanos Torres. A dupla, que já teve restaurantes em São Paulo e no Rio de Janeiro, levou ao aeroporto uma proposta inspirada na culinária mediterrânea contemporânea, adaptada ao ritmo de quem está prestes a embarcar. A ideia não é replicar o restaurante tri-estrelado que mantêm na cidade, mas traduzir sua filosofia culinária em pratos rápidos e bem executados.

Entre as opções mais emblemáticas do cardápio estão os canelones da avó Catalina, uma receita familiar que acompanha os chefs desde a infância. O prato, quase uma assinatura dos irmãos Torres aliás, presta homenagem à avó que lhes ensinou as bases da cozinha catalã. No Alas, os canelones aparecem em uma versão cuidadosamente adaptada ao ambiente do aeroporto, com massa delicada, recheio rico e molho cremoso que preserva o sabor da receita original.
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Outro nome que decidiu transformar o aeroporto em laboratório criativo é o provocador Dabiz Muñoz. No terminal de Barcelona ele criou o Hungry Club, conceito informal que mistura street food global com o espírito irreverente que marca todos os seus projetos.
Simples que funciona
Entre os pratos mais comentados está o Bikini do Hungry Club, releitura de um clássico sanduíche catalão. Tradicionalmente simples, feito com presunto e queijo tostados, o bikini de Muñoz ganha camadas inesperadas, molhos intensos e uma execução quase obsessiva na textura do pão. Crocante por fora, macio por dentro, ele resume bem a ideia do chef: alta criatividade aplicada a algo aparentemente simples.

Parte dessa obsessão criativa pode ser vista no documentário UniverXO Dabiz, disponível na Netflix, que acompanha o funcionamento do universo gastronômico de Muñoz. Em vários momentos, inclusive, aparece o desenvolvimento de conceitos mais informais e acessíveis, como os projetos pensados para aeroportos e grande fluxo de público.
Barcelona também leva ao aeroporto algo fundamental para a cultura gastronômica espanhola, o doce. Um dos projetos mais interessantes é o Dreams, iniciativa ligada à criatividade do confeiteiro Christian Escribà e da brasileira Patricia Schimidt. O espaço funciona quase como uma boutique de confeitaria contemporânea, onde doces catalães tradicionais encontram uma estética visual dramática.
Madrid, escala global e restaurantes estratégicos
Enquanto Barcelona aposta na criatividade e na identidade culinária local, o Adolfo Suárez Madrid–Barajas Airport funciona com outra lógica. O aeroporto foi o 5º hub mais movimentado da Europa em 2025 e seu Terminal 4 concentra grande parte das conexões intercontinentais.
Essa escala gigantesca cria um ambiente extremamente propício para restaurantes que precisam atender grande volume de passageiros sem perder qualidade.

Um dos exemplos mais interessantes é o Kirei by Kabuki, projeto ligado ao universo da alta gastronomia japonesa na Espanha. O restaurante combina sushi contemporâneo e pratos quentes inspirados na culinária asiática moderna. Para muitos passageiros frequentes, é uma das melhores refeições possíveis dentro do aeroporto madrilenho.

Outro conceito relevante na Terminal 4 é o Flax & Kale, restaurante nascido em Barcelona que acabou cruzando o país e aterrissando em Madrid. Criado pelo empresário e restaurateur Jordi Barri, o projeto ficou famoso por introduzir na Espanha uma cozinha chamada flexitariana.
A proposta é simples e ao mesmo tempo muito atual. Uma alimentação baseada principalmente em vegetais, mas que permite a presença ocasional de peixe e ingredientes de origem animal. O resultado é um cardápio vibrante, ideal para uma refeição leve antes de um voo longo. São bowls coloridos, sucos prensados a frio e pratos inspirados na culinária asiática e mediterrânea, por exemplo. Ali, até as sobremesas equilibram indulgência e ingredientes naturais.
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