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Paula Toller fala sobre ao Seu Dinheiro sobre a turnê “Eu Tive Um Sonho”, o repertório que passou de geração em geração e a nostalgia de uma banda que ajuda a explicar os 40+

Paula Toller sabe que o Kid Abelha voltou aos grandes palcos do Brasil carregando um tipo particular de memória. Juntos, revivem e embalam lembranças de quem ouviu “Como Eu Quero”, “Fixação” ou “Lágrimas e Chuva” no rádio, na televisão, em novelas, festas e CDs.
Mas ouvir Kid Abelha carrega também a memória dos filhos que herdaram a voz doce e potente de Paula. Seja nas playlists dos pais, em vídeos antigos ou pela carreira solo da cantora, muitos aprendem o refrão antes mesmo de entenderem a letra.
A turnê Eu Tive Um Sonho, que marca o reencontro de Paula com George Israel e Bruno Fortunato, começou no Rio de Janeiro, onde a banda nasceu. Juntos, eles seguem arenas e estádios até janeiro de 2027.
Apesar de um hiato iniciado há 13 anos, banda e staff evitam chamar a agenda de “retorno”. Preferem a ideia de continuidade. Como se algo tivesse ficado suspenso desde a última passagem da formação pelos palcos. Para o público, a operação afetiva é mais simples: o Kid Abelha voltou a ocupar um espaço que nunca deixou de circular na vida privada de uma geração.
Em entrevista ao Seu Dinheiro, entre a correria e os ajustes para o show deste sábado (27), no Nubank Parque, em São Paulo, Paula diz que a força do repertório aparece justamente na tensão entre passado e presente.
“Acho que as duas coisas caminham juntas. Existe a memória, claro, mas o mais forte hoje é perceber como essas músicas continuam atuais. Todas as letras poderiam ser escritas hoje, elas não perderam a validade. E isso fica muito evidente quando a gente coloca o repertório no palco novamente. A estreia esgotada no Rio confirmou isso mais uma vez.”
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A fala de Paula ajuda a tirar o Kid Abelha de uma leitura puramente nostálgica. A banda sempre foi associada a desejo, juventude, amor, desencontro e afirmação pessoal. Sobretudo, foi sinônimo de um romantismo pop leve demais para parte da crítica. Mas talvez essa leveza tenha sido justamente a chave de sua duração. É, sim, canção de rádio, naturalmente como é repertório de educação sentimental – sem trocadilho.
O Kid Abelha nasceu no circuito carioca que ajudou a organizar o pop rock brasileiro dos anos 1980. Entre universidade, Rádio Fluminense, Circo Voador, Chacrinha e Rock in Rio, protagonizou o auge de uma indústria ainda dependente de televisão, disco físico e execução radiofônica.
Seu Espião, de 1984, tinha Liminha na produção e uma sequência rara de faixas que entraram na memória popular. Educação Sentimental, de 1985, consolidou a banda como uma espécie de manual afetivo da juventude urbana daquele período.
A história, porém, não ficou congelada ali. Parte da imprensa que antes tratava o Kid Abelha como pop fútil hoje reconhece a força de seus primeiros discos, a precisão dos singles e a capacidade da banda de transformar temas simples em canções de longa circulação. Essa é a diferença entre hit datado e canção que sobrevive ao próprio arranjo. Enquanto uma muda de moda, a outra muda de suporte, público e década.
Paula vê essa passagem de geração com comoção. “É muito emocionante ver isso acontecer. A gente vê a garotada em casa, no quarto, tocando nossas músicas no violão, como nós fizemos um dia. E nos shows, famílias inteiras cantando juntas. Quando a música chega nesse lugar, ela deixa de ser de uma geração só e passa a fazer parte da vida das pessoas de uma forma muito mais profunda.”
O melhor exemplo do que a vocalista acredita veio justamente na setlist da estreia da turnê, que aconteceu no Rio de Janeiro, no último dia 12. Dividido em quatro atos, mais um bis, o show cumpriu bem o desafio de costurar 40 anos de repertório com a segurança de um repertório sólido.
“Li uma matéria que destacou a diversidade de pessoas na plateia durante o show no Rio e vejo isso como uma consequência da universalidade das nossas composições”, conta Toller.
De fato, o que se viu na Farmasi Arena foram sequências diversas, que provavam a versatilidade das canções. Em alguns momentos, o que começava com hinos oitentistas, como "Nada por Mim", de Herbert Vianna, ia terminar em hits da era MTV Brasil, como "Eu Contra a Noite", de 2001.
Em poucas exceções a plateia era lembrada da densidade histórica do espetáculo. Momentos assim incluem a viagem psicodélica que alude a Hyldon na reinterpretação de seu "Na rua, na chuva, na fazenda", de 1975, ou na homenagem feita a Beni Borja, primeiro baterista do Kid Abelha, em "Maio.
Em comum, todas as passagens confirmaram uma forma de cantar a vulnerabilidade sem perder o gesto pop. As canções, diretas, são melodicamente reconhecíveis e feitas para a voz de Paula, que sempre ocupou um lugar singular, mais complexo do que a caricatura feminina dos anos 1980 deixou registrar. No fim, o que a banda apresenta é mais centrado no funcionamento das músicas. “Eu acho que é uma combinação de fatores, mas principalmente o fato de que são músicas que não perderam a validade”, reflete Paula.
“Todas poderiam ser escritas hoje. Isso mantém o repertório vivo, ele continua fazendo sentido e encontrando novas pessoas ao longo do tempo.”
Depois que concluir a apresentação em São Paulo – provavelmente com o hit "Pintura Íntima" –, a turnê Eu Tive Um Sonho segue viagem Brasil afora. Na passagem, sobe aos palcos de Salvador (11 de julho), Brasília (27 de julho), Recife (8 de agosto), Fortaleza (22 de agosto) e Porto Alegre (26 de setembro). No último trimestre, ainda contempla Curitiba (10 de outubro) e Florianópolis (17 de outubro), antes de retornar ao Rio para uma apresentação final, dia 16 de janeiro.
Trata-se, no entanto, de um patrimônio cultural muito além de calendário de shows. O reencontro do Kid Abelha mostra como a música pop se transforma em patrimônio privado antes de virar patrimônio cultural. Ela mora no quarto, no carro, no almoço de domingo, na festa de aniversário, no primeiro beijo, na separação, na viagem em família. Depois, quando volta ao estádio, parece que sempre esteve ali.
“O que fica mais claro é essa capacidade de atravessar o tempo. A gente fica muito entusiasmado de poder reunir no mesmo concerto quem acompanhou desde o início e os jovens que nunca viram ao vivo. Esse encontro diz muito sobre a força dessa história”, resume Paula.
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