Enhanced Games: a olimpíada do doping prometeu tudo, mas entregou apenas um recorde
Evento que permite o uso de substâncias proibidas estreou em Las Vegas prometendo reinventar o esporte com recordes históricos, mas terminou com apenas uma marca quebrada

Eles prometeram tudo e entregaram quase nada. Os Enhanced Games (ou “Jogos Aprimorados" em português), competição esportiva que permite o uso de doping e substâncias proibidas, aconteceram neste domingo, 24, em Las Vegas, nos Estados Unidos, cercados por promessas grandiosas, de recordes mundiais a uma reinvenção do esporte e um novo capítulo da performance humana. No fim, o saldo foi bem menos histórico do que os organizadores previam: apenas um recorde quebrado.
O prêmio de US$ 1 milhão (R$ 5 milhões), prometido aos atletas que quebrassem recordes mundiais, teve apenas um vencedor: o nadador grego Kristian Gkolomeev. Nos 50m livre, ele completou a prova em 20s81 e superou por sete centésimos a marca registrada pelo australiano Cameron McEvoy no início deste ano, um tempo que, aliás, havia sido alcançado sem o uso de substâncias.
O feito, porém, não será reconhecido oficialmente já que Gkolomeev nadou sob efeito de substâncias proibidas em competições oficiais e usou um traje tecnológico banido nas principais competições internacionais.
Nem o doping garantiu vitória
Antes da estreia dos Enhanced Games, 37 dos 50 atletas participantes passaram três meses concentrados em um resort em Abu Dhabi. Durante esse período, viveram sob acompanhamento constante de médicos e especialistas. Eles seguiram protocolos personalizados que combinavam treinamento físico, monitoramento clínico e uso programado de substâncias voltadas ao ganho de performance, como, por exemplo, testosterona, esteroides anabolizantes, hormônio do crescimento (HGH), moduladores metabólicos, hormônios e estimulantes como Adderall.
Se a expectativa era provar que atletas “aprimorados” competiriam acima de qualquer referência conhecida, o resultado trouxe um roteiro menos conveniente. Alguns atletas preferiram competir limpos e tiveram desempenho melhor do que aqueles sob efeito do doping. Entre eles, o americano Fred Kerley venceu os 100 metros rasos. A velocista Tristan Evelyn levou o ouro nos 100 metros femininos. Já Hunter Armstrong venceu nos 50m costas.
A fala de Evelyn após a vitória resumiu o desconforto do momento: “Isso prova que vencer exige mais do que química”. Sem querer, ela contrapôs a principal narrativa do evento. Porque se os Enhanced Games nasceram para defender que substâncias podem ampliar a capacidade humana de forma decisiva, a competição mostrou que substâncias sozinhas não são garantias de melhor desempenho físico.
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A presença brasileira em Las Vegas
O Brasil também marcou presença na competição com o nadador Felipe Lima. Aos 41 anos, o ex-atleta olímpico saiu da aposentadoria para disputar os Enhanced Games. Dono da prata nos 50m peito no Mundial de Gwangju, em 2019, e bronze nos 100m peito no Mundial de Barcelona, em 2013, Felipe construiu uma carreira consolidada dentro da natação brasileira e internacional antes de competir em Las Vegas.
"Eu senti que meu sono melhorou e sinto mais energia", comentou o atleta sobre o uso das substâncias em um vídeo publicado às vésperas da competição. Ao Fantástico, ele afirmou que o Enhanced Games poderia “mudar a história da performance humana”.
Na piscina, Felipe disputou os 100 metros peito contra outros três atletas e terminou na terceira colocação. A vitória ficou com o americano Cody Miller. Nenhum dos competidores, no entanto, conseguiu quebrar recorde na prova.
O esporte como vitrine do biohacking
Durante o evento, telões espalhados pela arena exibiam ao público os protocolos adotados pelos atletas. Entre uma prova e outra, apareciam na tela níveis de testosterona, hormônio do crescimento, eritropoietina (EPO) e estimulantes, transformando o uso de substâncias, normalmente tratado como infração esportiva, em parte central do espetáculo.
Termos como longevidade, biohacking, reposição hormonal, recuperação muscular, peptídeos e performance máxima já movimentam bilhões de dólares no mercado global. Há algum tempo, esse universo deixou de pertencer exclusivamente ao esporte profissional e passou a ocupar também os mercados de bem-estar, saúde preventiva e estética.
Esse ecossistema estava presente em peso em Las Vegas. Ao redor das piscinas e bastidores da competição, circulavam investidores da biotecnologia, empresários do setor wellness, médicos, criadores de conteúdo fitness e defensores da chamada otimização humana, como Joe Rogan e Bryan Johnson.
Os jogos também contaram com alguns patrocinadores poderosos. Entre eles, 1789 Capital (fundo do filho de Donald Trump) e Peter Thiel (empresário bilionário e ativista político conservador).
Pouca entrega
Nas provas, porém, o resultado ficou aquém do discurso. Sem a sequência de recordes prometida e com performances mais discretas do que o esperado, os Enhanced Games terminaram mais como um experimento de mídia e marketing do que uma ruptura concreta no esporte de alto rendimento.
Isso não significa que o evento tenha passado despercebido, no entanto. Pelo contrário: a competição mobilizou críticas, dividiu atletas, provocou debates sobre ética esportiva e dominou parte das conversas online nos últimos dias.
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