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Estivemos no país onde o carro deixou de ser definido por potência para se tornar um dispositivo inteligente sobre rodas – e onde o Brasil está inserido nisso

PEQUIM – A indústria automotiva mundial atravessa, em 2026, sua transformação mais profunda desde a invenção da linha de montagem por Henry Ford. O epicentro desta revolução não está mais em Detroit ou Wolfsburg, mas em hubs tecnológicos como Shenzhen e Hangzhou.
O Salão de Pequim 2026, ou oficialmente o 18º Auto China, consolidou-se como o palco definitivo dessa transição. O que se observa hoje é uma indústria que deixou de competir apenas por preço ou cópias de design para liderar a vanguarda tecnológica, a experiência do usuário e a eficiência produtiva.

A China é hoje o país que mais domina a produção de veículos eletrificados. Ela é quem dita as normas de sofisticação e automação fabril, enquanto o restante do mundo tenta acompanhar.
Os números sustentam esse domínio. Em 2025, a China exportou 8,3 milhões de veículos, o que representa um crescimento de 30% em relação ao ano anterior. Esse volume é mais do que o dobro dos 4 milhões embarcados pelo Japão, que ocupou o topo do ranking global por décadas antes da superação chinesa há dois anos.
O vigor não é apenas externo. A China fechou 2025 com 34,5 milhões de unidades produzidas.
O mercado doméstico chinês apresenta um fenômeno de “sentimento patriótico”, onde o público local prioriza marcas nacionais que oferecem conectividade e mimos tecnológicos superiores aos das gigantes tradicionais europeias e americanas.
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Visitar o Salão de Pequim hoje é presenciar estandes de marcas locais lotados, enquanto fabricantes tradicionais lutam para atrair a mesma atenção com modelos que parecem pertencer a uma era anterior.
O mercado automotivo chinês atual é um mosaico complexo que vai de gigantes de volume a marcas de nicho ultra tecnológico. No topo do ranking de influência global está a BYD, que continua sua expansão agressiva com investimentos massivos. No Brasil, o complexo de Camaçari, na Bahia, simboliza essa força, com planos para atingir uma capacidade de 300 mil unidades anuais até 2030.

Mais que vender carros, porém, a marca vai além. Ela domina a cadeia de suprimentos, especialmente a tecnologia de baterias (do tipo Blade, usadas por marcas concorrentes). Isso lhe confere uma vantagem competitiva quase inalcançável por montadoras que ainda dependem de fornecedores externos para componentes críticos.
Logo em seguida, a Geely demonstra como a estratégia de parcerias e aquisições pode transformar uma empresa local em um conglomerado global. Através de sua participação na Renault do Brasil e da gestão de marcas como Volvo e Zeekr, por exemplo, a Geely utiliza plataformas compartilhadas para ganhar escala e sofisticação.
Outro player fundamental é a GWM, que se diferencia pela adaptação aos mercados locais. O desenvolvimento do Tank 300 como o primeiro veículo híbrido plug-in flex do mundo, por exemplo, ilustra como a engenharia chinesa passou a respeitar as particularidades energéticas de países como o Brasil, unindo a eficiência elétrica à infraestrutura de biocombustíveis existente.
Marcas como BAIC e GAC também emergem como potências de volume. A BAIC, figurando entre as dez maiores da China, prepara uma entrada robusta no mercado sul-americano. A GAC, por outro lado estabelece parcerias estratégicas para produção local em Goiás – em parceria com a Mitsubishi, em Catalão.
No segmento de luxo e alta tecnologia, nomes como Nio e Xiaomi redefinem o que se espera de um automóvel. A Xiaomi, vinda do setor de eletrônicos, implementou fábricas com níveis de automação que beiram o absoluto. Assim, elas integram o carro ao ecossistema digital do usuário de forma fluida.
Já a Nio foca em luxo executivo e inovações como a troca rápida de baterias e sistemas de suspensão inteligente que garantem, assim, um nível de conforto térmico e acústico sem precedentes.

A força do mercado chinês repousa sobre pilares estruturais que o Ocidente negligenciou por anos. O primeiro deles é a verticalização produtiva. Enquanto as montadoras tradicionais se tornaram montadoras de peças fabricadas por terceiros, empresas chinesas como a Leapmotor produzem internamente até 65% de seus componentes.
Além de motor e a transmissão, ela verticalizou softwares, sistemas de entretenimento e até componentes estruturais. Essa independência garante um controle de custos rigoroso e uma agilidade no desenvolvimento de novos produtos. Ultimamente, é o que reduz o ciclo de lançamento de cinco anos para menos de dois.
O segundo pilar é a transição para o chamado “Veículo Definido por Software”. Na visão chinesa, o carro deixou de ser uma máquina térmica para se tornar um dispositivo inteligente sobre rodas. Assim, o valor agregado migrou do torque e da potência para a interface do usuário e a inteligência artificial.
No mercado atual, itens como telas gigantescas que percorrem todo o painel e realidade aumentada são padrões de série, e não opcionais de luxo. Isso para não falar de reconhecimento facial ou inteligência artificial generativa que conversa com os passageiros.
Essa perspectiva transforma o automóvel em um terceiro espaço de convivência, entre a casa e o trabalho, focado integralmente no bem-estar e na produtividade.
A inovação em autonomia e carregamento também resolve os principais entraves à eletrificação. A China detém atualmente mais de 50% das patentes mundiais relacionadas a baterias de veículos elétricos.
Tecnologias como baterias de estado sólido e sistemas de carregamento ultrarrápido permitem que o usuário recupere centenas de quilômetros de autonomia em poucos minutos. Além disso, a tecnologia Reev (Range Extended Electric Vehicle) presente, por exemplo, na Leapmotor, utiliza um motor a combustão apenas para gerar energia para as baterias.
Essa solução serve inclusive como uma ponte para mercados com infraestrutura de recarga ainda em desenvolvimento, caso do Brasil.
O impacto dessa força chinesa no Brasil é estratégico. Em 2025, o país se consolidou como o quinto maior comprador de veículos fabricados na China. No entanto, o modelo baseado puramente em importação está chegando ao fim.
O aumento progressivo do imposto de importação para elétricos e híbridos, que atinge 35% em julho de 2026, reforçou um posicionamento tático. Parte das as marcas chinesas que vieram para cá quer vender importados no Brasil e também produzir localmente. Esse movimento se acelera pelo Programa Mover, do Governo Federal, que incentiva a descarbonização e a inovação tecnológica com créditos financeiros.
O volume de investimentos anunciados é expressivo. Se estimam US$ 7,4 bilhões no Brasil até o fim desta década pelas fabricantes chinesas e seus parceiros locais. Para efeito de comparação, esse valor representa um terço de todo o investimento planejado por toda a indústria automotiva instalada no país no mesmo período.
O resultado será uma capacidade instalada superior a um milhão de veículos por ano em solo brasileiro, distribuída em dez linhas de produção diferentes. A BYD na Bahia, a GWM em São Paulo e as parcerias da Leapmotor com a Stellantis em Pernambuco (focada na montagem de modelos elétricos e com extensor de autonomia Reev), a GAC com a HPE (Mitsubishi) em Catalão e Geely com a Renault, no Paraná, são os players dessa nova geografia industrial que busca abastecer o mercado interno e transformar o Brasil em um hub de exportação para a América Latina.
Omoda & Jaecoo devem iniciar sua produção nas instalações da Jaguar Land Rover em Itatiaia (RJ) no próximo ano. A Caoa Chery, por outro lado, já abriu um novo ciclo de investimentos em sua planta em Anápolis (GO).

O mercado automotivo brasileiro de 2026 vive o que Ricardo Roa, sócio-líder do setor de automotivo da KPMG, denomina de “guerra da pizza”. Com o surgimento de novas marcas e modelos a cada semestre, a disputa por cada ponto percentual de mercado tornou-se feroz.
A “pizza”, ou o volume total de vendas, não cresce na mesma proporção que o número de competidores. Isso obriga as fabricantes tradicionais a uma escolha difícil: ou buscam parcerias tecnológicas com os próprios chineses, como visto no acordo entre Stellantis e Leapmotor, ou enfrentam uma perda progressiva de relevância.
Para o consumidor, essa competição é bastante benéfica. A régua de qualidade e tecnologia subiu de forma irreversível. Carros que antes eram considerados básicos agora precisam oferecer conectividade avançada, segurança ativa e eficiência energética para serem considerados competitivos.
O automóvel deixou de ser definido por cavalos de potência para se tornar uma plataforma de serviços e conveniência. Aquelas empresas que não conseguirem internalizar a agilidade do desenvolvimento de softwares e a sofisticação da experiência na cabine, portanto, correm o risco de se tornarem meras fabricantes de “ferragem” para sistemas operacionais de outras montadoras.
O Salão de Pequim 2026 provou que o ritmo do mercado agora é ditado pelo Oriente. Enquanto isso, o resto do mundo corre para não ser atropelado pela velocidade da nova indústria.
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