O próximo Samba: o tênis japonês de R$ 3 mil que pode destronar os modelos mais saturados
O Onitsuka Tiger, eternizado por Uma Thurman em Kill Bill virou souvenir fashion entre brasileiros que visitam o Japão

É quase impossível abrir o TikTok ou caminhar por bairros como Ipanema, Jardins ou Pinheiros sem cruzar com um par de Adidas Samba ou Adidas Gazelle. Os dois modelos da Adidas dominaram o street style global e praticamente definiram a estética sneaker dos últimos dois anos: retrô, slim e esportiva sem exageros. Agora, porém, um outro tênis começou a ocupar esse espaço: o Onitsuka Tiger.
O modelo Mexico 66, da marca japonesa, virou presença frequente nos looks de insiders de moda, criadores de conteúdo e turistas brasileiros recém-chegados do Japão. O sneaker, que se transformou em febre nos anos 2000 por causa de Kill Bill, parece condensar vários movimentos culturais do momento: o fascínio crescente pela estética japonesa, o cansaço da saturação do Samba e a busca por peças que ainda preservem certa sensação de descoberta.
Dados do Google Trends mostram que o interesse pelo termo “Onitsuka Tiger” mais do que dobrou no Brasil nos últimos 12 meses, com crescimento de aproximadamente 138%. Operada de forma independente dentro da ASICS, a marca saltou de 9,1 bilhões de ienes (R$ 289 milhões) em vendas em 2011 para 95,4 bilhões de ienes (R$ 3 bilhões) em 2024, segundo a Nippon Communications Foundation. Ao mesmo tempo, acelerou sua expansão internacional com lojas em cidades como Paris, Londres e Milão.
Um tênis criado no pós-guerra japonês
A história do Onitsuka Tiger começou muito antes das redes sociais. Em 1949, o empresário japonês Kihachiro Onitsuka fundou a marca com um objetivo bastante específico: criar calçados esportivos capazes de estimular e reconstruir o espírito da juventude japonesa no pós-guerra.
Anos depois, a empresa lançaria aquele que se tornaria seu modelo mais emblemático. Desenvolvido em 1966 para as seletivas olímpicas dos Jogos da Cidade do México, o Mexico 66 apresentou pela primeira vez as famosas “Tiger Stripes”, as listras laterais que mais tarde se transformariam na assinatura visual da marca.
Embora nunca tenha alcançado o mesmo nível de popularidade global da Nike ou da Adidas, o tênis atravessou décadas mantendo uma aura cult. Diferentemente de sneakers hipercomerciais, o Mexico 66 permaneceu ligado a cenas mais alternativas e fashionistas, especialmente no início dos anos 2000.
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Com o passar dos anos, a empresa se consolidou no universo esportivo asiático e, mais tarde, se fundiu a outras companhias japonesas para formar a ASICS, gigante esportiva conhecida globalmente por seus tênis de corrida. O nome ASICS, inclusive, vem da expressão em latim Anima Sana In Corpore Sano — “mente sã em corpo são”.


O efeito Kill Bill
O grande ponto de virada aconteceu em 2003, quando Uma Thurman apareceu usando o modelo amarelo e preto no filme Kill Bill. O figurino criado por Quentin Tarantino fazia referência direta ao macacão usado por Bruce Lee em Game of Death, outro momento histórico da cultura pop associado ao Onitsuka Tiger.
A partir dali, o Mexico 66 deixou de ser apenas um tênis esportivo vintage e virou objeto fashion. Duas décadas depois, o imaginário continua forte. O modelo amarelo ainda aparece constantemente em vídeos de moda, fóruns de sneakers e conteúdos nostálgicos sobre os anos 2000. No entanto, o revival atual parece menos ligado ao cinema e mais conectado ao desejo contemporâneo por peças com aparência retrô, identidade forte e certa discrição cool.

O “próximo Samba”
Hoje, muita gente na moda descreve o Onitsuka Tiger como “o próximo Samba”. E existe um motivo bastante claro para isso. Assim como os modelos da Adidas, o Mexico 66 aposta em uma silhueta fina, sola baixa e estética esportiva mais limpa. Ainda assim, o Onitsuka ocupa um território menos saturado — e isso importa muito no consumo de moda atual.
Existe também uma diferença estética importante entre eles. O Samba e o Gazelle se conectam fortemente ao universo do futebol europeu e ao sportswear clássico alemão. Já o Onitsuka Tiger carrega um visual mais ligado à moda asiática contemporânea, ao design minimalista japonês e a uma estética vintage menos óbvia.
O Japão virou o novo epicentro de desejo
Parte importante da explosão recente do Onitsuka Tiger no Brasil passa diretamente pelo turismo. Nos últimos anos, o Japão se transformou em um dos destinos mais desejados entre brasileiros interessados em moda, gastronomia e cultura pop, especialmente depois da flexibilização do visto para brasileiros em 2023.
Dados da Civitatis, plataforma global especializada em experiências turísticas, indicam que as reservas feitas por brasileiros para o país asiático cresceram mais de quatro vezes no primeiro semestre de 2025, em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Ao mesmo tempo, vídeos de viagem para Tóquio passaram a dominar plataformas como TikTok e YouTube. Nesse contexto, o Mexico 66 virou quase um souvenir fashion obrigatório. Em bairros como Shibuya e Ginza, as lojas da marca frequentemente aparecem cheias de turistas estrangeiros.
O fluxo internacional ajudou diretamente no crescimento global da Onitsuka Tiger, que passou a investir ainda mais em lojas-conceito e posicionamento premium. Os espaços usam o amarelo característico da marca como base e incorporam materiais e elementos japoneses para criar uma experiência mais imersiva.
A empresa também acelerou sua presença internacional. Em julho de 2025, inaugurou uma flagship de aproximadamente 1.500 metros quadrados na Champs-Élysées, em Paris. Mesmo nos Estados Unidos, mercado do qual a marca retirou suas lojas em 2023, a Onitsuka Tiger já planeja retornar em 2027.

Reposicionamento: de marca de tênis a marca de moda
O movimento reflete uma mudança importante de posicionamento. A Onitsuka Tiger deixou de operar apenas como uma marca de calçados e começou a se apresentar como um universo de lifestyle. Além dos sneakers, expandiu sua atuação para roupas, bolsas, acessórios e até fragrâncias, lançadas no fim de 2025. Em lojas de cidades como Tóquio e Xangai, cafés instalados dentro das flagships ajudam a reforçar essa experiência mais aspiracional.
Atualmente, a Onitsuka Tiger não possui lojas físicas oficiais nem operação própria de e-commerce no Brasil. Ainda assim, é possível importar pares pelo site internacional da marca, com preços a partir de R$ 995 sem frete e taxas de importação, ou encontrar modelos em plataformas de luxo como a Farfetch, onde alguns pares ultrapassam os R$ 3 mil.
Talvez o mais interessante sobre o novo momento do Onitsuka Tiger seja justamente o fato de que ele nunca pareceu completamente mainstream. Mesmo em ascensão, o sneaker ainda preserva uma aura de “quem conhece, conhece”. E isso virou um ativo poderoso na era das tendências aceleradas.
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