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Em sua 8ª edição, Feira de Arte de Goiás confirma força do mercado de arte brasileiro fora do eixo Rio-São Paulo, bem como um colecionismo com suas próprias particularidades

"Se a arte continuar dependendo de São Paulo, ela encolhe.” É algo que eu tenho escutado muito nos bastidores. Entre um mercado extremamente especializado e, por sua vez, igualmente saturado, o movimento de feiras de arte fora do tão conhecido eixo Rio-São Paulo era uma questão de tempo. E de sobrevivência.
Grandes feiras, como a SP-Arte, são caras, exigem uma infraestrutura e um sistema de operações que muitas galerias menores não conseguem abraçar. Até para as maiores, que hoje investem em artistas emergentes cujo “ticket”, como se apelidou o preço de venda, é mais baixo, precisam pensar em quantidade pra que a participação seja financeiramente viável.

Isso gera um problema: conquistar novos colecionadores, gente que está começando a colecionar, entendendo como e o que gosta na arte a ponto de comprar. E muitos não vão gastar grandes cifras, agora no começo. E se feiras ficam cada vez mais caras de participar, como negócio, muitas galerias não vão levar artistas nessa faixa de preço.
É dessa necessidade que outras feiras surgem. E no caso de um país do tamanho do Brasil, a questão geográfica também. Articular e mobilizar outras capitais dentro de um mercado que já existe, não só é financeiramente viável, como permitiu uma participação mais ampla de outras artes, artistas e conceitos de arte. Isso faz o mercado mais inclusivo, mais representativo. E isso é bom para os negócios.
A Feira de Arte de Goiás abriu sua 8ª edição. Entre os dias 13 a 17 de maio, o Centro Cultural Oscar Niemeyer abrigou cerca de 50 expositores, entre galerias, espaços culturais e coletivos independentes.
Mais que feira em si, é importante pensar no movimento que o evento cria, nas iniciativas, exposições, shows, etc. Em Goiânia não foi diferente. Entre a feira agropecuária, que coincide em data, a cidade esteve movimentada.
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São momentos como a abertura da exposição Essa Grande Liberdade no Centro Cultural da UFG, por exemplo. Com a curadoria de Paulo Duarte-Feitoza, mostra reúne mais de 60 artistas LGBTQIAPN+ do Goiás em uma historiografia dos movimentos identitários e artísticos desde a parada LGBT de 1996, uma das primeiras no Brasil. Outra mostra notável é Espaço Íntimo, com fotografias de Alair Gomes. Uma colaboração da Galeria Tato com a Casa Jacobina.
A semana também marcou a inauguração do ateliê coletivo Jatobá Nascente. Constituído por seis artistas formados pelo Sertão Negro, projeto de vivencia e escola de arte idealizado por Dalton Paula, o espaço segue o trabalho a filosofia integrativa do Sertão. Localizados lado a lado, esse complexo é um visita obrigatória a quem tem pensado em outras formas de produzir ou vivenciar arte.
Mas o que tudo isso tem a ver com a feira, afinal? Tudo. Uma feira depende da formação de um mercado para que seja viável, atrativa e duradoura. Arte precisa de uma sustentação cultural que eduque seu valor pra um publico consumidor. Colecionismo depende de dinheiro, consumir arte depende de acesso. Um feira precisa dos dois.
Ainda mais uma feira relativamente nova, numa capital afastada do centro do mercado. Atrair público, patrocinadores, galerias e comunicadores é criar um mercado financeiramente viável. De nada adianta criar oferta, sem formar quem vai suprir essa demanda.
Com espaço expandido, essa edição se organizou em diferentes setores, separando galerias mais estabelecidas, galerias de pequeno porte e um espaço dedicado a coletivos independentes. Facilitando a circulação e o acesso aos estandes, a feira ficou mais agradável de visitar, ainda que a sinalização de cada espaço tenha deixado a desejar.
O trunfo maior é a entrada gratuita. Amplamente divulgada, uma feira que se pretende organizar um mercado precisa de todos os atrativos possíveis. Num país onde a cultura não é incentivada, voltamos ao ponto da formação de público como ponto essencial de sustentabilidade desse mercado que está sendo criado, ao mesmo tempo.
Outro ponto essencial, portanto, são falas e painéis onde caráter educativo se faz presente de fato. Toda feira tem. E, talvez, seja uma das iniciativas que realmente tem um impacto social: difundir e trocar conhecimento, percepções ou, inclusive, abrir um espaço de discussão de arte que nem sempre existe no mercado como prática.
Um diferencial dessa edição foi a qualidade do setor de coletivos. Com trabalhos mais acessíveis, de diferentes tamanhos, linguagens e formatos, esse sucesso se concretizou inclusive em vendas: arte boa, feita em Goiás, para todo gosto e todo bolso.
Quando se fala em articulação de mercado em rede, as várias feiras com diferentes tamanhos e custos simboliza justamente a a inserção de novos talentos – neste caso, uma nova geração de artistas dando um baile em muitos espaços com nomes renomados. Curioso e positivo.
Novos talentos também marcaram a participação do curso de Artes Visuais da UFG, com estande próprio na feira. É, sobretudo, um pilar da profissionalização dos novos artistas: saber como uma feira funciona e como o mercado se organiza. Aprender a ler uma feira como termômetro do que se entende como arte atualmente, além de introduzir networking, precificação, relações públicas, tudo isso é formação.

Um novo mercado foi criado, isso não há dúvidas. O próprio aumento do tamanho da feira e uma maior participação de colecionadores na sua organização é prova disso. Mas outro termômetro foi as galerias de outros estados trazendo uma seleção mais pensada, buscando identificar o que faz sentido pro mercado goiano.
Algumas, acertaram. Outras, acabaram caricatas. Mas houve esforço. Houve pensamento. Faltou pesquisa de mercado para entender que, ainda que um novo mercado exista, o novo colecionador goiano é diferente do novo colecionador do sudeste.
Quando se fala em novo colecionismo, se entende como um colecionador mais ligado a internet, muitos profissionais liberais que decidiram colecionar arte. É gente com acesso a informação, ainda que nem todos frequentem o meio das artes. E ainda que o perfil, como arquétipo, seja comum, cultura local e realidade social é um dado significativo.
Frequentar feiras, exposições e a própria oferta cultural de São Paulo moldam o gosto e o entendimento de valor de forma diferente de outros lugares. Goiânia é atravessada por esses fatores. Trata-se de um público que gosta de arte e reconhece os grandes nomes, mas que ainda se arrisca pouco em grandes compras. Que compra do artista que conhece. Resumindo, o novo colecionador goiano, ainda que tenha o mesmo perfil do paulista, tem um gosto diferente e um entendimento de custo beneficio também.
Com menos dependência geográfica de São Paulo, o mercado ficou mais diverso. Apesar da dependência financeira contínua da capital paulista, o que se viu foram novos artistas, novos trabalhos, o regionalismo sendo valorizado e uma circulação maior da arte tem fomentado muitas carreiras. E isso sim melhora o mercado da arte em todas as suas camadas.
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