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LADO B

Além do Malbec e Cabernet: os vinhos tintos que os sommeliers de São Paulo querem que você conheça

De uma variedade vulcânica da Sicília a uma casta quase esquecida da América do Sul, oito sommeliers revelam seus segredos de prateleira

Além de Merlot e Cabernet Sauvignon: oito sommeliers revelam seus segredos de prateleira
Além de Merlot e Cabernet Sauvignon: oito sommeliers revelam seus segredos de prateleira - Imagem: Divulgação

Quando falamos em vinho, algumas uvas logo pipocam na mente: Merlot, Cabernet Sauvignon e Malbec seguem entre as variedades mais presentes nas prateleiras, no imaginário e no repertório brasileiro. E não é à toa: segundo a Organização Internacional do Vinho (OIV), cerca de 50% dos rótulos comercializados no Brasil são do Chile e da Argentina, países onde o trio domina as vinícolas.

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Juntam-se a elas, Cabernet Franc, Tannat e Pinot Noir, cultivares também muito plantadas por aqui, assim como a Tempranillo, que vem crescendo em área de plantio, como mostram dados da Embrapa. Não é uma crítica, afinal todas produzem ótimos vinhos.

Segundo a crítica britânica Jancis Robinson, uma das vozes mais influentes do universo do vinho, existem cerca de 10 mil variedades de uvas no mundo
Segundo a crítica britânica Jancis Robinson, uma das vozes mais influentes do universo do vinho, existem cerca de 10 mil variedades de uvas no mundo

Mas quem começa a esticar a curiosidade um pouco além disso, descobre que existe um mundo inteiro de castas que poucas vezes chegam aos mercados, às cartas mais tradicionais ou às conversas entre amigos enquanto provam algumas garrafas.

Segundo a crítica britânica Jancis Robinson, uma das vozes mais influentes do universo do vinho, existem cerca de 10 mil variedades de uvas no mundo. É isso mesmo. Em Wine Grapes, obra considerada uma referência para profissionais e entusiastas, ela chegou a catalogar 1.368 delas.

Ao Seu Dinheiro, oito sommeliers de São Paulo toparam mostrar um pouco do que está fora desse circuito, indicando uvas fora do radar que merecem, e muito, uma chance.

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As joias escondidas do Jura

Mesmo entre consumidores habituados ao vinho, o Jura continua sendo uma região cercada por certo mistério. Localizado entre a Borgonha e a fronteira suíça, o pequeno território francês abriga algumas das castas mais peculiares do país, muitas delas praticamente desconhecidas fora dos círculos especializados.

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Entre as escolhas de Julia Derado, diretora de vinhos do Rosewood São Paulo, está a Trousseau, uma variedade que dificilmente aparece entre os nomes mais lembrados quando o assunto é vinho francês. “Adoro essa uva. É uma casta delicada, mas com muita personalidade e camadas de sabor e aromas, com referências de caça, floresta e castanhas”, afirma.

Ficou curioso? A sommelier indica o Trousseau 2023 da Domaine Tissot, referência em produção de vinhos biodinâmicos e naturais. “Carnes leves são ótimas opções para harmonizar”, completa.

Trousseau 2023
Trousseau 2023

Bruno Sias, gerente comercial da Cellar Cave, escolheu a Poulsard, também chamada de Ploussard em algumas localidades da região. “É uma das castas mais enigmáticas do Jura. Produz vinhos sedutores, com frescor, delicadeza e muita personalidade”, diz.

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Ploussard Fertans 2020
Ploussard Fertans 2020

Segundo o profissional, os aromas costumam lembrar morango e cereja frescos, acompanhados por um discreto toque terroso. Os taninos aparecem de forma suave, enquanto a acidez ajuda a dar ritmo ao vinho. “Funciona muito bem com prosciutto, salame e risotos de cogumelos”, afirma.

Côtes du Jura Poulsard 2023
Côtes du Jura Poulsard 2023

Entre os rótulos que recomenda, estão o Côtes du Jura Poulsard 2023, da Croix & Coubert (R$ 595, na Cellar Vinhos), e dois exemplares do Domaine Fumey Chatelain: Ploussard Fertans 2020 (R$ 396, na Cellar Vinhos) e Brouille-Menage Ploussard (R$ 445, na Cellar Vinhos).

Brouille-Menage Ploussard
Brouille-Menage Ploussard

Nas encostas do Etna

Poucos lugares moldam tanto um vinho quanto o Etna e é na terra desse vulcão siciliano que a Nerello Mascalese encontrou sua melhor versão. A mistura de altitude, sol mediterrâneo e solo vulcânico transformou a uva em uma das grandes apostas da Itália, fama que ainda se restringe por lá.

“É uma uva potente, com acidez vibrante e um toque de mineralidade vulcânica da Sicilia”, diz Julia Derado, fã assumida. A indicação da sommelier é o Ghiaia Nera Etna Rosso (R$ 413,38, na Mistral Vinhos), da vinícola Tasca d'Almerita. “Um vinho médio corpo, porém com final longo e persistente. Harmoniza bem com massas ao molho de tomate e burrata”.

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Ghiaia Nera Etna Rosso
Ghiaia Nera Etna Rosso

A Espanha além da Tempranillo

Embora a Tempranillo continue sendo a grande referência do vinho espanhol, diversas outras castas vêm chamando a atenção de sommeliers e produtores que procuram estilos menos previsíveis. Uma delas é a Bobal. Cultivada principalmente em Utiel Requena e Manchuela, ela permanece relativamente desconhecida fora da Espanha, apesar da longa tradição que possui em seu país de origem.

“Gosto dessa casta pela rusticidade elegante que ela entrega e, combinada com a acidez fresca, tem como resultado um vinho com muita personalidade”, afirma Francine Thays Ferreira Manoel, sommelière do Bardega Wine Bar.

Segundo ela, a Bobal costuma produzir vinhos de cor intensa, com fruta negra fresca e ervas em boca. Em barrica, pode ganhar nuances de especiarias. Francine indica o Parajes de Cabriel (R$ 209,90, na Curadoria Vinhos), produzido na região vinícola Utiel Requena. “É um vinho que traz frescor e elegância, fugindo dos tintos pesados.”

Parajes de Cabriel
Parajes de Cabriel

Outro rótulo que sugere é o Got (R$ 139,90, na Curavino), da vinícola Gratias, elaborado com fermentação por leveduras indígenas e estágio em ânforas de barro. “É um vinho que tem uma expressão de frutas vermelhas e negras bem frescas, notas florais delicadas, taninos macios e muita personalidade”.

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Got
Got

Ainda na Espanha, outra variedade lembrada pelos especialistas foi a Mencía, cultivada principalmente em Bierzo e Ribeira Sacra. Julia Derado a descreve como uma das uvas mais interessantes do país. “Tem muito frescor, frutas como framboesa e amora, taninos finos e é muito fascinante no paladar”, afirma. O rótulo indicado que indica é o En El Camino (R$ 249,90, na Divvino), da Michelini i Mufatto

En El Camino
En El Camino

Outra espanhola lembrada pelos entrevistados foi a Graciano, escolhida por Valéria Almeida, do Refúgio Jardins. Embora raramente apareça sozinha, a variedade contribui com estrutura, aromas e capacidade de envelhecimento em alguns dos melhores vinhos de Rioja.

Portugal além da Touriga Nacional

Ao mesmo tempo em que seus vinhos ocupam boas fatias do mercado internacional, Portugal vê muitas de suas castas ainda relativamente desconhecidas fora do país.

Para Ezequias Almeida, sommelier da Mercearia da Praça, essa é uma das maiores riquezas da viticultura portuguesa. Sua primeira escolha foi a Alfrocheiro, variedade tradicional do Dão. “Ela traz um aroma frutado, notas de especiarias e excelente acidez, que ajuda na harmonização. Eu diria que tem uma expressão que lembra a Pinot Noir”.

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A comparação não surge por acaso. Segundo ele, a casta costuma produzir vinhos marcados pela fruta fresca, boa acidez e uma estrutura mais delicada do que muitos consumidores associam aos tintos portugueses. “Vai muito bem com uma fraldinha, com bacalhau à lagareiro e até com uma boa tábua de queijos e enchidos de média cura.”

A segunda escolha de Ezequias foi a Trincadeira, casta pouco vista dos vinhedos do país, mas que encontra sua grande expressão no Alentejo, especialmente em Vidigueira, conta o sommelier.

“Eu diria que é uma uva um pouco rebelde, não é uma casta facilmente domada. Mas, quando consegue expressar todo o seu potencial, entrega resultados fabulosos. Geralmente, origina vinhos mais firmes, tânicos e secos, que pedem uma carne com mais gordura, capaz de equilibrar essa estrutura”, diz.

A verdadeira América do Sul

Muito antes de a Malbec se transformar em símbolo da Argentina, outra variedade já fazia parte da história do continente. A Criolla Chica chegou à América do Sul com os colonizadores espanhois mas, com o passar do tempo, perdeu espaço para castas internacionais. Nos últimos anos, porém, voltou a despertar interesse entre produtores e consumidores. Manoel Lima, sommelier do Marena, vê nessa redescoberta como algo bastante natural.

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“São vinhos refrescantes, modernos e de cor mais clara, que conversam muito bem com o que muita gente procura hoje.”

Segundo ele, os exemplares elaborados com Criolla Chica costumam apresentar aromas de frutas vermelhas frescas e um perfil super convidativo. O sommelier recomenda especialmente o Lavaque Criolla Chica (R$ 349, na World Wine), produzido na região argentina de Salta.

Lavaque Criolla Chica
Lavaque Criolla Chica

Na harmonização, prefere aves grelhadas, peixes mais gordurosos, como salmão, e massas com molhos leves.

Cara Sucia
Cara Sucia

A variedade também apareceu entre as escolhas de Julia Derado, que indica o Cara Sucia (R$ 117,90, na Curavino), da vinícola Durigutti. “É uma ótima opção de vinho leve, fluido, fácil de beber e muito delicado. Fica perfeito quando servido um pouco mais gelado. É um vinho versátil, ideal para harmonizar com vegetais assados, tapas e entradinhas.”

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A aposta brasileira chamada Marselan

Criada na França em 1961 pelo pesquisador Paul Truel, a Marselan nasceu do cruzamento entre Cabernet Sauvignon e Grenache Noir. O objetivo era reunir estrutura, resistência e expressão aromática em uma única uva.

Mais de seis décadas depois, ela começa a despertar interesse em diversas regiões produtoras, inclusive no Brasil. Humberto Lisboa, do Lelui Bar e Cozinha, acompanha essa evolução há cerca de vinte anos. “O que mais me encanta na Marselan é sua capacidade de unir potência e elegância.”

Para Lisboa, a variedade tem potencial para assumir um papel relevante na identidade do vinho brasileiro. “Acredito que ela poderá ter para os vinhos brasileiros uma importância semelhante à que a Merlot tem hoje.”

Diversas castas vêm chamando a atenção de sommeliers e produtores que procuram estilos menos previsíveis
Diversas castas vêm chamando a atenção de sommeliers e produtores que procuram estilos menos previsíveis

Sua principal referência é a Cave Antiga, de Farroupilha, considerada uma das pioneiras no trabalho com a Marselan no país. Dessa parceria nasceu também o LeLui Grande Escolha, elaborado com 75% de Marselan da safra 2025 e 25% de Tannat da safra 2023, com lançamento previsto ainda para este mês.

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