A febre do lámen em São Paulo: por que estamos tão obcecados com essa sopa japonesa?
Casas especializadas em lámen mais que dobraram nos últimos dois anos; o que explica a obsessão dos paulistanos por esse prato?

Basta a temperatura cair para as longas filas aparecerem. Se você mora em São Paulo, talvez já tenha notado que restaurantes especializados em lámen têm se multiplicado pela cidade.
Segundo Edilson Savaki, proprietário do Neko Lamen e conselheiro consultivo da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), o número de restaurantes especializados em lámen em São Paulo mais que dobrou entre 2024 e 2026, indo de cerca de 50 casas para mais de 100.
A comfort food queridinha dos paulistanos é servida fumegante, em porções generosas e com camadas de sabor que combinam caldo, massa, proteína e acompanhamentos diversos. Mas a pergunta que fica é: a sopa japonesa é a modinha gastronômica da vez ou veio para ficar?
Conheça o lámen, ‘sopa de macarrão’ que vem conquistando os paulistanos
O lámen (que você também pode encontrar como ramen, que é a grafia romanizada em japonês) nasceu na China. Porém, foi no Japão que ele se popularizou e ganhou a identidade que tem hoje.
- O prato ganhou fama principalmente depois da Segunda Guerra Mundial. Naquele momento, o Japão enfrentava uma escassez de arroz, enquanto o lámen era barato, nutritivo e saboroso. Em 1958, o empresário Momofuku Ando levou essa lógica ao extremo ao criar o Chicken Ramen, considerado o primeiro macarrão instantâneo do mundo. A invenção deu origem a uma indústria global e aproximou o prato da ideia de comida rápida e acessível.
Basicamente, trata-se de uma sopa de macarrão (men). No entanto, sua receita está longe de ser simples.

A massa de trigo é servida em um caldo quente cozido por horas, que pode ser feito à base de frango, porco, peixe ou legumes. Junto a ele, mistura-se o tempero base (ou tarê), molho concentrado que dá o sabor principal ao caldo.
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- Há três tarês principais: o shio (que é sal, em japonês), o shoyu (molho de soja) e o missô (pasta de soja fermentada que pode levar meses ou até anos para ser produzida).
E não acabou por aí. Para intensificar o aroma e o sabor, ainda se adiciona ao caldo o óleo aromático, camada de gordura que pode ser feita com alho, cebolinha, gengibre, gergelim e gorduras de origem animal, como banha de porco.
Depois disso, finaliza-se com os toppings, que geralmente incluem fontes de proteína, como fatias de porco cozidas lentamente (Chashu) e vegetais, como cebolinha picada e broto de bambu. Folhas de alga Nori, o Narutomaki (massa de peixe com espiral rosa) e o ovo cozido com gema mole marinado em shoyu (Ajitsuke Tamago) também são acompanhamentos clássicos.
Em dois anos, casas de lámen mais que dobraram em São Paulo

A primeira casa especializada em lámen chegou em São Paulo apenas no ano 2000: é o Aska, localizado na Liberdade. O restaurante era o único do tipo na capital paulista até 2008, quando abriu o Lámen Kazu, no mesmo bairro.
No entanto, foi apenas no pós-pandemia que as casas especializadas começaram a pipocar na cidade. Agora, aparecendo em diferentes bairros e faixas de preço.
O que explica esse boom?
O Brasil mantém uma relação histórica com o Japão: o país abriga a maior comunidade de descendentes japoneses fora do território asiático, estimada em mais de 2 milhões de pessoas.
Nesse sentido, avanço do lámen acontece em um terreno já favorável a culinária japonesa. De acordo com a Abrasel, há mais de 4 mil restaurantes japoneses na capital paulista. E segundo dados de 2025 da Seafood Brasil, a região da Grande São Paulo concentra 66% do mercado japonês do estado.
Pensando em valores, embora uma tigela de lámen costume sair na faixa de R$ 60 a R$ 80, o valor ainda fica abaixo do ticket de muitos restaurantes de sushi.
Somado a isso, o interesse crescente pelo Japão ajudou a transformar uma sopa antes restrita a comunidade japonesa em objeto de desejo entre jovens e curiosos em busca de uma experiência gastronômica “autêntica”.
“O consumo da cultura japonesa aumentou muito, e isso vem fomentando a procura”, afirma Edilson Savaki. Segundo o portal japonês PR Times, o Brasil é o nono maior consumidor animes no planeta.
Além do fator cultural, há uma razão econômica por trás da multiplicação de casas.
“O lámen permite trabalhar com uma matéria-prima relativamente barata — o macarrão —, mas com alto valor agregado já que o preparo envolve várias etapas, muitas vezes ingredientes importados e uma experiência de consumo diferenciada. Também não precisa de mão de obra especializada, basta seguir uma receita. Então é um mercado que tem rentabilidade. Por isso tem muita gente abrindo restaurantes”, explica Edilson Savaki. O restauranteur trabalhou quase duas décadas com sushi em São Paulo, e hoje, se dedica somente delivery com o Neko Lamen.

Negócio em expansão
A percepção aparece também no salão do Misoya, casa japonesa especializada em missô lámen e inaugurada na capital paulista em 2021, no bairro da Consolação.
“Incialmente, a clientela do restaurante era formada 70% por descendentes japoneses. Afinal, cinco anos atrás, ninguém sabia o que era lámen. Para muitas pessoas, não passava de um miojo. Durante um ano, fiquei na porta do restaurante explicando o que era o produto”, conta Márcio Koji Ikawa, proprietário da operação no Brasil.
De lá para cá, o cenário mudou. Segundo o empresário, a casa que começou atendendo de 20 a 30 pessoas por dia já chegou a receber 535 clientes. “Hoje, o percentual virou: apenas 30% da clientela vem da comunidade japonesa”, afirma.
O clima, claro, ajuda. Em dias frios, as filas costumam crescer. “Abaixou a temperatura para 25 graus e já fica lotado”, diz Edilson Savaki. Ainda assim, ele lembra que São Paulo tem uma dinâmica própria: “é uma capital gastronômica, então é diferente. Até sushi vende no frio.”
O lámen não depende da queda dos termômetros
Segundo o proprietário do Misoya, entre 2024 e 2025, o movimento no restaurante aumentou 50% durante o verão. Na comparação entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026, a alta no número de clientes foi de 40%.
“No Japão, é normal comer o lámen no calor”, diz Márcio, que morou por 20 anos na Terra do Sol Nascente. “No verão, aconselho a comer o prato apimentado, porque a pimenta funciona como um ar-condicionado natural”.
“O novo sushi?” O que esperar do lámen em São Paulo
Não há como prever o futuro. Mas os entrevistados concordam que o prato deixe de ser tratado como novidade e passe a ocupar um lugar mais estável no repertório gastronômico paulistano, tal como aconteceu com as casas de sushi.
“O crescimento tem sido grande nos últimos 10 anos, com aumento no número de casas de lámen e pedidos de franquias. Acredito que daqui a 15 anos, a quantidade de restaurantes poderá se igualar à de locais que servem sushi em São Paulo”, diz Ikawa. Savaki, por sua vez, aposta na diversificação. “O mercado de lámen em São Paulo está só no começo. Acredito que, no futuro, vai ter lámen japonês, chinês, coreano... Podem ter outros nomes, mas o conceito é similar.”
6 lámens para experimentar em São Paulo
NEKO LAMEN
MISOYA (R$ 60–80)
Endereço: R. Antônio Carlos, 324 - Consolação, São Paulo - SP, 01309-010
LAMEN ASKA (R$ 20–40)
Endereço: Rua Barão de Iguape, 260 - Liberdade, São Paulo - SP, 01507-000
LAMEN KAZU (R$ 60–80)
Endereço: R. Thomaz Gonzaga, 87 - Liberdade, São Paulo - SP, 01506-020
IKEMEN RAMEN (R$ 60–80)
Endereço: R. Dr. Rafael de Barros, 34 - Paraíso, São Paulo - SP, 04003-040
JOKEMPO RAMEN & OBENTO SHOP (R$ 40 - R$ 60)
Endereço: R. Gomes de Carvalho, 1168 - Vila Olímpia, São Paulo - SP, 04547-004
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