A Amsterdã, as batatas: um roteiro gastronômico para (tentar) guardar na memória
Entre um Van Gogh, um mercado de rua e um jantar numa estufa, a capital holandesa tem muita história para contar — e bastante coisa boa para comer

Vamos começar nosso dia em Amsterdã vendo as casas da Gouden Bocht, a famosa “Curva de Ouro” do canal Herengracht. Elas ajudam a entender por que tanta gente gosta de flanar por Amsterdã. São lindas fachadas, muito bem cuidadas, janelas enormes e pontes que dão vontade de parar para tirar mais uma foto, mesmo que o seu rolo da câmera já esteja lotado com 20 fotos parecidas.
No século 17, esse era um dos endereços preferidos dos moradores mais ricos da cidade. Era onde se construíam os palacetes, pois os terrenos eram maiores e permitiam construir casas mais largas, diferentes das casas pequenas e estreitas que se tornaram a marca de Amsterdã. O próprio nome Curva de Ouro, aliás não surgiu por acaso.
Uma coisa que vale a pena em Amsterdã é deixar espaço para o que aparece pelo caminho. Parte da graça da cidade está em passear sem muito compromisso: sentar num café, entrar numa livraria ou parar para comer alguma coisa só porque deu vontade. Sem aquela obrigação de cumprir roteiro.
Um café e um aviso
Dica do chef: é bom prestar muita atenção a uma pequena diferença de significado. Quem procura um café da manhã pode se confundir com a placa de um coffeeshop. No Dampkring, por exemplo, a especialidade é cannabis. O lugar aparece, inclusive, no filme Doze Homens e Outro Segredo. Se a ideia era pedir um espresso, convém conferir o endereço, para evitar ganhar outro expresso, um tíquete direto para Júpiter.
Um lugar que é um secret spot meu para o café da manhã é o Café Marcella, no Amstelveld. As mesas externas, debruçadas sobre o canal, já fazem a visita valer a pena. A localização, inclusive, convida a ficar um pouco mais. Dá para tomar café olhando o movimento dos barcos e fugir dos lugares turísticos lotados e óbvios. Uma coisa à qual vale sempre prestar atenção é se o público local frequenta o lugar. Aqui é o local para ver amsterdameses de verdade tomando seu cafezinho.
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- Café Marcella: Amstelveld 21
As batatas de Van Gogh, as batatas da Fabel
Ir à Holanda e não ver Van Gogh é como ir à Bahia e não ver o Pelô. O Museu Van Gogh (pronuncia-se “Vangô”) é muito lindo e recheado de obras do maior artista holandês. Indico demorar um pouco mais diante de Os Comedores de Batatas. O quadro mostra cinco pessoas em torno de uma refeição, sob a luz fraca de uma lamparina.
Com traços duros e cores escuras, Van Gogh queria mostrar a vida dos camponeses e a relação entre o trabalho e a comida. Aquelas pessoas comiam as batatas que haviam tirado da terra com as próprias mãos — mãos que chamam atenção na obra. A cena foi pintada em Nuenen, no interior dos Países Baixos, antes, portanto, da fase de cores mais vivas pela qual muita gente conhece o artista.
E, por falar em comedores de batatas, nessa região da Europa tudo tem batata. Depois dessa visita, a parada na Fabel Friet rende uma associação inevitável: seguimos comedores de batatas, mas agora com parmesão e maionese de trufa.
Pensei muito na cena do quadro quando vi trabalhadores modernos sentados na praça comendo batatas. Foi como ver um quadro fora do museu. Na pintura, a batata era o sustento de uma família. Na Fabel, por outro lado, virou uma das atrações gastronômicas da cidade.
A casa usa batatas da variedade Agria, cultivadas nos Países Baixos e cortadas diariamente. Dá para pedir com maionese clássica ou escolher combinações como cheddar e maionese picante. (Para quem acabou no coffeeshop em vez do Café Marcella, aliás, a Fabel é uma parada obrigatória.)
- Museu Van Gogh: Museumplein 6, 1071
- Fabel Friet: Runstraat 1, 1016
Para comer pelo caminho
A FEBO merece uma parada pela forma curiosa de comprar. É uma rede de fast-food diferente de tudo que você já viu: os salgados ficam em pequenos compartimentos com portas de vidro. O cliente escolhe, paga, abre a portinhola e pega o lanche.
Entre as opções estão, por exemplo, os bitterballen, pequenos croquetes de carne, e a frikandel, um tipo de salsicha também feita de carne. É rápido, simples e divertido.
Para continuar provando a comida local, o mercado Albert Cuyp, no bairro De Pijp, é muito legal. Dá para fazer um almoço indo de barraquinha em barraquinha, provando de tudo.
O arenque, chamado de haring, é o peixe mais típico da Holanda, servido com cebola e picles. Se nunca provou antes, peça um só, porque é aquele tipo de comida: ame ou odeie. Já o stroopwafel pode pedir em toneladas, sem medo: são duas camadas finas de waffle com uma calda de caramelo no meio. Feito na hora, quentinho, fica fácil entender a fila.
- FEBO: Leidsestraat 94
- Albert Cuyp: Albert Cuypstraat 101
Uma casa no canal
Amsterdã é uma cidade plana, o que favorece fazer tudo a pé. Mas, depois de tanto andar, o passeio de barco permite ver a cidade de outro ângulo e descansar as pernas. Alguns passeios são regados a bebidas e comidas e têm guias que conhecem bem a história da cidade.
Desse outro ponto de vista, fica mais fácil reparar nas pontes e nas casas-barco. Eu sempre penso: como será morar ali?
Depois das duas grandes guerras, a falta de espaço nas cidades e de casas para moradia fez esse uso crescer. Houve situações em que várias famílias pobres dividiam o mesmo barco. Hoje, morar na água pode custar bastante. Os preços, apesar de serem de casas em água doce, são bem salgados: algumas casas-barco saem por mais de 1 milhão de euros. Isso já dá uma ideia de quanto esse tipo de moradia mudou de perfil.
Depois de passear pelos canais, eu aconselho o Happy Bookieman, um sebo de livros antigos que, na verdade, é um bar disfarçado. Como o imposto para bares é alto, o dono fez o seguinte: na compra de um livro — que pode ser qualquer coisa, inclusive um manual de instruções de micro-ondas —, você “ganha de presente” uma bebida alcoólica. Assim, ele foge dos impostos e criou um dos segredos mais divertidos da cidade.
- Happy Bookieman: Herengracht 267A
Jantar na estufa
Para terminar o roteiro, vamos de alta gastronomia: o De Kas é um restaurante que funciona dentro de uma estufa. Muito do que se come lá é plantado ali dentro. Naturalmente, portanto, os vegetais são o centro de sua cozinha, mas tem peixe, carne... então, fique tranquilo.
É uma parada para reservar com antecedência e incluir no orçamento da viagem. Em setembro de 2026, o jantar de cinco etapas custa 86 euros (cerca de R$ 510) por pessoa; o de seis, 95 euros (cerca de R$ 565), sem bebidas. Depois das batatas fritas, dos salgados e das bancas do mercado, é bom sentar e deixar um grande chef de cozinha conduzir o jantar.
E, se ainda houver disposição, vale voltar aos canais. A Curva de Ouro continua lá, agora com outra luz. Talvez você tire mais uma foto parecida com as vinte da manhã. Em Amsterdã, isso acontece. Seja por falta de memória recente, seja só por amor à cidade.
- De Kas: Kamerlingh Onneslaan 3
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