R$ 3,3 bilhões na bolsa brasileira: o que o gringo viu e você perdeu?
A B3 voltou a chamar atenção do investidor estrangeiro graças a uma combinação de fatores externos e sinais domésticos que colocou o Brasil de volta na rota da diversificação

Quem olha para os juros e para o cenário fiscal do Brasil pode correr da bolsa brasileira, mas o investidor estrangeiro enxergou uma oportunidade — de novo. Diante de ações de tecnologia globais com preços esticados, o capital internacional promoveu uma rotação de portfólio em julho e injetou R$ 3,3 bilhões na B3. A atração foi motivada por múltiplos comprimidos e uma inflação local que finalmente começou a dar trégua.
Nos últimos meses, poucas teses dominaram tanto os mercados mundiais quanto a inteligência artificial (IA). A corrida desenfreada por ações de semicondutores e gigantes de tecnologia impulsionou índices globais a máximas históricas. Contudo, até as histórias de crescimento mais robustas precisam de uma pausa para respirar.
Segundo o Itaú BBA, o mês de julho marcou o início de uma recalibragem estratégica nos portfólios globais. Esse movimento ganhou força com uma correção relevante das ações de semicondutores.
Não se trata de um abandono do setor de tecnologia, segundo os analistas, mas de um ajuste de expectativas em busca de proteção e alocação mais equilibrada.
"A leitura predominante é que o movimento não representa uma deterioração da perspectiva de crescimento do setor [IA], mas uma reprecificação de expectativas após um período de valuations mais esticados", dizem Victor Natal e Mathias Dabdab Venosa, estrategistas de ações para pessoa física do Itaú BBA.
Em termos didáticos: a inteligência artificial continua promissora, mas os preços das ações atingiram patamares muito elevados, os tais valuations esticados. Para evitar a concentração excessiva em papéis caros, os grandes gestores internacionais saíram às compras pelo mundo em busca de ativos mais baratos e diversificados. Foi exatamente nesse movimento que a B3 capturou cerca de R$ 3,3 bilhões até o último dia 29 de julho.
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Ações baratas e setores tradicionais da bolsa
Como um país que enfrenta riscos associados aos juros elevados e à incerteza fiscal conseguiu atuar como esse polo de atração? A resposta reside na própria estrutura da bolsa brasileira.
Segundo o Itaú BBA, no processo de busca por maior diversificação, o Brasil voltou a aparecer como alternativa ideal para equilibrar carteiras saturadas de tecnologia.
"A bolsa brasileira segue negociando a múltiplos comprimidos [ou seja, com desconto] e oferece exposição a setores pouco correlacionados ao tema de tecnologia", afirma a dupla de estrategistas.
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O alívio doméstico: inflação e Selic
Paralelamente ao cenário externo favorável, o ambiente econômico interno começou a emitir sinais mais amigáveis. A inflação local mostrou desaceleração nas últimas leituras, o que reforçou as apostas do mercado em um novo corte da taxa Selic, atualmente em 14,25%, na reunião desta semana do Copom.
Essa trajetória mais comedida dos preços levou a equipe econômica do Itaú BBA a revisar as projeções para a taxa de juros.
"Nosso time macro passou a esperar juros ao fim do atual ciclo em 13,75% a.a., ante expectativa anterior de 14% a.a.. Embora seja uma mudança pequena no número, representa uma indicação positiva para a narrativa de ativos domésticos", diz o relatório.
A projeção de uma Selic em 13,75% a.a. ao fim de 2026 caminha em linha com o Relatório Focus divulgado pelo Banco Central. Embora a taxa permaneça em nível elevado, o teto mais baixo para o ciclo de juros alivia o custo de capital e melhora a atratividade dos ativos locais.
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