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Estudo do Goldman Sachs joga luz nas vendas recordes de carros elétricos e mostra como esse movimento pode mexer com quem tem exposição ao setor de petróleo e à Petrobras

Imagine que você decide comprar um carro elétrico não por convicção ambiental, mas porque a gasolina ficou cara demais. É isso que está acontecendo em escala planetária — e uma análise do Goldman Sachs explica as consequências desse movimento para o mercado de petróleo.
O ponto de partida é o conflito no Estreito de Ormuz, corredor marítimo por onde passa cerca de 20% do petróleo negociado no mundo.
Desde que a tensão se intensificou, em fevereiro de 2026, os preços dos combustíveis subiram — e os consumidores reagiram de um jeito que os analistas do banco não esperavam com tanta força: foram às concessionárias comprar elétricos.
A fatia dos carros elétricos nas vendas globais de automóveis atingiu, no mês passado, o maior patamar da história: 26,1% de todos os carros vendidos no mundo são elétricos — excluindo setembro de 2025, quando os EUA registraram um pico pontual antes do fim de um incentivo fiscal.
Esse número representa uma alta de 3,4 pontos percentuais desde fevereiro — ou seja, em apenas quatro meses, quase quatro em cada 100 carros vendidos no planeta migraram do motor a combustão para o elétrico.
A China liderou a corrida: lá, a penetração de elétricos subiu 11,4 pontos percentuais no período. Dos 15 maiores mercados de elétricos do mundo, 12 registraram avanço na fatia de vendas.
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A lógica é óbvia: carro elétrico não abastece em posto. Cada veículo que substitui um modelo a combustão retira uma fatia da demanda por gasolina e diesel.
O Goldman Sachs tem uma régua para calcular esse impacto: a cada 1 milhão de carros que migram do motor a combustão para o elétrico, a demanda por petróleo cai 30 mil barris por dia nos EUA e 20 mil barris por dia no resto do mundo.
Aplicando essa conta às vendas aceleradas dos últimos meses, o banco estimou dois cenários para o impacto até dezembro de 2027.
No cenário conservador, se a fatia de elétricos parar de crescer agora e se estabilizar no nível de maio de 2026, a demanda global por petróleo seria 130 mil barris por dia menor do que seria sem o choque de Ormuz.
No cenário mais severo, se o ritmo de crescimento das vendas continuar nas tendências atuais, a queda na demanda pode chegar a 320 mil barris por dia (b/d) — o equivalente a toda a produção diária de um país de médio porte.
Para efeito de comparação: a demanda global por petróleo é de cerca de 103 milhões de barris por dia. Uma redução de 0,13 a 0,32 mb/d equivale a algo entre 0,1% e 0,3% do total — pequeno em termos percentuais, mas relevante o suficiente para pesar nos preços.
Os analistas do Goldman alertam que os números acima são, na verdade, conservadores. Há pelo menos dois fatores que ampliam o impacto real e não estão capturados nos cálculos:
1. Quem já tem elétrico usa mais o elétrico
Com combustível caro, donos de carros híbridos plug-in estão optando por recarregar em vez de abastecer. Quem tem um carro elétrico e um a combustão na garagem está preferindo sair com o elétrico.
Prova disso: as vendas de gasolina na China caíram mais de 20% em relação ao ano passado.
2. O petróleo não move só carros
Cerca de 55% da demanda global de petróleo vem de usos que não são combustível rodoviário — petroquímica, aviação, navegação.
A análise do Goldman não considera motos elétricas, que na Índia já representam 92% das vendas de veículos elétricos e no Vietnã, 80%.
O Goldman Sachs trabalha com um cenário de baixa no qual o Brent — referência global de preço do petróleo — pode recuar para a faixa dos US$ 50 a US$ 60 por barril no final de 2027, pressionado tanto pela queda de demanda quanto por uma oferta abundante.
Esse cenário de baixa pressupõe que a perda de demanda ligada ao choque de Ormuz chegue a 1,5 milhão de barris por dia — três vezes mais do que o banco projeta no cenário-base (500 mil barris por dia).
Vale lembrar que o cenário oposto também existe: se as restrições ao tráfego pelo Estreito de Ormuz se tornarem mais duradouras, o choque de oferta pode empurrar o petróleo para cima, ao menos no curto prazo.
Para quem investe, o tema é relevante em pelo menos duas frentes: Petrobras e energias do futuro.
No primeiro caso, uma queda estrutural na demanda global por petróleo pressiona as receitas da Petrobras no longo prazo e pode afetar os dividendos, que historicamente dependem do preço do barril.
No segundo, a aceleração global dos elétricos é um sinal de que a transição energética pode estar chegando mais rápido do que o esperado — o que cria tanto riscos para quem está no petróleo quanto oportunidades para quem aposta nas energias do futuro.
A guerra no Oriente Médio, ironicamente, pode ter feito mais pelo avanço dos carros elétricos do que anos de campanhas ambientais. E o mercado de petróleo começa a sentir.
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